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junho 26, 2016

******************* O INDOMÁVEL STEVE McQUEEN


Um astro atormentado, irreverente, extremamente autêntico. Talvez o anti-herói mais memorável da história do cinema. A sua carreira não foi muito longa, a sua vida também não. Mas ambas foram vividas intensamente. 

Conhecido em Hollywood como “The King of Cool” (algo como “O Rei da Descontração”), ele se definia como “cínico, rebelde e nada bonito”, e sempre procurou personagens obcecados por um ideal, nada românticos, sem o estereótipo do galã. Apontado no início da carreira como o substituto de James Dean e Marlon Brando, o lendário STEVE McQUEEN (Beech Grove, Indiana, 24 de março de 1930 — Ciudad Juárez, México, 7 de novembro de 1980) se diferencia pela mistura de erotismo, sensibilidade e coragem. Chegou a ser o ator mais bem pago do mundo na década de 1970. Raramente utilizava dublês, sendo ele mesmo que dirigia os veículos em perigosas cenas. Em “Fugindo do Inferno (1963), na endiabrada corrida de motocicleta, perseguido pelos nazistas, realmente é ele pilotando. Apenas o famoso salto por cima da barreira de arame farpado foi executado por um dublê, já que a seguradora não permitiu tal risco.

Nasceu numa fazenda. Abandonado pelo pai, criado por um tio agricultor e uma mãe de presença inconstante, ele teve uma adolescência turbulenta, convivendo com vagabundos e delinquentes. Conheceu diversos padrastos pouco simpáticos e constantes cenas de pancadaria doméstica. Passou dois anos num reformatório da Califórnia. Aos quinze anos abandonou definitivamente a família para ser carregador, empregado de posto de gasolina e vendedor. Tinha razões para se sentir revoltado e negligenciado. No entanto, anos depois, quando a mãe indiferente morreu, compareceu no funeral e foi a única vez que chorou em público.

Alistou-se na Marinha em 1947, onde esteve vários anos, sendo despromovido de cabo a soldado devido ao seu comportamento desordeiro. Passou mais de um mês na cadeia, antes de ser desmobilizado. Em 1952, fez uma audição no Actors Studio, de Lee Strasberg. Das duas mil pessoas que tentaram ser admitidas nesse ano apenas ele e Martin Landau foram aprovados. O aspirante estreou na Broadway em 1955, num pequeno papel na peça “Cárcere sem Grades / A Hatful of Rain”. Participou de diversas séries de TV. Entre 1958 e 1961 estrelou “Procurado: Vivo ou Morto”, faroeste de sucesso para a CBS, que rendeu noventa e quatro episódios. Ao longo das filmagens, ele aperfeiçoou a técnica de sacar rápido e de se mover com destreza, além de revelar carisma e vigor. Durante a rodagem adquiriu a reputação de pessoa difícil. O ator Don Gordon reparou na impopularidade do colega e disse-lhe, ouvindo como resposta: “Estou aqui para trabalhar, não para ser um sujeito simpático.”.  

Começou no cinema numa participação minúscula em “Marcado pela Sarjeta / Somebody Up There Likes Me” (1956), estrelado por Paul Newman, então seu amante. Newman se apaixonou perdidamente pelo novato, desenvolvendo uma relação de amor e ódio que nunca seria muito bem resolvida. Em 1974, ao contracenarem em “Inferno na Torre / The Towering Inferno”, o modo como os nomes surgiriam nos créditos gerou calorosas discussões – ambos queriam aparecer primeiro – e foi adotada a solução de colocá-los lado a lado, um ligeiramente acima do outro. A história cabulosa está na biografia não autorizada de Paul Newman, “The Man Behind the Baby Blues” (2009), de Darwin Porter.

