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agosto 06, 2017

********* O CORAÇÃO PARTIDO de ROMY SCHNEIDER



Apelido: Puppele
Altura: 1,61 m
Olhos: entre o verde e o azul


Eu acredito que ela é uma das mulheres mais bonitas do cinema. Uma atriz de classe e estilo. Nos anos 1950, ROMY SCHNEIDER (Viena, Áustria. 1938 - 1982) tornou-se a mais completa tradução da Cinderela, ao estrelar filmes de época românticos, na pele de mocinhas como a lendária imperatriz austríaca, Isabel de Áustria, mais conhecida por Sissi da Baviera (1837 - 1898). Ela foi uma maravilhosa Sissi em trilogia de enorme sucesso (1955 a 1957) e teve alguma dificuldade em se separar dessa imagem, mas como tinha talento acabou por conquistar o cinema universal. A fama nunca mais a abandonou. No entanto, por trás das câmeras, a atriz protagonizou uma dramática vida pessoal, marcada por tragédias amorosas e familiares.

Problemas profissionais ela nunca teve. Filha de um casal de atores (o austríaco Wolf Albach-Retty e a alemã Magda Schneider), estreou no cinema aos 15 anos e alcançou rápido sucesso. Abandonada pelo pai, foi criada por uma mãe ausente, estrela de cinema. Ainda bem jovem, apaixonou-se pelo alemão Horst Buchholz, seu parceiro em “A Lenda de Robinson Crusoé / Robinson soll Nicht Sterben” (1957). Desistiu do ator porque sua mãe proibiu o romance. Convidada, em 1958, para filmar “Christine / Idem” com Alain Delon, a mãe acompanhou-a a Paris, vigiando-a de perto. O amor entre ROMY SCHNEIDER e Delon surgiu já as filmagens iam adiantadas. Ela, num ato de independência, decidiu passar a viver na capital francesa, enquanto a mãe se viu forçada a regressar a Colônia, com o padrasto, percebendo que tinha “perdido” a filha.

Quando iniciaram o namoro, a atriz tinha 20 anos, Delon 23, e durante muito tempo os fotógrafos não os deixaram em paz. Nesse período de euforia amorosa, os “namorados eternos” chegaram, em março de 1959, a declarar oficialmente que estavam noivos. Mas jamais se casariam. Sob a direção de Luchino Visconti, eles trabalharam no teatro em uma comédia clássica, de John Ford, em Paris, 1961: “Pena Que Ela Seja Puta”. A peça foi sucesso, ficando oito meses em cartaz. A partir de então ROMY SCHNEIDER passou a ser encarada como uma verdadeira atriz e não faltaram convites para filmar. Em 1963, depois de anos de ciumeiras, vasos quebrados e discussões acirradíssimas, o tórrido relacionamento com o egocêntrico e narcisista Delon se desfez.

Eles fizeram três filmes juntos: “Christine”, de Pierre Gaspard-Huit; “A Piscina / La Piscine” (1969), de Jacques Deray; e “O Assassinato de Trotsky” (1972), de Joseph Losey. Ela sofreu muito ao ser trocada de forma deselegante. Filmava em Hollywood, e Delon em Madrid rodava “A Tulipa Negra / La Tulipe Noire” (1964) e deixava-se fotografar com Nathalie, com quem viria a casar. Ele acabou o relacionamento da forma mais covarde possível: apenas um bilhete colado a um buquê de rosas vermelhas. Ela voltava dos EUA e, ao entrar em seu apartamento, encontrou o ambiente vazio. Nas flores, a frase que a apunhalou: “Vou para o México com Nathalie.” Respondeu cortando os pulsos.

