Durante o inverno de 1970, RAINER WERNER FASSBINDER descobriu os filmes realizados nos Estados Unidos por DOUGLAS SIRK, num impacto que influenciou sua própria obra até sua morte em junho de 1982. Ansioso com a descoberta, viaja a Suíça para entrevistar o compatriota em fevereiro de 1971. A admiração mútua que ambos sentiram foi tal que, além de uma forte amizade, Fassbinder protagonizou em 1977 um curta de Sirk intitulado “Bourbon Street Blues”. Reproduzimos fragmento do artigo surgido a partir desse encontro inicial:
“Em Lugano, na Suíça, vive o homem mais vivo e mais inteligente que já conheci e que, com um sorriso feliz quase imperceptível, disse: “Às vezes eu amei muito, verdadeiramente muito, as coisas que fiz”. Ele amou, por exemplo, o filme, “Tudo Que o Céu Permite“ (1955). Sirk ainda disse: “O cinema é sangue, lágrimas, violência, ódio, morte e amor”. E Sirk fez filmes de sangue e lágrimas, de violência e ódio, filmes de morte e filmes de amor. Ele também disse: “A filosofia de um cineasta está na iluminação e no enquadramento”. E Sirk fez os filmes mais ternos que conheço; filmes de um homem que ama as pessoas em vez de desprezá-las como fazemos. Educado na tradição germânica estritamente clássica, ele primeiro trabalhou no teatro. Este homem instruído também era um homem culto que chegou a conhecer Kafka pessoalmente. Em 1937, depois de rodar alguns filmes na Alemanha para a UFA, Detlef Sierck emigrou para os Estados Unidos, mudou seu nome para Douglas Sirk e dirigiu uns filmes que fizeram muita gente feliz.
Tentei escrever sobre seis filmes – “Sublime Obsessão”, “Tudo que o Céu Permite”, “Palavras ao Vento”, “Almas Maculadas”, “Amar e Morrer” e “Imitação da Vida” - de Douglas Sirk e descobri a dificuldade de escrever sobre filmes que falam da vida e que não são literatura. Deixei de lado muitas coisas que poderia falar mais profundamente. Não falei bastante da iluminação: da sua precisão, de como ajuda a Sirk a transformar a história que tem que contar. Seu único rival neste terreno é Josef Von Sternberg. Tampouco falei da decoração de interiores que Douglas Sirk construía. De sua incrível exatidão. E não afirmei que Sirk é um diretor que obtém o máximo dos atores. Nos seus filmes, inclusive zombies como Marianne Koch e Liselotte Pulver parecem autênticos seres humanos em que podemos e queremos crer. Realmente vi poucos filmes de Sirk. Gostaria de ter visto a todos, seus vinte e nove filmes. Se houvesse feito isso, quem sabe haveria me aprofundado mais em mim mesmo, na minha vida, nos meus amigos. Eu vi seis filmes de Douglas Sirk, e entre eles se encontram os mais belos filmes do mundo”.
(Fonte: revista “Fernsehen und Film”, 1971)
O alemão DOUGLAS SIRK (1900-1987), um dos grandes cineastas da plenitude de Hollywood, considerado o mestre do melodrama, em 1937 se exilou da Alemanha Nazista, realizando alguns dos filmes mais atraentes e bem sucedidos do cinema norte-americano. Hábil no jogo de dramatização de espaços e na direção de atores, dirigiu sua primeira obra em Hollywood em 1942: “O Capanga de Hitler”, com John Carradine como protagonista. Entre o longa de estréia e “Imitação da Vida” (1958), último de seus filmes, Sirk realizou, quase sempre nos estúdios da Universal, uma elegante filmografia de 29 títulos, alguns dos quais verdadeiras jóias, sem contar a aceitação popular que lotava cinemas. Sua habilidade na direção de atores consolidou a carreira de Rock Hudson, Jane Wyman, Robert Stack, Dorothy Malone, Barbara Rush e John Gavin. Seus filmes de colorido exuberante são parte do melhor da história do cinema, dando dignidade ao melodrama. Em 1959 aposentou-se do cinema e voltou a se estabelecer na Europa, lecionando na Escola de Cinema de Munique. Morreu em Lugano, na Suíça, quase trinta anos depois, vítima de câncer, com apenas breves retornos por trás da câmera, na Alemanha, na década de 1970, filmando três curtas-metragens dramáticos baseados em peças de Tennessee Williams e Arthur Schnitzler.

