O
retrato é um dos mais poderosos gêneros da história das artes visuais, com uma
presença que se estende desde pelo menos o século 270 a.C. até os dias de hoje.
O mais antigo exemplo de retrato em pintura sobre tela é uma madona de 1410. Em
meados do século 19, a iniciante fotografia cresceu com o avanço tecnológico
das lentes e do suporte sensível à luz, possibilitando o registro de retratos
fotográficos. Surgiram
grandes estúdios mundo afora, ajudando a transformar a fotografia
num dos mais lucrativos negócios. Em Paris, França, 1934, nasceu o lendário STUDIO HARCOURT. Memória
pictórica de icônicas figuras artísticas, culturais e políticas do século XX. Um belo trabalho fotográfico num
jogo lúdico - e misterioso - de sombra e luz. O STUDIO HARCOURT retratou alguns dos mais célebres nomes
da sétima arte na França, estrelas como Brigitte Bardot, Alain Delon,
Jean Gabin, Joséphine Baker, Jean Cocteau, Serge Gainsbourg, Yves Montand e
Simone Signoret. Ainda no campo do cinema, Marlène Dietrich, Jean Marais, Jeanne
Moreau, Catherine Deneuve e Michèle Morgan.“Deixar uma marca, uma imagem enaltecida, é essa a vocação da
foto Harcourt.”, disse um de seus proprietários, Francis Dagnan.
Desde
o início da empresa que a marca “Harcourt Paris”, qual selo
hierático, assina o retrato. Transformado em mito, ganhou fama acreditando na “fotografia de arte”, enaltecendo o retrato fotográfico. A grife STUDIO HARCOURT, reconhecida em todo o mundo, inspira-se nas raízes glamourosas do
cinema clássico preto e branco. São imagens inconfundíveis: muitas vezes um facho
de luz corta o quadro, contornando a expressão, dando vida ao olhar, revelando
texturas. E o fotografado ganha a dimensão de personagem, afirmando sua
personalidade. Há um
elo privilegiado entre a razão e o espírito mágico. O retrato tanto se entrega
ao olhar do observador como o observa atentamente, o que pode ser ao mesmo
tempo reconfortante e ameaçador.
cosette harcourt
Tudo
começou graças a Cosette Harcourt. Com o nome verdadeiro de Germaine
Hirschefeld, ela nasceu em Paris no ano de 1900, filha de comerciantes judeus alemães
estabelecidos na França. Com o deflagrar da Primeira Guerra Mundial, a família
imigrou para Inglaterra. Voltamos a encontrar Mademoiselle Harcourt em Paris,
em 1930, aprendendo fotografia nos estúdios Manuel Frères. Em 1933, conheceu
Jacques Lacroix. Ele e seu irmão, Jean Lacroix, tinham criado, em 1927, uma
sociedade de imprensa, então em expansão.
Em 1928, a sua revista Guérir registra um enorme sucesso junto do grande
público. Depois fundaram com Robert Ricci, filho de Nina Ricci, uma agência de
publicidade, a Pro-Publicité. Após conhecer Cosette, Jacques Lacroix cria, com
o seu irmão e Robert Ricci, o STUDIO HARCOURT, ficando a responsabilidade da organização
com Cosette. Muito rapidamente, o renome se instala e o sucesso acontece. Toda
Paris vem ampliar sua fama e imortalizá-lo.
Com o
intuito de protegê-la dos nazistas, no início da Segunda Guerra Mundial,
Jacques Lacroix se casa com a judia Cosette, em agosto de 1940. Eles se
divorciam em 1946, mas permanecem juntos durante toda a vida. Então, Cosette
deixa Paris, instalando-se no sul da França, depois na Inglaterra. O estúdio
continua sua atividade, apesar de tudo. É a era dourada. Está em todo lugar: nos
títulos de imprensa dos irmãos Lacroix, na Agência France Presse e em muitos
cinemas, que exibem os retratos de atrizes e atores. Na década de 1950, tinha
mais de mil clientes por mês, ou cerca de quarenta por dia. Eles talvez nao soubessem que as culturas ditas primitivas não deixavam de ter razão quando instruíam seus membros a evitarem a fotografia: não é só a aparência do fotografado que a máquina captura, mas também seu espírito, sua essência. O retrato é, assim, um constante exercício de psicologia social e individual.