Um pouco por despeito, ROMY SCHNEIDER casou-se em 1966 com o diretor e cenógrafo alemão Harry Mayen. Do casamento nasceu David. Quando se divorciaram, em 1975, o marido exigiu-lhe metade da fortuna para que ela pudesse ficar com o filho e ela tudo deu pelo filho que era a sua razão de viver. Quatro anos mais tarde Mayen enforcou-se sem explicações. O filho do casal, aos 14 anos, em 1981, morreu de forma trágica, espetado nas lanças do gradeamento que protegia a casa dos pais do padastro. Compreensivelmente, ela nunca se recuperou dessa perda.

wolf albach-retty, pai de Romy
A ex-Sissi mostrou ao mundo que era muito mais que uma mulher deslumbrante, de uma beleza delicada, com uns olhos entre o verde e o azul num rosto perfeito, uma voz doce e um corpo de Afrodite. Elegantíssima, dentro e fora da tela. Ela recebia centenas de roteiros e filmava apenas os argumentos atraentes ou com bons realizadores. Em 1962 filmou “O Processo”, de Kafka, com direção de Orson Welles.  Em 1963 foi a vez de Otto Preminger que consolidou a sua carreira internacional no drama “O Cardeal / The Cardinal”. Foi dirigida por prestigiados cineastas, como Claude Sautet, Claude Chabrol, Joseph Losey, Costa-Gavras, Andrzej Zulawski e tantos outros.

De um segundo – e infeliz - casamento com o seu secretário, Daniel Biasini, que durou de 1975 a 1981, nasceu Sara, em 1977. Mas ele não foi o companheiro ideal para uma mulher bastante fragilizada no domínio dos amores. Ela se separou dele ao descobrir que a única coisa que o interessava era sua fortuna. Sofrendo depressões, refugiou-se no álcool e comprimidos. Parava para fazer curas de desintoxicação. Apenas o cinema e os filhos lhe davam sentido à vida. Na década de setenta, reinou como uma das maiores estrelas do cinema francês e uma ativista que usou a fama para falar em questões como os direitos das mulheres.

Desiludida com os revezes afetivos, a afogava as mágoas em vodca e champanhe, sucessivas tentativas de suicídio e agressões a porteiros de hotel. Ganhou dois César (o Oscar francês) em 1976 e 1979, como Melhor Atriz nos filmes “Uma História Simples” e “O Importante é Amar”. Seria nomeada mais três vezes, por Uma Mulher na Janela / Une Femme à sa Fenêtre (1976), “Um Homem, Uma Mulher, Uma Noite / Clair de Femme” (1979) e “La Passante du Sans-Souci” (1982), o seu derradeiro filme. Já separada de Biasini e com um novo companheiro, comprou uma propriedade no campo, passando a viver em Boissy-Sans-Avoir.

romy e a mãe, magda
Em uma manhã de maio de 1982, ROMY SCHNEIDER foi encontrada morta, fulminada por um ataque cardíaco. Correram rumores que tinha se suicidado, mas o óbito foi declarado oficialmente como devido a uma parada cardíaca. Tinha 43 anos. O mundo ficou consternado. Estava tratando-se de uma profunda depressão. Fala-se também de uma possível overdose, já que um traficante de drogas tinha deixado o local horas antes. Ao morrer vivia há pouco mais de um mês com o produtor francês Laurent Petain. Os jornais da época frisavam que ela morrera de “coração partido”.

Segundo o seu biógrafo Johannes Thiele, ela escondia sob a beleza uma profunda infelicidade. Esse é o tom da sua biografia “Romy Schneider: Seus Filmes, sua Vida, sua Alma” (2007). Em dezembro de 1999, a Fígaro Magazine fez um grande enquete sobre as dez mais belas mulheres do século XX e ROMY SCHNEIDER ficou em primeiro lugar, logo seguida de Ava Gardner. Nesse mesmo ano, Pedro Almodóvar dedica para ela o filme “Todo Sobre Minha Mãe / Todo Sobre mi Madre”. Em 2008 foi lembrada com um César Especial póstumo. O apresentador do prêmio foi Alain Delon, o seu único e insensato amor.


