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| agatha christie |
Os seus livros venderam centenas de milhões de exemplares. Ela é a autora mais publicada de todos os tempos em qualquer idioma, somente ultrapassada pela “Bíblia” e por William Shakespeare. Escreveu oitenta romances policiais, dezenove peças e seis romances escritos sob o pseudônimo de Mary Westmacott. Ao morrer, deixou uma conta bancária com cerca de 20 milhões de dólares. A inventiva AGATHA CHRISTIE (1890-1976) foi pioneira ao fazer com que os desfechos de suas histórias fossem extremamente impressionantes e inesperados, sendo praticamente impossível ao leitor descobrir quem é o assassino. Britânica, conhecida como Duquesa da Morte e Rainha do Crime, dentre outros títulos, criou dois detetives exemplares: Hercule Poirot e Miss Marple. Poirot é um belga feioso, baixinho e com cabeça de ovo que usa de intuição e dedução para resolver seus crimes, sempre irritando os suspeitos, que o xingam de francês metido, ao qual ele responde: “Não. Belga metido”. Miss Jane Marple é uma idosa solteirona dona-de-casa que tem um raro faro policial. A obra instigante de AGATHA CHRISTIE foi sempre bem-vinda ao cinema, sendo retratada em cerca de trinta ocasiões. Mesmo assim, a autora não aceitou muito bem as versões cinematográficas de seus livros, especialmente as que contavam com seus dois mais notórios detetives: Poirot e Miss Marple. Mas o interesse da Sétima Arte nas tramas da Rainha do Crime começou cedo. Já em 1926 apareceu a primeira adaptação, um filme mudo alemão chamado “Die Abenteuer GmbH”, de Rudolph Walther-Fein, do livro “O Inimigo Secreto”. A mais recente, baseada em “A Casa Torta”, ainda está sendo filmada sob a direção de Neil LaBute e com Julie Andrews, Matthew Goode, Gemma Arterton e Gabriel Byrne no elenco. A história gira em torno do assassinato de um milionário grego, que construiu a casa do título para que nela vivesse toda sua família. O caso é investigado pela neta mais velha em parceria com o namorado, o filho do inspetor chefe da Scotland Yard. Como é comum nos livros da autora, todos os presentes são suspeitos de ter cometido o crime.
12 VEZES A RAINHA DO CRIME
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| basil rathbone |
AMOR DE UM ESTRANHO / Love From a Stranger (1937), de Rowland V. Lee. Com Ann Harding e Basil Rathbone.
Inspirado na peça de mesmo nome, que foi adaptada por Agatha Christie do conto “Philomel Cottage”, publicado em 1934. Uma jovem suspeita que o marido seja bígamo e assassino, e planeja matá-la para ficar com a herança. O diretor constrói uma atmosfera de angústia e terror realçada pelo irrepreensível desempenho de Basil Rathbone como um personagem frio e inalterável.
O VINGADOR INVISÍVEL / And Then There Were None (1945), de René Clair. Com Walter Huston, Barry Fitzgerald, Louis Hayward, Roland Young, June Duprez, C. Aubrey Smith, Judith Anderson e Mischa Auer.
Adaptado da versão para o teatro de "O Caso dos 10 Negrinhos", escrita pela própria Agatha em 1943. Dez pessoas desconhecidas umas das outras são convidadas para um fim-de-semana em uma ilha incomunicável e uma a uma vão sendo mortas, enquanto a cada morte desaparece uma figura de um negro africano que enfeita o topo de uma lareira. No livro, todos morrem, inclusive o assassino. Agatha avaliou que a versão teatral precisava de um final mais feliz, então determinou que dois personagens sobrevivessem à experiência para construir uma vida juntos. O francês René Clair, em sua fase norte-americana, soube dosar humor e suspense, arrancando interpretações impecáveis de todo o elenco.
RECEIOS / Love From a Stranger (1947), de Richard Whorf. Com John Hodiak, Sylvia Sidney, Ann Richards e John Howard.