marlene dietrich
Os
irmãos Lacroix separam-se em 1969, ficando somente Jacques à frente dos
negócios. Cosette Harcourt morre em 1976, e em 1980 Jacques Lacroix liquida o
estúdio. Desde então, ele muda de mãos sucessivamente, oscilando entre a
tradição e a modernidade. Por iniciativa de Jack Lang, então ministro da
cultura francês, o acervo HARCOURT de negativos e arquivos foi adquirido pelo governo
francês e depositado na Midiateca da Arquitetura e do Patrimônio, no forte de
Saint-Cyr.
Adaptação
de um romance do famoso escritor belga Georges Simenon, trata-se de um filme em que as atitudes e olhares importam mais que os diálogos (escassos, embora precisos).
Tem como cenário um humilde subúrbio de Paris onde vegeta um idoso casal arruinado
pelo fim do amor. Quando o marido dedica o seu afeto a um gato vira-lata, a
tensão entre eles se torna insuportável. Aposentados, ela havia sido acrobata
de circo, ele tipógrafo. Ela era linda e ele um trabalhador comum e dedicado como
tantos outros. Inexplicavelmente, o amor desapareceu até o ponto de Julien (Jean
Gabin numa atuação sagaz, dilacerante) só amar a seu gato, enquanto Clémence (Simone
Signoret, lembrando Joan Crawford) ainda tem nostalgia de um amor perdido e se
refugia na bebida. Enlouquecida pelo desprezo, ela mata o gato a tiros. Julien
decide abandoná-la e vai viver com uma antiga namorada, mas Clémence assedia-o
e consegue fazê-lo voltar para casa. E a rotina recomeça, mais terrível que
nunca.
Controlar
a amargura desta relação é quase impossível - apesar das recordações sutis -, custando
imaginar que eles alguma vez se amaram e decidiram passar a vida juntos. O enorme
peso da incomunicação, do silencio entre estas duas pessoas - que praticamente
não se dirigem a palavra, comem sozinhos e dormem em camas separadas - e a
forma em que seguem vivendo dependendo um do outro, geram uma tensão
onipresente, com um desespero contido a ponto de explodir a qualquer momento. A
câmera sufocante parece dizer o tempo todo que a morte dos ex-amantes é inevitável,
e esse destino predeterminado nos comove profundamente. Sem nenhuma razão de existir,
eles estão mortos antes de morrerem fisicamente.
Como
vemos, não é um conto feliz, muito pelo contrário, com a infelicidade realçada
o tempo todo por edifícios vizinhos que estão sendo derrubados, talvez como
metáfora da decadência da dupla ou anunciação dos novos tempos que virão. A
potência expressiva dessa narrativa se apoia nas interpretações soberbas de dois
monstros sagrados do cinema: Simone Signoret e Jean Gabin. Em um duelo sem
concessões, além de qualquer melodrama, absorve a atenção do espectador, hipnotizando-nos.
Eles estão maravilhosos, numa impacto autodestruidor que lembra “Quem Tem Medo de Virginia Woolf? / Who’s
Afraid of Virginia Woolf?” (1966), de Mike Nichols. A cena da morte de
Clémence é arrebatadora, talvez a mais real que eu tenha visto nas telas.
Drama
excepcional, de atmosfera neurótica e traumática, O GATO retrata sem dó nem piedade
o fenecimento das ilusões amorosas. De atmosfera pesada, inquietante e
perturbadora, desenvolve uma crise matrimonial numa progressão bem administrada
e habilmente dosada, entre o pessimismo
e o desencorajamento. Foi dito, não sem razão, que esta é uma das obras
cinematográficas mais devastadoras sobre a vida conjugal, traduzindo o amor
destruído, o declínio definitivo e fatal da vida de casado. Mas com certeza não
é uma história incomum. Não deve ser difícil encontrar casais que evitam o
divórcio – especialmente se tem certa idade -, embora se detestem, continuando
juntos por pura inércia, ou por temer uma solidão ainda maior.