10 FILMES de ROMY
(por ordem de preferência)

01
AS COISAS da VIDA
(Les Choses de la Vie, 1970)

direção de Claude Sautet
com: Michel Piccoli

02
CÉSAR e ROSALIE
(César et Rosalie, 1972)

direção de Claude Sautet
com: Yves Montand, Samy Frey e Isabelle Huppert

03
UMA HISTÓRIA SIMPLES
(Une Histoire Simple, 1978)

direção de Claude Sautet
com: Bruno Cremer e Claude Brasseur

04
LUDWIG: A PAIXÃO de um REI
(Ludwig, 1973)

direção de Luchino Visconti
com: Helmut Berger, Trevor Howard e Silvana Mangano

05
O PROCESSO
(Le Procès, 1962)

direção de Orson Welles
com: Anthony Perkins, Jeanne Moreau e Suzanne Flon

06
CORAÇÕES DESESPERADOS
(10:30 P.M. Summer, 1966)

direção de Jules Dassin
com: Melina Mercouri e Peter Finch

07
O IMPORTANTE é AMAR
(L'Important c'est d'Aimer, 1975)

direção de Andrzej Zulawski
com: Fabio Testi, Jacques Dutronc e Klaus Kinski

08
UM HOMEM, UMA MULHER, uma NOITE
(Clair de Femme, 1979)

direção de Costa-Gavras
com: Yves Montand, Romolo Valli e Lila Kedrova

09
O ASSASSINATO de TROTSKY
(The Assassination of Trotsky, 1972)

direção de Joseph Losey
com: Richard Burton, Alain Delon e Valentina Cortese

10
O ÚLTIMO TREM
(Le Train, 1973)

direção de Pierre Granier-Deferre
com: Jean-Louis Trintignant

GALERIA de FOTOS

 
 
 

fevereiro 12, 2017

********** UM CONDE CINEASTA, GAY e COMUNISTA



“Prefiro contar as derrotas, descrever as almas solitárias, os destinos esmagados pela realidade”
LUCHINO VISCONTI
1976


BELEZA e DENSIDADE

Dilacerado entre convicções socialistas e a nostalgia dos valores perdidos da sua formação aristocrática, o esteta italiano de fama internacional LUCHINO VISCONTI (1906 - 1976) juntou épico e intimismo, morte e decadência, sensualidade e política em filmes de arquitetura rigorosa e refinamento visual. Apaixonado pela beleza, filmou com minúcia enamorada alguns dos mais belos rostos que passaram nas telas: Romy Schneider, Alain Delon, Jean Sorel, Silvana Mangano, Massimo Girotti, Maria Schell, Jean Marais, Charlotte Rampling, Claudia Cardinale, Alida Valli, Farley Granger, Claudia Cardinale, Pierre Clémenti, Burt Lancaster, Marisa Berenson, Dominique Sanda, Anna Karina, Florinda Bolkan e Helmut Berger.

luchino visconti
De um cinema autoral e passional, tornou-se mestre em adaptações literárias, rodando obras de Thomas Mann, Albert Camus, Camillo Boito, Lampedusa, Gabriele D’Annunzio, James B. Cain, Dostoievski. Ele nasceu em Milão, nobre, filho de um Duque, evidente no nome de batismo e títulos aristocráticos: Luchino dei Duchi di Grazzano Visconti, Conde di Lonate Pozzolo, Signore di Corggeno, Consignore di Somma, Crenna e Agnadello. Durante a juventude interagiu com importantes intelectuais e artistas, do compositor Puccini ao escritor D'Annunzio. 

Interessou-se desde cedo por música, literatura e teatro, e também por cavalos. Fez o serviço militar em 1926 na cavalaria, passando a criar cavalos puro-sangue destinados às corridas. O cinema surgiria na sua vida bem mais tarde. Morreu em 17 de março de 1976, aos 70 anos, ao som da Segunda Sinfonia de Brahms e sem realizar dois sonhos: filmar “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, e “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust.