Em 1958, STEVE MCQUEEN teve seu primeiro papel protagonista no cult de terror “A Bolha Assassina / The Blob”. Porém, o filme que o converteu em astro foi o campeão de bilheterias “Fugindo do Inferno”. Típico durão hollywoodiano, versão anos 1960 de Humphrey Bogart e outras lendas do passado, ele era um solitário por natureza e sua insociabilidade atingiu o ápice entre 1974 e 1978, quando preferia ficar trancado em casa, drogando-se e bebendo cerveja. Rejeitou convites milionários para atuar em “Apocalypse Now / Idem” (1979), de Francis Ford Coppola, e trabalhar ao lado de Sophia Loren. Recusou também “Perseguidor Implacável / Dirty Harry” (1971), “Operação França / The French Connection” (1971), “Um Estranho no Ninho / One Flew Over the Cuckoo’s Nest” (1975) e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau / Close Encounters of the Third Kind” (1977).

Tinha tamanho desprezo pelo meio cinematográfico que se desligou totalmente de Hollywood, reconhecendo que fazia filmes por dinheiro e que estava pouco ligando para festas, glamour, entrevistas e premiações. Foi nomeado apenas uma vez ao Oscar, por “O Canhoneiro do Yang-Tsé”, perdendo para Paul Scofield em “O Homem que Não Vendeu sua Alma / A Man for All Seasons”. Ao receber a notícia que concorria ao Globo de Ouro por “Papillon”, respondeu: “Não estarei presente na cerimônia. Se eu ganhar, mandem o prêmio pelo correio.”.

Inúmeras biografias retratam a vida e a carreira de STEVE McQUEEN. Todas documentam o seu lado negro. Mas acabam por se render às evidências: havia sensibilidade debaixo da fachada rude. Um dos seus biógrafos, Marshall Terrill, afirma que o ator “era várias pessoas numa só. Honesto, desonesto, amável, odioso, modesto, presunçoso, inteligente, maduro, infantil… Era capaz de jurar amor eterno à esposa e ter um caso logo a seguir. Era mesquinho com os amigos, mas extremamente generoso com estranhos. Falava sobre os perigos das drogas, mas não conseguia evitá-las. Os paradoxos sempre me fascinaram e ele era o derradeiro paradoxo”. Chad McQueen, o seu filho, reconhece que o pai não estava muito presente, mas sempre o tratou bem, “já que decidira que os filhos não teriam a mesma infância dele”.

Poucos gostavam dele. Insuportável e competitivo, “roubava” filmes deliberadamente. Andava com as mulheres de atores. Tinha tudo o que muitos não tinham. Semeava invejas. Abusava do álcool e das drogas. Nas filmagens de “Sete Homens e Um Destino” (1960) teve sérios problemas com Yul Brynner. No drama “Papillon” (1973), em disputa acirrada com Dustin Hoffman, aconselhou ironicamente ao colega a ter cuidado com as armadilhas fáceis da droga. “Não é da tua conta”, respondeu Dustin, irritado, concluindo: “Você bebe cerveja e fuma marijuana como um louco, não é grande exemplo.”. Rodando “Crown, o Magnífico” (1968), chamava Faye Dunaway, pelas costas, de “Done Fadeway” (esquecida, acabada).

Outro inimigo foi Bruce Lee, que lhe deu lições de artes marciais e tinha um despeito terrível dele. A ambição de Lee era ser o “Steve McQueen asiático”. Quando alcançou o sucesso, escreveu uma mensagem arrogante: “Vê, sou mais famoso do que você!”. O ator rebateu enviando a Lee uma foto autografada, dizendo, “para Bruce, o meu fã número um”. A resposta foi um telefonema histérico do oriental, com o seu inglês macarrônico: “Steve, I kill you, I kill you!”.

Apaixonou-se pela velocidade aos 4 anos de idade, quando ganhou um triciclo. Atuar era sua profissão, mas o que STEVE McQUEEN gostava mesmo era de pilotar. Sua paixão pela velocidade era tanta que chegava ao ponto de pedir para seu mecânico ler os roteiros de filmes que recebia e mostrar apenas os mais interessantes. Possuía uma coleção de mais de 100 motos e carros raros, dentre eles clássicos como Triumph, Jaguar, Mini Cooper, Ferrari e Porsche. Em 1984, a coleção foi leiloada, atingindo valores astronômicos. Não era apenas um amante e conhecedor de motocicletas e carros, mas principalmente um talentoso piloto e motociclista. Além disso, criou e patenteou um novo banco “concha” e um sistema para largadas de corridas de arrancada, conhecido como transbrake.