Primeiro
filme que vi deste diretor, surpreendi-me gratamente, tanto pelo argumento,
cuja luminosidade devemos a Simenon, como por seu estilo direto, fulminante.
Clássico e discreto, Pierre Granier-Deferre lembra o método eficaz e talentoso
de William Wyler. Ele considerava O GATO o seu melhor trabalho. Recomendo, se
tiver oportunidade de vê-lo. Não vai se arrepender. Com certeza irá procurar
outros filmes do diretor ou dos atores protagonistas. Como conheço muito bem a
filmografia de Gabin e Signoret,
fui em busca de Granier-Deferre, assistindo “A Viúva / La Veuce Couderc” (1971)
e “O Trem / Le Train” (1973), outros dois grandes filmes. Mas aí já é
outra história.
O
GATO. Título Original: Le Chat. Ano: 1971. Países: França e Itália. Gênero:
Drama. Duração: 86 min. Produção: Raymond Danon (Lira Filmes / Cinétel / Gafer).
Direção: Pierre Granier-Deferre. Roteiro: Pierre Granier-Deferre e Pascal
Jardin. Baseado no romance de Georges Simenon. Fotografia: Walter Wottitz.
Edição: Nino Baragli e Jean Ravel. Trilha Sonora: Philippe Sarde. Cenografia:
Jacques Saulnier e Charles Merangel. Figurino: Yvette Bonnay e
Micheline Bonnet. Elenco: Jean Gabin (“Julian Bouin”), Simone Signoret (“Clémence
Bouin”) e Annie Cordy.
Nota: ***** (ótimo)
Prêmios: Urso de Prata de Melhor Atriz
e Melhor Ator no Festival de Berlim.
PIERRE GRANIER-DEFERRE
(1927-2007)
Cineasta
francês que nunca obteve reconhecimento da crítica, ganhou um César (o Oscar
francês) e teve uma carreira de mais de quatro décadas, dirigindo as principais estrelas da França dos anos
60 e 70, como Romy Schneider, Yves Montand, Jeanne Moreau, Alain Delon,
Jean Gabin, Simone Signoret, Jean-Louis Trintignant, Lino Ventura, Michel
Piccoli, Philippe Noiret, Jean Rochefort e Patrick Dewaere. Apaixonado pelos
chamados “policiais noir” de George Simenon, foi assistente de Marcel Carné.
Era um desses diretores que os críticos não valorizam muito, mas nunca deixou
de ser bom a serviço de um tema delicado, extraindo o melhor dos atores. Mais
do que um cinema de autor, o dele era de ator. Conhecido pela despretensão estilística,
fazia cinema baseado nas coisas simples (mas complexas) da vida. Um cinema
honesto e de qualidade, que muitas vezes surpreendia.
GEORGES SIMENON
(1903-1989)
De
uma fecundidade extraordinária, escreveu 192 romances e 158 novelas, além de
obras autobiográficas e numerosos artigos e reportagens sob seu nome e dezenas
de romances, contos e artigos sob vinte e sete pseudônimos diferentes. As
tiragens acumuladas de seus livros atingem mais de 500 milhões de exemplares.
Seu personagem mais famoso é o Comissário Maigret, presente em setenta e cinco
novelas e vinte e oito contos. Em 1919, começa como repórter no jornal "La
Gazette de Liége", escrevendo com o pseudônimo de “G. Sim.”. Nesse ano,
redige seu primeiro romance, “Au Pont dês Arches”, publicado em 1921. Nessa
época, aprofunda seu conhecimento do meio boêmio, das prostitutas, dos bêbados,
anarquistas, artistas e mesmo futuros assassinos. Diferente de muitos autores,
que tentam construir uma intriga o mais complexa possível, como um jogo de
ecos, Simenon propunha uma trama simples mas com personagens fortes, um herói
humano obrigado a ir ao fundo de sua lógica. A sua mensagem é complexa e
ambígua: nem culpados nem inocentes, mas culpas que se engendram e se destroem
em uma cadeia sem fim. Os seus romances colocam o leitor em um mundo rico de
cores, sentimentos e sensações. Baseados nas intrigas de pequenas vilas de
província, evoluem à sombra de personagens de aparência respeitável mas que urdem
feitos tenebrosos, numa atmosfera própria, do qual os do Comissário Maigret
são, certamente, os mais populares.