ASSISTENTE de RENOIR

Dedicado à cenografia e aos figurinos teatrais, em 1936 conheceu o produtor Gabriel Pascal, acenando-lhe a possibilidade de dirigir a adaptação de um conto de Gustave Flaubert para o estúdio britânico de Alexander Korda. O projeto não vingou. Ao 20 anos, desanimado, mudou-se para Paris, ficando amigo da estilista Coco Chanel. Através dela foi apresentado a Jean Cocteau e Jean Renoir. Este último, contratou-o como assistente do inacabado “Une Partie de Compagne” (1935), “Toni” (1935) e “Les Bas-Fonds” (1936). O genial Renoir seria uma influência marcante e o primeiro passo de uma carreira que brilharia na Itália.

EM CENA, a ESTRELA ANNA MAGNANI

anna magnani e visconti
Ele vendeu joias da família para realizar sua estreia cinematográfica, “Obsessão”, considerado o primeiro filme neo-realista, clássico de luxúria, adultério e morte. Queria Anna Magnani como protagonista. Não foi fácil, pois na época os produtores não acreditavam no talento dramático da futura diva. Eles a viam apenas como uma excelente comediante. No entanto, LUCHINO VISCONTI tinha como garantia a atuação dela em “Teresa Venerdi / Idem” (1941), de Vittorio De Sica, convicto do talento imenso. Convencendo os produtores, partiu para Ferrara com a atriz, começando as filmagens. Interessada no papel, ela enganou o diretor dizendo que estava grávida de dois meses, mas na verdade estava com cinco meses.

Para substituí-la como a bela e infeliz esposa do dono de um boteco e de um posto de gasolina de beira de estrada, chamou às pressas Clara Calamai. Ela diria mais tarde que o diretor era “um senhor medieval com chicote”.  Em cena com ela, Massimo Girotti, que faria outros filmes com LUCHINO VISCONTI: “Sedução da Carne”, “As Bruxas” e “O Inocente”. O cineasta trabalharia com Anna Magnani em “Belíssima”, de 1951, ela dando show como a mãe humilde que sonha em tornar sua filha uma estrela infantil de cinema e é apaixonada por Burt Lancaster.

NA II GUERRA MUNDIAL

Em 1944, Roma foi declarada “cidade aberta”. Denominação dada em tempos de guerra a uma cidade que, na iminência de ser atacada ou invadida, abandona os esforços de defesa, disposição de luta e se entrega ao inimigo. Politicamente comunista e antifascista, LUCHINO VISCONTI se juntou à Resistência italiana, escondendo aliados em seu palácio e permitindo que o lugar fosse utilizado como centro de um comando secreto, arriscando-se a ser executado. Participou de ações armadas contra os ocupantes alemães. Foi preso pela Gestapo em 1944, durante três meses. Vingou-se da prisão filmando a execução do chefe da policia política italiana Pietro Caruso para o documentário de 1945 “Dias de Glória”.

O CONDE VERMELHO

Ligado ao Partido Comunista Italiano, daí a alcunha de “Conde Vermelho”, nunca chegou a ser admitido como membro. O puritanismo do PCI da época jamais aceitaria um homossexual assumido no seu quadro. E sua origem também não recomendava. Na verdade, VISCONTI nunca foi totalmente aceito pelas esquerdas. Jamais perdoaram não ter dado continuidade à chamada “trilogia proletária”, iniciada com “A Terra Treme”. A partir de “O Leopardo”, quando, na opinião de muitos, ele abandonou de vez a temática política, essa rejeição ficou clara. Passou a ser patrulhado.

NA RIBALTA

alain delon e romy schneider
dirigidos por visconti
Nos últimos anos da década de 1940, direcionou sua energia para o teatro. Foi um atuante, inovador, criativo e audacioso diretor teatral. Sua primeira peça, “Os Pais Terríveis”, de Jean Cocteau, despontou como sucesso e escândalo. Fez cerca de 50 apresentações com casa lotada, algo extraordinário para a época. Houve grande tumulto e êxito ainda maior ao encenar “Adamo”, de Achard, lidando com a homossexualidade. A reação do público para “Caminho Áspero”, de Erskine Caldwell (filmado por John Ford), não foi menos violenta. A montagem chocou a classe mais abastada. Criticaram duramente a sua ópera “Fígaro”, descontentes com as inovações. A carreira na ribalta do diretor continuou com sucessos, como “Crime e Castigo” e “À Margem da Vida”, e nomes do calibre de Vittorio Gassman e Marcelo Mastroianni faziam parte de sua companhia teatral.

