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julho 29, 2011

******** GLORIA SWANSON & CECIL B. DeMILLE


gloria swanson
Quem gosta dos clássicos de Hollywood certamente já passou por “Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard” (1950), o mais contundente filme sobre os bastidores da capital do cinema e, em minha opinião, um dos melhores filmes de todos os tempos. Depois de passear pelos extras de sua baratíssima edição distribuída pela Paramount, é bastante provável que o espectador se sinta compelido a procurar os filmes em que Miss GLORIA SWANSON foi dirigida por Cecil B. DeMille: retratado em “Sunset Boulevard” como um atarefado diretor que nem remotamente deseja tirar do ostracismo a outrora famosa atriz muda. É também possível que esse espectador procure saber um pouco mais sobre os outros artistas esquecidos que também comparecem no filme de Billy Wilder (Erich Von Stroheim, Hedda Hopper, Buster Keaton). Eu, pelo menos, saí atrás de toda essa gente.


O passeio me levou até “No Alvorecer da Verdade/Don't Change Your Husband” (1919), “Macho e Fêmea/Male and Female” (1919), “Porque Trocar de Esposa?/Why Change your Wife” (1920) e “As Aventuras de Anatólio/The Affairs of Anatol”, películas em que uma GLORIA SWANSON no auge de sua juventude, beleza e popularidade é dirigida por Cecil B. DeMille. Essas películas exemplificam bastante bem as diretrizes que determinavam o trabalho de DeMille nos anos de 1910 e 1920. São comédias que seguem a linha das comédias de costumes teatrais, que buscam corrigir os vícios pelo riso. Daí a algumas delas não terem muita graça, por tentarem defender uma middle class morality de modo demasiado intencional. Por exemplo, a primeira e a terceira, “No Alvorecer da Verdade” e “Porque Trocar de Esposa?”, respectivamente. A apresentação do casal assemelha-se. No primeiro filme, a câmera delicia-se em apresentar pouco a pouco um marido relaxado: ele joga a sujeira do cachimbo no chão da sala, coloca os sapatos sujos sobre o lenço imaculado da esposa e não dá qualquer atenção a ela. A pobrezinha, que anseia por romance, encontra-o pouco depois no galanteador que a distraía no jantar em comemoração ao aniversário de casamento dela - ao qual o marido se esquecera de comparecer. No segundo é a vez de a câmera desnudar a pudica esposa que, por ser muito casta, acaba jogando o marido no colo de uma vamp (a hilária Bebe Daniels, num de seus muitos papéis de coquete espevitada). Num e noutro filme pululam as mensagens moralizantes do diretor, por meio de inúmeros intertítulos longuíssimos. A conclusão de ambos é: marido e mulher devem permanecer unidos para tentar resolver os problemas conjugais, pois nem sempre (nunca, de acordo com a filosofia demilliana) é bom negócio investir num novo consórcio. A leitura da questão é pretensamente inovadora quando DeMille propõe, em “Porque Trocar de Esposa?”, que a mulher deve deixar o puritanismo de lado para, de vez em quando, ser também “amante” do marido. Porém, a dica parece servir unicamente ao objetivo de sustentar o lar burguês num momento em que não era tão difícil de se conseguir um divórcio (tanto que, nos dois filmes, o casal se divorcia, e os litigantes são punidos com segundos consórcios pouco deleitosos).

cecil b. demille
Além de acreditar que o casamento deveria durar até que a morte separasse o casal - mesmo que as diferenças já os tivessem separado muito antes -, outra crença alimentada pelo Sr. DeMille é a da estratificação das classes sociais. Isso fica muito claro em “Macho e Fêmea”, conto do mordomo que deseja a patroa rica, mas, consciencioso de sua posição social, resolve casar-se com a criadinha sensaborona. O casamento entre a patroa e o empregado - enamorados um do outro - quase acontece. Isso enquanto ambos estão numa ilha deserta, onde vão parar depois que afunda o barco onde estão os ricos, o mordomo e a criada. Lá fundam uma nova sociedade, baseada na habilidade de cada um, e onde, pasmem, é a vez do esbelto mordomo tornar-se rei (literalmente). Só assim, superior à mocinha, ele poderia tê-la. O idílio dura pouco, pois os desaparecidos são resgatados, mas mesmo que não fossem, e que o casamento se consumasse, perduraria a visão machista do Sr. DeMille.