SIMONE SIGNORET
(1921-1985)
Símbolo
da França, viveu seus últimos dias doente, até ser derrotada por um câncer
contra o qual lutou até o fim. Em seu último trabalho para o cinema, “Guy de Maupassant”, rodado em
1981, já tinha perdido 15 quilos, mas sua força e vitalidade continuavam
intocadas. Judia de origem alemã, estreou no cinema em 1942. Sete anos depois encontra
Yves Montand e a paixão é definitiva. Desde o começo, é uma relação única. Ela
o acompanha em seu engajamento ideológico de esquerda e nas lutas pelos
direitos do homem. Cada um faz sua carreira, Yves como cantor e ator de
primeira grandeza e Simone como atriz completa, uma atriz que nunca quis ser
estrela, mantendo ferozmente a individualidade, a vida à margem da ficção das
telas. Seguem-se papéis memoráveis nas mãos de diretores como Max Ophuls, Marcel Carné, Henri-Georges
Clouzot, Luis Buñuel, René Clement, Costa-Gavras, Sidney Lumet, Jean-Pierre
Melville e Patrice Chéreau. Com
o inglês “Almas em Leilão / Room at the Top” (1959), de Jack Clayton, ganha
o prêmio de Melhor Atriz em Cannes e o Oscar de Melhor Interpretação Feminina.
Sua carreira abrange mais de 60
filmes, desde superproduções até filmes políticos. Corajosa, lúcida, foi
grande até o final. Sua luz, a luz de alguém que olhou a vida corajosamente de
frente em todos os momentos, que amou e foi amada por seu público, brilhará
para sempre.
JEAN GABIN
(1904-1976)
Passou
quinze anos atuando em cabarés antes de debutar no cinema em 1928, nos brindado com verdadeiros
clássicos como “A Grande Ilusão / La Grand Illusion” (1937), “Cais das
Sombras / Le Quai des Brumes” (1938), “O Prazer / Le Plaisir” (1952), “French Can-Can
/ Idem” (1954) e “Gangsters de Casaca / Mélodie en sous-sol” (1963). Seu início
de carreira foi bastante difícil, trabalhando em produções de menor
importância. Contudo, Julien Duvivier dá-lhe a oportunidade de mostrar seu
talento em “A Bandeira / La
Bandera” (1935) e, principalmente, na produção “O Demônio da Algéria / Pépe le
Moko” (1937), no qual interpreta um criminoso com brio e grande sucesso.
Em 1941 deixa a França em direção a Hollywood, pois se recusou a filmar para os
alemães. Nos EUA atua em dois
filmes: “Brumas / Moontide” (1942) e “O Impostor” (1944), enquanto se
envolve amorosamente com Ginger Rogers e Marlene Dietrich. Quando retorna ao
seu país, começa um período de declínio na sua carreira. O renascimento vem com o policial “Grisbi,
Ouro Maldito / Touchez Pas au Grisbi” (1954), ao lado de Jeanne Moreau.
Recuperado o sucesso, mostrando o quanto seu talento permanecia intacto,
nos anos 60 abre sua própria empresa de produção, junto com Fernandel: a
“Gafel”. Expande sua fazenda na Normandia comprando terras e tornando-se
criador de gado. Seu último
filme, a comédia “L'Année Sainte” (1976), dirigido por Jean Girault e
com Jean-Claude Brialy e Danielle Darrieux, foi um fracasso. Nesse mesmo ano se
foi, e com ele uma figura mítica do cinema francês.