Após a opulência de “Rosalinda”, patrocinado por Salvador Dali – que afirmou sarcasticamente que o realizador “era um comunista que só gostava do luxo” -, montou em 1949 “Um Bonde Chamado Desejo” - com Gassman como um vigoroso Stanley Kowalski -, conduzindo habilmente a agressividade e o erotismo latentes no texto. Dirigiu a tragédia “Orestes”; “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, com Mastroianni; “O Sedutor”, de Diego Fabro; “La Locandiera”, de Goldoni; “As Três Irmãs”, de Tchekov. Nos palcos de Paris, em 1961, brilhou com Alain Delon e Romy Schneider na comédia “Pena Que Ela é Uma Puta”, de John Ford. No finalzinho da vida, adoentado, montou o polêmico Harold Pinter, “Tanto Tempo Faz”, e a ópera “Manon”.

A DIVA LÍRICA

Ele teve um grande envolvimento com a produção de óperas. Montou 21 delas entre 1953 e 1973, sendo dez de Verdi, seu compositor preferido. Por volta de 1954 tornou-se amigo de Maria Callas, montando e dirigindo espetáculos inesquecíveis para a soprano, no Scala de Milão. Essa inesquecível parceria resultou em óperas como “La Vestale”, “La Sonnambula”, “La Traviata” e “Anna Bolena”. A famosa cantora lírica afirmaria que aprendeu a representar com LUCHINO VISCONTI.

O diretor usou música clássica em muitos de seus filmes. Giuseppe Verdi (“Obsessão”, “Sedução da Carne”, “O Leopardo”); Anton Bruckner (“Sedução da Carne”); Gustav Mahler (“Morte em Veneza”); Cesar Frank (“Vagas Estrelas da Ursa”); Gaetano Donizetti (“Belíssima”); Richard Wagner (“Ludwig”) etc.

DE OLIVIER a LANCASTER

burt lancaster e luchino visconti
Sonhou Laurence Olivier para o papel do príncipe Fabrizio di Salina na obra-prima cult “O Leopardo”, personagem que acredita que se deve dar a impressão de estar mudando tudo para que tudo permaneça igual. O esnobe inglês tinha outros compromissos profissionais. Quando sugeriram Burt Lancaster, relutou, mas terminou por se encantar com a semelhança física dele com o protagonista de Lampedusa. Ficaram amigos. O ator norte-americano garantiu que foi o melhor momento de sua carreira.

O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mostra a mudança de rumo da nobreza siciliana para a nova sociedade burguesa. O desempenho magistral de Lancaster é distinto e profundamente humano. O diretor lapida o ex-artista de circo, fazendo com que fale pausadamente, brilhando mais nos silêncios, nas pausas. Onze anos depois, voltariam a trabalhar juntos no soberbo “Violência e Paixão”, onde ele faz um professor solitário, alter ego do diretor.

INTIMIDADE

visconti e alain delon
Apesar dos casos amorosos vividos, em diferentes períodos, com várias mulheres, como Coco Chanel, as atrizes Clara Calamai, María Denis, Marlene Dietrich e a escritora Elsa Morante, VISCONTI jamais escondeu sua homossexualidade, explicitamente referida em muitos dos seus filmes e nas montagens teatrais que dirigiu. Nos anos 1930, em Paris, teve um relacionamento com o fotógrafo Horst P. Horst. Entre o final dos anos 1940 e o início dos 1950, já consagrado como diretor, manteve uma longa relação afetiva e profissional com o seu então cenógrafo Franco Zeffirelli, que vivia então na vila do diretor, na via Salaria, em Roma.