Mais agradável é “As Aventuras de Anatólio”, onde há mais bom humor na narração das situações em que se envolve o “cavalheiresco” jovem Anatol (interpretado pelo belo Wallace Reid num dos últimos papéis de sua breve carreira), sempre às voltas com a salvação das belas mulheres. Os intertítulos, apesar de continuarem longos, são sarcásticos: “O cavalheiro andante só quer fazer o bem, mas o que sua esposa pensa disso?”; “Se bem que ele não iria querer salvar a moça se ela não fosse tão bonita, e ela não iria querer ser salva se ele não tivesse os ombros tão largos”, coisas do tipo. Além disso, as interpretações são bastante satisfatórias. GLORIA SWANSON faz uma mocinha recém-casada bem engraçada: frívola, tímida, ciumenta. Wallace Reid tem uns trejeitos hilários - destaque para a cena em que ele, depois de ser enganado por uma Dulcinéia e abandonado na estrada pela esposa, olha para uns patos (“Greetings, brothers”, diz o intertítulo). Bebe Daniels novamente aparece, e é uma das personagens mais interessantes dos silents de DeMille: uma vamp de fachada, que habita um misto de caverna do Drácula e pirâmide do Egito, e tenta vampirizar o bobo Reid no intuito de conseguir o dinheiro para a cirurgia de seu esposo.

em "macho e fêmea"
No conjunto, a colaboração Swanson/DeMille deixou produções de inegável valor histórico, mas que não são vistas com muito prazer nos dias de hoje. Não me agrada o modo como ele pinta as mulheres: ou bonecas tolas, seduzidas por galanteadores baratos, ou mulheres descaradas, desejosas especialmente de limpar os bolsos dos homens. E pinta de modo grave, quase sempre com o dedo em riste. Por isso, me diverti tanto com Bebe na pele da mulher casada que amava o esposo e para quem o vampirismo era meramente uma carreira artística... Mas, por outro lado, nesses filmes DeMille pôde vestir Gloria com os trajes mais extraordinários do final de 10 e começo de 20. Trajes que, na época, fizeram tremendo sucesso inclusive por aqui. Não posso deixar de pensar o quanto a descrição de uma das personagens de João do Rio pode ter tido influência da atriz: “O seu passo tango, o exagero das modas, que lhe davam o aspecto semipersa (...)” (vide “Créssida”, de “A Mulher e os Espelhos”, 1919).


Gostei muito de ver esses filmes, que esclarecem a leitura inteligente que Billy Wilder e GLORIA SWANSON fazem da época - e a leitura irritou DeMille, que rompeu relações com Wilder, segundo a trívia hollywoodiana. Mas prefiro Gloria em “Sedução do Pecado/Sadie Thompson” (1928) ou então no sonoro “Esta Noite ou Nunca/It's Tonight or Never” (1931). Aliás, sobre este, meu preferidíssimo, ainda falarei futuramente.

Texto de DANIELLE CREPALDI CARVALHO
Editora do blog “Filmes, Filmes, Filmes!”

em "por que trocar de esposa?"
FILMES DE GLORIA SWANSON COM DeMILLE

NO ALVORECER DA VERDADE/
Don’t Change Your Huscand (1919)
Com Elliott Dexter

A RENÚNCIA/For Better, For Worse (1919)
Com Elliott Dexter

MACHO E FÊMEA/Male and Female (1919)
Com Thomas Meighan

POR QUE TROCAR DE ESPOSA?/
Why Change Your Wife? (1920)
Com Thomas Meighan

ALGUMA COISA EM QUE PENSAR/
Something to Think About (1920)
Com Elliott Dexter

AS AVENTURAS DE ANATÓLIO/
The Affairs of Anatol (1921)
Com Wallace Reid



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CONFIDENCIAL


O FALCÃO MALTÊS/RELÍQUIA MACABRA



Que mais há para se escrever sobre o filme que redefiniu todos os filmes de detetives particulares? Que mais há para escrever sobre o precursor do noir? Que mais há para escrever sobre uma das melhores estréias no cinema? Somente que é, citando a última frase de diálogo do próprio filme, “the stuff that dreams are made of!”, ou evocar algumas curiosidades: a obra de John Huston é a terceira versão cinematográfica da história de Dashiel Hammett (a primeira, “O Falcão Maltês/The Maltese Falcon”, que data de 1931, foi realizada por Roy Del Ruth, com Bebe Daniels e Ricardo Cortez, retrata Sam Spade como um divertido playboy; a segunda, de 1936, “Satan Met a Lady”, de William Dieterle, foi protagonizada por Warren William e Bette Davis e trata-se de uma comédia); quando Huston quis realizar um primeiro filme, foi Howard Hawks que o aconselhou a fazer o remake; era o filme preferido de Peter Lorre; o pai do diretor, o excelente Walter Huston, faz uma ponta como o Capitão Jacobi; estreando no cinema, Sydney Greenstreet tem uma magnífica interpretação como  Kasper Gutman; foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Greenstreet) e Melhor Roteiro Adaptado; Mary Astor vinha de um elogiado desempenho ao lado de Bette Davis em “A Grande Mentira”; pode comentar-se que a carreira de Bogart foi dinamizada por George Raft (sempre a primeira escolha da Warner), que recusou fazer este, “Casablanca”, “Beco Sem Saída” e “O Último Refúgio”... Bogart foi a segunda escolha e o resto é história. No livro O Gênio do Sistema – A Era dos Grandes Estúdios em Hollywood” o escritor Thomas Schartz, disse o seguinte sobre o detetive Sam Spade no filme de Huston: “Era descuidado, entediado com o mundo e quase de meia-idade. Era contemplativo e sedentário. Colarinho desabotoado, gravata frouxa, o eterno cigarro pendente nos lábios”.