ParaLUIS BUÑUEL(1900-1983), a função do cinema não é representar a realidade, mas poetizá-la visceralmente. “O cinema”, afirma, “parece ter sido inventado para expressar a vida subconsciente, tão profundamente presente na poesia”. Por isso, sua obra ficou rotulada como maldita, na melhor acepção do termo maldito. Obra esta marcada por filmes anti-religião, anti-família e anti-sociedade, sendo responsável por uma profunda reestruturação da função do cinema. Depois dos primeiros filmes emblemáticos e da temporada no México, seu fôlego criativo encontrou abrigo na França, rodando espontâneos processos da inconsciência, mostrando assim um mundo absolutamente caótico e multifacetado. Essa fase francesa, a mais célebre de sua carreira, foi valorizada por atores como Catherine Deneuve, Fernando Rey, Michel Piccoli, Georges Marchal e Pierre Clémenti. Prestando homenagem a um cineasta notável, que permanece agredindo, maravilhando e estendendo sua influência pelo cinema contemporâneo (de Almodóvar a François Ozon), publico uma entrevista de 2009 com o excelenteMICHEL PICCOLI(nascido em 1925) sobre Don Luís, lembrando também os cinco filmes que fizeram juntos. Boa leitura.
buñuel, julien bertheau e piccoli
VOCÊ TRABALHOU COM UM CERTO SENHOR LUIS BUÑUEL?
Eu não me lembro muito bem. Eu não me lembro porque o Sr. Buñuel era muito discreto, muito reservado. Não tenho certeza se ele gostaria que suas histórias fossem reveladas. Mas eu trabalhei com esse senhor.
O PRIMEIRO FILME FOI “A MORTE NESTE JARDIM”?
Sim. Eu tive a chance de convidar o Sr. Buñuel para me ver em uma peça. Porque pensei que eu poderia interessá-lo. Ele veio ver a peça, ficou entusiasmado e um tipo de vínculo foi formado. Então, um dia, uma produtora me ligou e disse “nós estamos produzindo um filme do Sr. Buñuel e temos um papel para você”. Quando cheguei ao México o Sr. Buñuel me cumprimentou e disse: “Você não se parece nada com o personagem, mas estou feliz em te ver”. Assim foi o começo de minha “buñuelização”.
simone signoret e piccoli em "a morte neste jardim"
COMO FOI A FILMAGEM DE “A MORTE NESTE JARDIM”?
Épico. No começo o Sr. Buñuel não estava feliz com o roteiro. Ele tinha muitas dúvidas. Toda manhã ele se levantada cedo para escrever ou reescrever. O elenco tinha muitas estrelas. Eu sou o único que está vivo... Eu me lembro de tudo do Sr. Buñuel por causa da maestria de suas idéias e ações. Ele tinha muito medo de criaturas selvagens. Usava todas as proteções durante a filmagem: botas, calças de montaria, pulôveres.
VOCÊ FEZ OUTRO FILME DELE, “DIÁRIO DE UMA CAMAREIRA”, COM JEANNE MOREAU...
Foi um filme muito cômico. Acho que o Sr. Buñuel se divertiu muito mostrando estes personagens excêntricos, de mau gosto, muito sombrios. Mas de um jeito muito discreto, meticuloso. O Sr. Buñuel tinha muita loucura, mas também era extremamente sério e preciso. Ele nunca procurou importunar a existência de ninguém. Porque o seu maior talento, e o seu maior prazer, era confundir as pessoas, tanto suas mentes quanto as suas vidas. Trabalhar com o Sr. Buñuel era de certo modo bastante simples. Exceto que, isso é muito importante, você tinha que obedecer e não fazer perguntas. Você não podia perguntar: “Por que sentar nesta cadeira e não naquela?”. Era assim: “Você senta lá. Ele senta aqui. Você fala. Ele fala. Você responde. Só isso. Consiga na primeira tomada, por favor”.
piccoli e catherine deneive em "a bela da tarde"
ELE EXPLICAVA A PSICOLOGIA DO PERSONAGEM?
Ele não sabia nada disso, ou não se importava em saber. Às vezes, por diversão, eu perguntava: “Sr. Buñuel, qual o significado implícito desta cena?”. Ele enrolava e não respondia.
E “A BELA DA TARDE”?