Sua vida sentimental foi complicada. Casou-se três vezes, a primeira com a cantora e dançarina Neile Adams, com quem teve dois filhos, e depois com a atriz Ali MacGraw, seu maior amor, que conheceu durante as filmagens de “Os Implacáveis” (1972), e por último com Barbara Minty. Ao se apaixonar por STEVE McQUEEN, a atriz Ali MacGraw pediu o divórcio ao então marido, o poderoso produtor Robert Evans. Foi um escândalo. Evans tinha grandes planos para a esposa. Havia reservado para ela os papéis principais de “O Grande Gatsby / The Great Gatsby” e “Chinatown / Idem”, ambos de 1974. Revoltado, boicotou a estrela e ela nunca mais conheceu o sucesso. O casamento com McQueen não durou muito. Em 1978 eles se separaram.


Apesar de episódios bissexuais no início da carreira, ele era um mulherengo incurável. No entanto, ao contracenar com Natalie Wood em “O Preço de um Prazer” (1963), resistiu às investidas da atriz, já que era amigo do marido dela, Robert Wagner. Natalie tinha por hábito conquistar todas as co-estrelas com quem trabalhava, e dizem que anos mais tarde compensou a oportunidade perdida.

O ator esteve na famosa lista negra da seita “A Família”, do assassino Charles Manson. Ele salvou-se da morte em 1969, na noite em que adeptos do fanático assassinou Sharon Tate e mais três pessoas, em casa de Roman Polanski. Amigo da atriz, combinara visitá-la, mas, à última hora, desmarcou o encontro. Teria sido a quinta vítima. Quando tomou conhecimento do assassinato, comprou uma arma, que sempre levava com ele dia e noite.


Durante a sua vida, STEVE McQUEEN deu polpudas somas a instituições de caridade. Preocupava-se com crianças sem lar e agia com discrição, através de intermediários. Só depois da sua morte se soube que dera milhões de dólares para ajudar os desfavorecidos. Na época em que era o ator mais bem pago do mundo, uma instituição de solidariedade convidou diversas celebridades para um evento de angariação de fundos. Nenhuma apareceu, a não ser ele, que chegou de moto, perfeitamente descontraído.

O seu fim foi amargo. Perdeu a batalha contra uma forma rara de câncer do pulmão, provocada pela exposição ao amianto. Escondendo a doença, tentou todo o tipo de terapias alternativas. A doença minou o seu corpo. Os olhos azuis ficaram acinzentados. Faleceu vítima de ataque cardíaco, depois de uma operação numa clínica em Juarez, no México, em 7 de novembro de 1980, aos 50 anos. As suas cinzas foram espalhadas no Oceano Pacífico.


A ÚLTIMA ENTREVISTA

Durante as filmagens do thriller “Caçador Implacável / The Hunter” (1980), o seu derradeiro filme, foi entrevistado por um estudante, Richard Kraus, para o jornal colegial “The Federalist - UCLA’s Daily Bruin”. Confira.

Encontrei-o na filmagem de uma cena. Quando ela acabou, ele viu-me no meio da multidão e disse a todos que ia fazer uma pausa. Sentamos-nos numa escada. O mais estranho foi que a equipe de filmagem formou um grupo à nossa volta, assistindo à entrevista, já que sabiam que ele nunca as dava.

Quando terminamos, ele perguntou se podia continuar. Pôs o braço em redor do meu ombro e acompanhou-me por um corredor, longe de todos, e falou-me sobre a importância de viver e aprender. Foi um momento especial.

Qual foi o seu primeiro filme?

(Antes de responder, alguém gritou, “A Bolha Assassina”, e Steve ficou embaraçado) Não falemos disso. Não quero falar desse filme. Próxima pergunta.