Biógrafos garantem romances dele com Alain Delon, Mario Girotti (depois Terence Hill) e Giuliano Gemma. Profissionalmente convidava homossexuais para atuar em seus filmes (Massimo Girotti, Farley Granger, Jean Marais, Dirk Bogarde, Burt Lancaster etc.). Depois de 1965, ligou-se ao ator austríaco Helmut Berger. A relação se manteve, com altos e baixos, até a morte do diretor, em 1976.

UMA HISTÓRIA de AMOR e DOR

helmut berger e visconti
Acostumado a descrever em filmes e peças os meandros complexos do afeto e do amor, LUCHINO VISCONTI mergulhou num universo destrutivo a partir do relacionamento amoroso com o temperamental Helmut Berger, ator de pouco talento, drogado e escandaloso. Ele foi sua inspiração em vários de seus dramas, desde o pequeno papel em “As Bruxas”, aos 23 anos. Tenso e inseguro, Berger se destacou em “Os Deuses Malditos”, principalmente na famosa cena imitando a Lola-Lola de Marlene Dietrich em “O Anjo Azul / Der Blaue Engel” (1930).

O jovem ator também viveu o papel-título de “Ludwig, a Paixão de um Rei”. Nessa filmagem de 1972, o diretor sofreu um colapso que o deixou semiparalítico. Em 1975 voltaria a escalar o amante para “Violência e Paixão”, deixando claro na narrativa que a lucidez não é capaz evitar a sedução carnal. Com a morte do protetor, Helmut Berger decaiu subitamente, mesmo atuando em diversos filmes. Terminaria por tentar o suicídio, incendiando o apartamento onde morava.

QUASE PROUST, QUASE GARBO

Desde jovem LUCHINO VISCONTI foi leitor atento e fiel de Proust. O conhecimento e a intimidade com o universo do escritor francês deixaram marcas profundas no seu imaginário. Um dos seus maiores sonhos era o de adaptar ao cinema um dos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”. Em 1969, a produtora Nicole Stéphane convidou o cineasta para realizá-lo. Apesar de apreciar muitos pontos do roteiro de Ennio Flaiano, preferiu uma versão mais pessoal, encarregando sua parceira habitual de ajudá-lo, a ótima roteirista Suso Cecchi D’Amico.

Projeto promissor. Locações foram escolhidas, figurinos desenhados, elenco anunciado: o Barão de Charlus, personagem principal da versão viscontiana, caberia a Laurence Olivier ou Marlon Brando; Marcel, o narrador, seria interpretado por Alain Delon (falou-se também em Dustin Hoffman); Helmut Berger interpretaria Morel; Silvana Mangano, a duquesa (Oriane) de Guermantes; Charlotte Rampling faria Albertine (Visconti também pensou em uma desconhecida para o papel); Edwige Feuillère, madame Verdurin; a avó de Marcel, Madeleine Renaud; Marie Bell encarnaria a Berma; Simone Signoret, Françoise; e luxo supremo, Greta Garbo, convidada pela produtora, pedira um tempo para se decidir.

silvana mangano
O diretor não se conteve e anunciou numa coletiva que a veterana estrela sueca, afastada das telas desde os anos 1940, estaria no seu filme como a Rainha de Nápoles. A divulgação precipitada provocou a recusa da mítica atriz. Por razões não esclarecidas, o filme não foi realizado. Nicole Stéphane pediu o adiamento das filmagens, a fim de captar recursos, mas o diretor impaciente partiu para outro projeto: “Ludwig – A Paixão de Um Rei”. A amiga Suso D’Amico alega que ele no fundo temia realizar a obra de Proust, acreditando que seria seu último trabalho.

A MUSA

Atriz maravilhosa e uma das grandes estrelas do cinema europeu, Silvana Mangano se tornou musa de LUCHINO VISCONTI em seus últimos filmes. Interpretou Glória no episódio “A Bruxa Queimada Viva” em “As Bruxas”; a mãe de Tadzio em “Morte em Veneza”; Cosima Von Buelow, esposa do compositor Richard Wagner, em “Ludwig, a Paixão de um Rei” e a Marquesa Bianca Brumonti em “Violência e Paixão”. Obsecado pela recordação da mãe falecida em 1939, o cineasta via ecos maternos na elegância e na personalidade forte da estrela italiana.