Ah, “A Bela da Tarde”. Eu tive muita sorte de... Como poderia dizer? Considerando que é o Sr. Buñuel, soa pretensioso, mas tive a sorte de compartilhar uma amizade de confiança e humor com ele, trabalhando em vários de seus filmes.
jeanne moreau e piccoli em "diário de uma camareira"
ELE GOSTAVA DE RIR?
Ele amava rir. Era um homem extremamente rígido e discreto, mas também, extremamente louco. Ele amava surpreender as pessoas com as histórias dele. Ele não tentava fazer as pessoas rirem. O que ele gostava, com seu rigor e humor chocante, era agitar as pessoas, mas sempre com grande discrição, atenção e amizade. Nunca era agressivo, nunca. Era só com quem era íntimo dele que ele expressava raiva ou seus pensamentos interiores. Mas isso era muito raro.
E “O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA”?
O que posso dizer sobre o trabalho que fiz com o Sr. Buñuel? Ele fez filmes que formaram um tipo de diálogo entre si. Sempre havia a mesma intensidade, a mesma densidade, a mesma loucura no trabalho do Sr. Buñuel. Isso sempre estava presente. Nós nos divertimos. É o melhor jeito de dizer. Isso é tudo o que se pode dizer. Todas as pessoas que trabalharam com ele, atores ou técnicos. Era um tipo de trupe eterna. Eu digo “eterna” porque, quando, entre nós, falamos sobre o Sr. Buñuel é como se ele ainda estivesse vivo. É a brincadeira mais terrível dele. Porque ele era um homem exemplar. “Um homem exemplar” soa terrível. Eles não existem. Imaginamos que ele nem sempre foi exemplar durante toda a sua vida. Mas ele adorava ter uma consciência clara e estar impecável tanto no seu trabalho quanto com as pessoas. De todos os diretores que conheci, ele foi o mais profundamente honesto e escrupuloso com os seus orçamentos. Ele nunca ultrapassou o orçamento, nem mesmo por um franco. Ele era um homem meticuloso sobre todos os pontos de vista. Ele era extremamente meticuloso e extremamente louco.
stephane audran e piccoli em "o discreto charme da burguesia"
PICCOLI DIRIGIDO POR BUÑUEL
A MORTE NESTE JARDIM / La Mort en ce Jardin (1956)
DIÁRIO DE UMA CAMAREIRA / Le Journal d’une Femme de Chambre (1964)
A BELA DA TARDE / Belle de Jour (1967)
O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO / La Voie Lactée (1969)
O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA / Le Charme Discret de la Bourgeoisie (1972)
O FANTASMA DA LIBERDADE / Le Fantôme de la Liberté (1974)
buñuel por salvador dali *******
O QUE ESTÁ FAZENDO
WAGNER MOURA
Depois de ter alcançado o improvável com a ficção-científica de baixo custo “Distrito 9 / District 9” (2009) e receber quatro nomeações ao Oscar (Melhor Filme, Melhor Argumento Original, Melhor Montagem e Melhores Efeitos Visuais), o sul-africano Neill Blomkamp prepara o seu novo longa-metragem, “Elysium”. O argumento ainda permanece uma incógnita, mas já se sabe que a história se passa 100 anos no futuro e terá diversas metáforas políticas. Jodie Foster será uma chefe de estado num planeta alienígena. Ao lado da grande Jodie, Matt Damon, William Fichtner, Sharlto Copley, Diego Luna e os brasileiros Wagner Moura, Alice Braga e Sonia Braga. Wagner Moura será o vilão da história, um tipo poderoso com um sentido de humor doentio. Esta será a primeira atuação de Moura numa produção de Hollywood. O ator chamou a atenção mundial pelo papel de Capitão Nascimento nos dois filmes "Tropa de Elite", de José Padilha. O primeiro ganhou o Urso de Ouro em Berlim, em 2008, e o segundo é o filme brasileiro mais rentável de todos os tempos. Antes desse trabalho, o ator finalizou a comédia “O Homem do Futuro”, de Cláudio Torres, contracenando com Aline Moraes e Maria Luísa Mendonça. As filmagens de “Elysium” começaram em julho em Vancouver, Canadá, e depois seguiu para a Cidade do México. O filme deverá chegar aos cinemas em 2013.