Planeja fazer mais filmes num futuro próximo?

Isso é uma grande interrogação. Quando terminar este, gostaria de me sentar a tomar o café da manhã descansado, para variar, e logo se vê. Gostaria de fazer um filme de ação/aventura. Gosto de variar. Gostei de “O Preço de um Prazer”, uma comédia. Diverti-me fazendo “O Canhoneiro do Yang-Tsé”, que era essencialmente um drama, e também “Bullitt”, um filme de ação. Por isso, vê que gosto de papéis diferentes. O meu primeiro filme foi “A Bolha Assassina”… Fiz papel de rapazinho. Foi quando tinha uns 25. Nasci tarde para o mundo da representação.

E qual foi o seu passado?

Meti-me em muitas confusões quando era garoto, coisas que, nos dias de hoje, ninguém ligaria. Roubos, bebida e drogas. Embora, na época, drogas não fossem consideradas coisas más.

Ser famoso interfere na sua vida privada?

Sim. O mais importante é termos a nossa identidade, mas nunca descurarmos a obscuridade. É essa a chave, mas o dinheiro faz-me sentir bem.

Tem estado sob o olhar do público nos últimos anos, mas, mesmo quando faz filmes, não dá entrevistas. Por que esse silêncio?

Para começar, não tenho nada a dizer. Além disso, acho que a imprensa é uma enrolação. Mas tenho um certo respeito pela juventude, e foi por isso que concordei em dar esta entrevista para o seu jornal.

Quando foi entrevistado pela última vez?

Uma década... Foi há 10 anos. Já nem me lembro quem me entrevistou.

Que conselho daria a jovens que querem ser atores?

É muito “caro” ser ator, custa tempo e dinheiro. Não aconselho ninguém a sê-lo. Sou um dos que teve sorte. Mas se decidir ser ator, prepare-se para desistir de todo o resto e de viver uma vida sã. Isso inclui comer e dormir em condições. Deve “ver” a vida para que possa retirar-lhe as camadas e usá-la no trabalho. Aprender coisas na rua ajudou-me muito no meu trabalho. Não sou um ator acadêmico. Tem também de estar preparado para ser rejeitado cinco vezes por dia. Aí entra a importância da família. A família dá a força de uma rocha.

Quem eram os seus ídolos de adolescente?

Bom, acho que você não lembraria de nenhum deles.

Mas os professores também leem o nosso jornal.

Mas isto não é para os professores. É para os alunos.


10 FILMES de STEVE McQUEEN
(por ordem de preferência)

01
BULLITT
(Idem, 1968)
de Peter Yates
com Robert Vaughn e Jacqueline Bisset


02
PAPILLON
(Idem, 1973)
de Franklin J. Schaffner
com Dustin Hoffman e Victor Jory


03
A MESA do DIABO
(The Cincinnati Kid, 1965)
de Norman Jewison
com Ann-Margret, Karl Malden, Tuesday Weld,
Edward G. Robinson e Joan Blondell



04
Os IMPLACÁVEIS
(The Getaway, 1972)
de Sam Peckinpah
com Ali MacGraw e Ben Johnson



05
O PREÇO de um PRAZER
(Love with the Proper Stranger, 1963)
de Robert Mulligan
com Natalie Wood



06
CROWN, o MAGNÍFICO
(The Thomas Crown Affair, 1968)
de Norman Jewison
com Faye Dunaway


07
FUGINDO do INFERNO
(The Great Escape, 1963)
de John Sturges
com James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson
e James Coburn


08
O GÊNIO do MAL
(Baby the Rain Must Fall, 1965)
de Robert Mulligan
com Lee Remick e Don Murray


09
O CANHONEIRO do YANG-TSÉ
(The Sand Pebbles, 1966)
de Robert Wise
com Richard Attenborough e Candice Bergen


 10
SETE HOMENS e um DESTINO
(The Magnificent Seven, 1960)
de John Sturges
com Yul Brynner, Eli Wallach, Charles Bronson
e James Coburn

junho 06, 2016

************* O TALENTO DIABÓLICO de POLANSKI


Antonio Nahud
Ibiza, Espanha.
2004
entrevista publicada no jornal A Tarde (BA)
e na revista Profashional (SP)