Remake hollywoodiano do filme inglês de 1937, com roteiro do escritor de livros de mistério Philip MacDonald. Inferior à obra de Lee, o resultado é lastimável, fracassando nas bilheterias. Como compensação, os ótimos Hodiak e Sidney.
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| marlene dietrich |
TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO / Witness for the Prosecution (1957), de Billy Wilder. Com Tyrone Power, Marlene Dietrich, Charles Laughton, Elsa Lanchester, John Williams, Henry Daniell e Una O’Connor.
Acusado de matar uma senhora rica vai a julgamento, escolhendo um arrogante e inteligente advogado para defendê-lo, num enredo cheio de surpresas e reviravoltas. Com elenco magnífico e direção ardilosa, foi sucesso de crítica e público.
SHERLOCK DE SAIAS / Murder at the Gallop (1963), de George Pollock. Com Margareth Rutherford, Robert Morley e Flora Robson.
Em 1962, a MGM lançou uma série de quatro filmes estrelados por Miss Marple. Sucessos de público, eram odiados pela escritora. A começar pelos títulos, modificados totalmente apenas para ter mais apelo comercial. “After the Funeral / Depois do Funeral” se tornou “Murder at the Gallop” (aqui, Sherlock de Saias). Diferente do texto original, o caso era desvendado por Hercule Poirot. Substituído por Miss Marple, ela investiga a morte de um homem de meia idade. Após o enterro, a família se reúne em um clube de hipismo, onde surgem as primeiras insinuações de assassinato.
OS CRIMES DO ALFABETO / The Alphabet Murders (1966), de Frank Tashlin. Com Tony Randall, Anita Ekberg, Robert Morley e Margareth Rutherford.
Do livro “Os Crimes ABC”, publicado em 1936, essa produção adicionou elementos de comédia ao texto original. A trama básica foi mantida, mas as interpretações beiram à caricatura. Poirot às voltas com um assassino que mata pessoas cujos nome e sobrenome tenham a mesma inicial da cidade onde moram. Agatha não aprovou o primeiro roteiro, que continha muita violência e uma cena de amor de Poirot, apenas autorizando o filme depois da exclusão das cenas de violência e sexo, além da substituição do ator que havia sido originalmente escolhido para o papel principal, o comediante Zero Mostel.
NOITE INTERMINÁVEL / Endless Night (1971), de Sidney Gilliat. Com Hayley Mills, Hiwell Bennett, Britt Ekland, Per Oscarsson e George Sanders.
O romance homônimo publicado em 1967 conta sobre o casamento de um trabalhador com uma jovem herdeira e o mal que uma maldição cigana joga sobre eles. O filme segue basicamente o livro, mas a tentativa de deixar a história mais atrativa com cenas sexuais desagradou à autora.
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| albert finney |
ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENT / Murder on the Orient Express (1974), de Sidney Lumet. Com Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Sean Connery, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark e Michael York.
Em um cenário extremamente restrito - um trem ilhado pela neve -, apoiou-se em interpretações marcantes de talentosos nomes do cinema. Apesar da maestria da direção, entre sete indicações para o Oscar, somente Ingrid Bergman levou o de Melhor Atriz Coadjuvante. Sucesso de público e crítica, baseou-se no romance de mesmo nome publicado em 1934. Fiel ao texto original, não poupou esforços para caracterizar o glamour da época, com figurinos impecáveis e vagões reais do Expresso Oriente como cenário. Na trama, Poirot procura descobrir o assassino de um milionário norte-americano em um trem luxuoso.
MORTE SOBRE O NILO / Death on the Nile (1978), de John Guillermin. Com Peter Ustinov, Jane Birkin, Bette Davis, Mia Farrow, Jon Finch, Olivia Hussey, George Kennedy, Angela Lansbury, David Niven e Maggie Smith.