(Fontes: “Da Mann a Proust. Intervista con Visconti”, de Giuliana Bianchi; “Visconti”, de Yves Guillame; “Visconti: Classicisme et Subvertion”, de Michèle Lagny; “Luchino Visconti: Les Béances de Ludwig”, do Cahiers du Cinéma; e “Esplendor de Visconti”, de Maria Rosária Fabris, Alex Calheiros e Carlos Augusto Calil”)

alain delon e claudia cardinale em o leopardo

FILMOGRAFIA

OBSESSÃO
(Ossessione, 1943)

adaptação do romance de James B. Cain
com Massimo Girotti e Clara Calamai

DIAS DE GLÓRIA
(Giorni di Gloria, 1945)

documentário

A TERRA TREME
(La Terra Trema, 1948)

com pescadores sicilianos

BELÍSSIMA
(Bellissima, 1951)

adaptação do conto de Cesare Zavattini
com Anna Magnani e Walter Chiari

NÓS, AS MULHERES
(Siamo Donne, 1953)

com Anna Magnani
episódio “Anna”

SEDUÇÃO DA CARNE
(Senso, 1954)

adaptação do romance de Camillo Boito
com Alida Valli, Farley Granger, Massimo Girotti
e Christian Marquand

UM ROSTO NA NOITE
(Le Notti Bianche, 1957)

adaptação do romance de Fiodor Dostóievski
com Maria Schell, Marcello Mastroianni, Jean Marais
e Clara Calamai
Leão de Prata no Festival de Veneza

ROCCO E SEUS IRMÃOS
(Rocco e i suoi Fratelli, 1960)

adaptação do romance de Giovanni Testori
com Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot,
Katina Paxinou e Claudia Cardinale
Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza

BOCCACCIO 70
(Idem, 1962)

com Romy Schneider, Thomas Milian e Romolo Valli
episódio “O Trabalho”

O LEOPARDO
(Il Gattopardo, 1963)

adaptação do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa
com Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale,
Paolo Stoppa e Romolo Valli
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

VAGAS ESTRELAS DA URSA
(Vaghe Stelle dell'Orsa..., 1965)

com Claudia Cardinale, Jean Sorel, Michael Craig
e Marie Bell
Leão de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Veneza

AS BRUXAS
(Le Streghe, 1967)

com Silvana Mangano, Annie Girardot, Fernando Rabal,
Massimo Girotti, Clara Calamai e Helmut Berger
episódio “A Bruxa Queimada Viva”

O ESTRANGEIRO
(Lo Straniero, 1967)

adaptação do romance de Albert Camus
com Marcello Mastroianni, Anna Karina e Bernard Blier

OS DEUSES MALDITOS
(La Caduta degli Dei, 1969)

com Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Griem,
Helmut Berger, Charlotte Rampling e Florinda Bolkan

MORTE EM VENEZA
(Morte a Venezia, 1974)

adaptação do romance de Thomas Mann
com Dirk Bogarde, Silvana Mangano, Björn Andrésen,
Romolo Valli e Marisa Berenson
David di Donatello de Melhor Direção

LUDWIG: A PAIXÃO DE UM REI
(Ludwig, 1973)

com Helmut Berger, Romy Schneider, Trevor Howard,
Silvana Mangano e Helmut Griem
David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Direção

VIOLÊNCIA E PAIXÃO
(Gruppo di Famiglia in un Interno, 1971)

com Burt Lancaster, Helmut Berger, Silvana Mangano
e Romolo Valli
David di Donatello de Melhor Filme 

O INOCENTE
(L'Innocente, 1976)

adaptação do romance de Gabriele D'Annunzio
com Giancarlo Giannini, Laura Antonelli, Jennifer O`Neill
e Massimo Girotti

GALERIA de FOTOS