Vista para o mar Mediterrâneo. Cenário de cinema. No alto da colina, a paradisíaca residência protegida por pinheiros. No interior, decoração curiosa entre o oriental e o mexicano. ROMAN POLANSKI, 71 anos, na varanda, fuma um requintado charuto cubano. Sua mulher há mais de uma década, a atriz francesa Emmanuelle Seigner, deitada em um sofá branco, lê um best-seller, indiferente à entrevista. A filha Morgane brinca na piscina; o mais novo, Elvis, no colo da babá. Não há sinal do homem que cultua o satânico, como a mídia faz crer. Ambiente agradável, familiar.

Nascido casualmente em Paris, o cineasta polaco realizou filmes consagrados, desde a aplaudida estreia em  “A Faca na Água / Nóz w Wodzie” (1962). Após duas décadas ingratas,  ganhou a Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes e o Oscar de Direção pelo drama de guerra “O Pianista / The Pianist” (2002). De vida intensa, marcada por cruéis experiências, sua mãe morreu em um campo de concentração nazista; ele passou a infância no gueto judeu de Cracóvia; a esposa Sharon Tate, grávida, assassinada por um fanático bando religioso; foi acusado de relações sexuais com uma menor, na casa de Jack Nicholson, e expulso dos Estados Unidos. Entre outros casos turbulentos.

polanski e emmanuelle seigner
Sunga minúscula, camiseta azul, descalço, olhos irônicos, baixinho, enxuto e simpático, o autor do asfixiante “O Bebê de Rosemary / Rosemary's Baby” (1968) deixa cair por terra o mito de enigmático, libertino e perverso. Amavelmente, fala sobre sua vida e carreira.

Sua esposa, Emmanuelle Seigner, atuou em alguns dos seus filmes. Qual é a importância dela para a sua vida e o seu trabalho?

Ela chegou num momento decisivo, trazendo harmonia e paz. Apesar da juventude, descobri que possuía um instinto enorme em relação as pessoas e uma visão muito justa diante das coisas da vida. É uma mulher realista. Com a idade, vem adquirindo uma particular sabedoria. Nos conhecemos muito bem e fizemos um pacto para esquecer nossa relação durante o trabalho. Profissionalmente dissimulamos a intimidade para evitar interferências na criação.

Trabalhou com gente do calibre de Mia Farrow, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani e Ben Kingsley. Como funciona o seu relacionamento com os atores?

Tive vários relacionamentos profundos com atrizes, casei com algumas delas. Respeito os atores, sou um deles. O que não entendo são os que mudam de comportamento quando atingem a fama. Acho absurdo quando um ator se crê superior, com direitos especiais, exigindo as coisas mais extravagantes. Aprecio os atores inteligentes e sensatos, que vivem uma vida comum. Gosto de trabalhar com atores bons, desses que interpretam qualquer tipo de papel, como Jack Nicholson ou Meryl Streep.

Acho louvável o seu interesse por atores veteranos, muitos deles praticamente aposentados.

É um prazer trabalhar com velhas glórias. Em “O Inquilino” dei um papel interessante a Shelley Winters. Trabalhei com Ruth Gordon, Melvyn Douglas e Ralph Bellamy em “O Bebê de Rosemary”. Eles são grandes atores da época de ouro de Hollywood. Considero que um bom ator não tem idade.

Passou por uma infância sofrida e outros complexos problemas mais adiante. “O Pianista” deu-lhe a oportunidade de reavaliar angústias e medos pessoais?

Passei a infância num gueto e consegui escapar. Eu queria fazer um filme sobre essa época, usando material da minha vida, mas não queria contar a minha história. Ao ler o livro, soube que “O Pianista” seria meu próximo filme. Apesar do horror, é uma história que tem um lado positivo. Um homem se salva por sua arte. A sobrevivência de um artista. O livro é objetivo, impressionou-me. Não queria fazer um filme sentimental típico de Hollywood.

