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| kim novak |
Sem papas na língua, uma das declarações polêmicas de ALFRED HITCHCOCK jamais foi esquecida: "Os atores são gado", firmando seu perfil de figura excêntrica que implicava com atores. Ele nunca perdôo Ingrid Bergman por tê-lo abandonado por Roberto Rossellini, mas respeitava-a. Não guardava ressentimento de Grace Kelly, que deixou de filmar para se tornar princesa de Mônaco, mas lamentou sua escolha e durante muitos anos tentou recuperá-la. Não suportou dirigir Paul Newman e Julie Andrews em “Cortina Rasgada/Torn Curtain”, tampouco se sentiu satisfeito com Kim Novak (“Um Corpo que Cai/Vertigo”), Gregory Peck e Alida Valli (“Agonia de Amor/The Paradine Case”), Anne Baxter (“A Tortura do Silêncio/I Confess”), Ruth Roman e Farley Granger (“Pacto Sinistro/Strangers on a Train”), Priscilla Lane (“Sabotador/Saboteur”), Jane Wyman (“Pavor nos Bastidores/Stage Fright”) ou Joel McCrea e Laraine Day (“Correspondente Estrangeiro/Foreign Correspondent”). Seduzido por atrizes classudas, de sensualidade chique – como Ingrid Bergman e Grace Kelly – e atores com personalidade forte como Cary Grant e James Stewart, declarou numa entrevista a François Truffaut: “O que é que me dita a escolha de atrizes sofisticadas? Procuro mulheres do mundo, verdadeiras damas que se transformam em putas no quarto de dormir. A pobre Marilyn Monroe tinha o sexo estampado por toda a sua figura, como Brigitte Bardot, e isso não é muito fino”.
Inglês de rígida educação, marcada por forte repressão sexual, HITCHCOCK era obcecado pelas atrizes de seus filmes, mantendo com elas relações complicadas, muitas vezes meio sádicas. Ao mesmo tempo em que amava apaixonadamente algumas delas, com outras as coisas foram diferentes. Com Doris Day, ele foi tão frio durante as filmagens que ela disse: "Tive a impressão de que ele estava preso a uma atriz que não queria". O mestre torturou Madeleine Carroll, Joan Fontaine, Eva Marie Saint e Janet Leigh, exigindo delas que encarnassem suas fantasias fetichistas. Janet, imortalizada na célebre cena do assassinato de Marion Crane na ducha, em “Psicose”, de 1960, ficou horas sob um chuveiro que nunca parava de jorrar água, a ponto de sentir que sua pele murchava. A mais hitchcockiana das loiras, Grace Kelly, nunca perdeu a majestade pelo que outros consideravam desaforo, e numa carta de desculpas ao cineasta, explicando por que, como princesa de Mônaco, não poderia voltar aos sets de filmagem para fazer “Marnie, Confissões de Uma Ladra”, assinou como “a mais devotada de suas vacas (the most devoted of your cows)”. Kim Novak, pelo contrário, foi uma vaca rebelde. Ela implicou com o figurino de “Um Corpo Que Cai/Vertigo”, mas ele não cedeu aos caprichos da estrela, comentando anos depois: "Os atores, na maioria, são crianças burras. Por exemplo, Kim Novak. Na segunda parte de Vertigo, quando ela está morena e não parece tanto Kim Novak, até consegui que ela atuasse".
Teve graves conflitos com Tippi Hedren, que havia descoberto num comercial na televisão, e com a qual havia acariciado a idéia de fazer uma “nova Grace Kelly”. Desenvolvendo verdadeira tara pela atriz, isolava-a no set para que fosse somente sua. Não permitia que os atores a tocassem, exceto quando sua câmera estivesse filmando. Contava piadas sujas e versinhos pornográficos, especialmente depois de descobrir que Tippi detestava esse tipo de coisa. Ele não apenas a torturava fisicamente - as cenas de ataques dos pássaros levaram a lacerações reais -, como a humilhou no trabalho, exigindo que o tocasse nas partes íntimas. As atrizes foram os principais alvos da manipulação perversa do diretor. Com os atores era indiferente, e mesmo trabalhando com alguns diversas vezes, nunca estabelecia camaradagem. Listo cinco intérpretes com perfil essencialmente hitchcockiano.
CARY GRANT (1904-1986)
John Aysgarth em
SUSPEITA/Suspicion (1941)
Devlin em
INTERLÚDIO/Notorious (1945)
John Robie em
LADRÃO DE CASACA/To Catch a Thief (1955)
Roger Thornhill em
INTRIGA INTERNACIONAL/North by Northwest (1959)
GRACE KELLY (1929-1982)
Margot Wendice em
DISQUE M PARA MATAR/Dial M For Muder (1954)
Lisa Fremont em
JANELA INDISCRETA/Rear Window (1954)
Frances Stevens em
LADRÃO DE CASACA/To Catch a Thief (1955)
INGRID BERGMAN (1915-1982)
Dra. Constance Petersen em
QUANDO FALA O CORAÇÃO/Spellbound (1945)
Alicia Huberman em
INTERLÚDIO/Notorious (1945)
Lady Harrietta Flusky em
SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO/Under Capricorn (1949)
JAMES STEWART (1908-1997)
Rupert Cadell em
FESTIM DIABÓLICO/Rope (1948)
L. B. Jeffries em
JANELA INDISCRETA/Rear Window (1954)
Dr. Ben MacKenna em
O HOMEM QUE SABIA DEMAIS/The Man Who Knew Too Much (1956)
John “Scottie” Ferguson em
UM CORPO QUE CAI/VERTIGO (1958)
TIPPI HEDREN (1930-)
Melanie Daniels em
OS PÁSSAROS/The Birds (1963)
Marnie Edgar em
MARNIE, CONFISSÕES DE UMA LADRA/Marnie (1964)
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