Com roteiro do dramaturgo Anthony Schaffer, o longa se manteve fiel à trama original, na qual uma jovem norte-americana milionária é morta em um barco de turistas que navega no rio Nilo, no Egito dos anos 20. Todos a bordo tem motivos para matá-la.
O MISTÉRIO DE AGATHA / Agatha (1979), de Michael Apted. Com Dustin Hoffman, Vanessa Redgrave e Timothy Dalton.
De um fato real, o filme fala do desaparecimento de Agatha Christie no auge de sua fama. Ela simplesmente some sem deixar qualquer pista, enquanto 550 policiais procuram-na por toda a Inglaterra. Destaque para a fotografia e os efeitos luminosos do mestre Vittorio Storaro e para o desempenho hipnotizante de Vanessa.
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| elizabeth taylor |
A MALDIÇÃO DO ESPELHO / Mirror Crack’d (1980), de Guy Hamilton. Com Angela Lansbury, Edward Fox, Elizabeth Taylor, Geraldine Chaplin, Rock Hudson, Kim Novak e Tony Curtis.
Baseado no romance lançado em 1962, narra os esforços de Miss Marple em descobrir o assassino de uma mulher envenenada em uma festa beneficente promovida por uma estrela de cinema que filma na cidade.
ASSASSINATO NUM DIA DE SOL / Evil Under the Sun (1982), de Guy Hamilton. Com Peter Ustinov, Jane Birkin, James Mason, Roddy McDowall, Sylvia Miles, Diana Rigg e Maggie Smith.
Adaptado para as telas do romance homônimo publicado em 1941, manteve-se fiel ao original. Nele, a proprietária de um hotel, que fora uma atriz sem sucesso, recepciona os clientes, que, na maioria, tem algum relacionamento com o universo teatral. Todos são suspeitos quando um corpo é encontrado na praia.
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QUEM SE FOI
KEN RUSSELL
Responsável por imagens surrealistas e deslumbrantes, Ken Russell foi durante muitos anos considerado o enfant terrible do cinema britânico, devido ao modo irreverente como abordava temas como sexo e religião. Ele morreu esta semana, aos 84 anos de idade. Agressivo e cínico, autor de filmes perturbadores, por vezes ruins, mas nunca indiferentes, tornou-se conhecido por trabalhos marcantes como “Mulheres Apaixonadas / Women in Love” (1969), sua obra-prima, onde os atores Oliver Reed e Alan Bates protagonizam uma ambígua cena de luta, totalmente pelados. Por esse filme foi nomeado ao Oscar de Melhor Diretor, mas quem levou a estatueta foi a atriz protagonista Glenda Jackson. Logo a seguir gerou controvérsia com "Os Demônios / The Devils” (1971), proibido pela censura brasileira e norte-americana, um drama com cenas de exorcismo e nudez sobre o autoritarismo da igreja, inspirado num livro de Aldous Huxley e com Vanessa Redgrave no elenco. A homossexualidade de Tchaikovsky em “Delírio de Amor / The Music Lovers” (1970) também foi um escarcéu na época. Mas o diretor só se popularizou definitivamente com o musical "Tommy / Idem" (1975), baseado na ópera-rock do The Who e estrelado por Roger Daltrey, Ann-Margret, Elton John, Tina Turner, Eric Clapton e Jack Nicholson. Foi um imenso sucesso de bilheteira. Nascido em Southampton, Inglaterra, em 1927, iniciou a sua carreira como fotógrafo na BBC. Como cineasta, explorou uma fórmula básica - edição frenética, cenas chocantes, despudor, alguma histeria e notável senso cinemático -, escandalizando meio mundo. Ao envelhecer, controlou sua fúria criativa, passando a atuar e a dirigir filmes banais. Estava praticamente esquecido, mas é uma figura imprescindível para entender a modernidade do cinema europeu e sua relação com outras artes como a música clássica, a dança e a pintura. Um cineasta viril, inclassificável e fascinante.




