Como “A Lista de Schindler” de Spielberg?

Falo de muitos filmes. “A Lista de Schindler” é um grande trabalho. Fui convidado por Spielberg para dirigi-lo, mas recusei. A história é muito próxima da minha própria história. Conheci intimamente muitos dos personagens dela, e alguns ainda estão vivos, são meus amigos. Eu não faria um bom filme nessa situação. Jamais exploraria a minha vida ou a de meus amigos para vender ingresso. O filme sem distanciamento não é arte, é cinebiografia.

sharon tate e polanski
Acredito que foi muito duro recriar um momento indigno da nossa história moderna que faz parte do seu passado.

Na realidade, não. Filmar não foi difícil. Meus fantasmas eram massacrados diariamente num set de filmagem com centenas de pessoas. Tinha que estar com a mente voltada para questões técnicas. Acompanhar o processo de criação do roteiro de Ronald Harwood foi mais doloroso.

Esta produção o resgatou de vários insucessos, calando a boca dos que diziam que estava criativamente acabado.

É um filme realmente importante para mim. Dirigi-o pensando num resultado simples, direto, procurando mostrar as coisas tal como as recordava. Rodei todo tipo de filme e tenho a impressão de que tudo o que fiz antes foi uma preparação para “O Pianista”. Pode ser que seja como um último chamado, afinal eu sempre soube que faria um filme na Polônia sobre a Segunda Guerra Mundial ou sobre o período pós-guerra.

Como assim “último chamado”? Soa misterioso, quase sobrenatural.

Não acredito no sobrenatural. Não sou uma pessoa religiosa, portanto não sou supersticioso. Não tenho interesse na metafísica nem no esoterismo. O sobrenatural é apenas um elemento que usei em alguns filmes. O sombrio está dentro de nós, não é preciso procurá-lo muito longe.

O macabro está presente em muitos dos seus filmes. É uma atração incontrolável?

Como já disse, não creio no sobrenatural. Rodei muitos filmes que não tratam do diabólico, mas sempre sou lembrado como o Polanski com seus infernos, com seus demônios. Dizem o mesmo em todo o mundo. Participei de uma coletiva de imprensa recentemente e todos os jornalistas falaram sobre tal assunto. O louco é que querem que eu aceite esse clichê, como se eu não fosse dono da minha própria vida. Nunca vi o diabo e não creio nele da forma que é vendido. Não participo de rituais ou bruxarias como dizem por aí.

Deixando de lado o diabólico banalizado, religioso, gostaria de saber sobre o conceito do mal presente em sua filmografia. Não há como negar, é fato.

A verdade é que a metáfora do mal me interessa, a ideia do homem enfrentado forças extremas que não controla. Gosto do macabro como espetáculo. O medo também pode ser divertido. Uso o mal nas telas como diversão. Por que nao? Ele está presente em “O Bebê de Rosemary” e em “O Último Portal”.

Também em “O Inquilino”, “Macbeth”, “A Dança dos Vampiros”, “Lua de Fel”...

Gosto do tema. Diverte-me de alguma forma. Mas pode acreditar, sou um sujeito comum, na minha vida não é isso o que me interessa. O engraçado é que até Emmanuelle, minha mulher, disse-me certa vez: “o que faz de melhor são as histórias de vampiros e de diabos”. Ou seja, minha própria mulher colabora com essa etiqueta forçada. Nada posso fazer, só me resta dar risadas.

jack nicholson em chinatown
16 filmes em mais de 40 anos de carreira. Por que filma pouco?

Os filmes são caros, os riscos são grandes e é difícil desenvolver um projeto. Um filme pode durar anos para se converter em realidade. É preciso escolher um tema, trabalhar no roteiro, organizar a produção, o financiamento, encontrar os atores. Nos anos sessenta era mais fácil, agora os interesses são outros. Nem sempre vale a pena correr riscos. Quando se é jovem, quando não se é conhecido, podemos arriscar sem problemas, filmar de qualquer jeito. Depois de uma certa experiência, melhor esperar um pouco mais, estar convencido de que será uma obra significante.

Realizou muitas adaptações literárias. É um grande leitor?

Amo profundamente os livros, seu aroma e tato, tudo o que faz parte deles. Amo a cadência das palavras, a forma como o autor se apodera dela. Gosto muito de Faulkner, Truman Capote e F. Scott Fitzgerald. Leio policiais, Raymond Chandler, a série noir francesa. A literatura norte-americana é a minha favorita, é a melhor. Porém prefiro  a leitura de livros científicos e técnicos. Infelizmente creio que um livro é uma espécie em extinção.

Além de dirigir filmes, teatro e ópera, e escrever roteiros, também interpreta. É importante para você? Woody Allen garante que só atua nos seus filmes quando não encontra o ator ideal para o papel.

Levo a sério a carreira de ator. Gosto de atuar. Sou daqueles que incorpora realmente o que interpreta. Vivo o meu papel com entrega. Creio que tive um dos meus melhores momentos em “Uma Simples Formalidade”, de Giuseppe Tornatore, dividindo cena com Gérard Depardieu. É mais fácil atuar do que dirigir. Um ator faz o seu trabalho de preparação, depois atua, dá algumas entrevistas, e continua a sua vida. Um diretor pode passar anos envolvido em um mesmo projeto.

adrian brody em o pianista
Algum cineasta foi importante na sua formação?

Luis Buñuel. Os Esquecidos” me impressionou. Vi na Escola de Cine de Lodz. Nunca tinha visto algo parecido. Fiquei comovido com sua originalidade, estilo nada convencional, interpretações realistas. O cinema de Buñuel é fascinante, interessa-me.  Expressa certos pensamentos muito bem.

Por que passa os verões em Ibiza? É uma espécie de repouso do guerreiro?

Estive na Espanha pela primeira vez no final dos anos cinquenta. Acompanhava minha futura primeira mulher, Barbara Lass, que apresentava um filme no Festival de San Sebastian. Gosto da Espanha, seu idioma, costumes. Passei a frequentar Ibiza no final dos setenta, comprando esta casa uma década depois. É uma ilha tranquila, com bom clima. Aqui penso, falo, leio, estudo propostas. No meio dessa tranquilidade, estou sempre com a mente inquieta, preparando-me para o próximo filme.

O que vem por aí?

Quero continuar filmando, continuar alimentando o meu experiente e particular olhar em direção ao homem e suas paixões, obsessões e demônios. Trabalho atualmente na adaptação do clássico “Oliver Twist”, de Charles Dickens.

emmanuelle seigner e kristin scott thomas em lua de fel

10 PERFORMANCES FEMININAS
em FILMES de POLANSKI
(por ordem de preferência)
  
01
RUTH GORDON

Minnie Castevet em
“O Bebê de Rosemary / Rosemary's Baby” (1968)
Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante
Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante

02
CATHERINE DENEUVE

Carol em
“Repulsa ao Sexo / Repulsion” (1965)

03
MIA FARROW

Rosemary Woodhouse em
“O Bebê de Rosemary / Rosemary's Baby” (1968)
David di Donatello de Melhor Atriz Estrangeira

 04
FAYE DUNAWAY

Evelyn Mulwray em
“Chinatown / Idem” (1974)

05
NASTASSJA KINSKI

Tess em
“Tess – Uma Lição de Vida / Tess” (1979)

06
SIGOURNEY WEAVER

Paulina Escobar em
“A Morte e a Donzela / Death and the Maiden” (1994)

07
KRISTIN SCOTT THOMAS

Fiona em
“Lua de Fel / Bitter Moon” (1992)

 08
KATE WINSLET

Nancy Cowan em
“Deus da Carnificina / Carnage” (2011)

09
FRANCESCA ANNIS

Lady MacBeth em
MacBeth / The Tragedy of Macbeth” (1971)

10
SHELLEY WINTERS

A Porteira em
O Inquilino / Le Locataire (1976)

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