fevereiro 19, 2017

*************** MARÍLIA – TALENTO a TODA PROVA



A primeira vez que vi de pertinho MARÍLIA PÊRA (Rio de Janeiro, RJ. 1943 - 2015) ela se preparava para uma cena do filme “Tieta do Agreste”. O olhar da estrela mirava um tanque metálico cheio d’água no outro extremo da praça, e depois se perdeu no horizonte sem árvores. Com o roteiro entre os dedos, murmurava falas. Nos arredores, Zezé Motta, curiosos e a voz mansa de Carlos Diegues pedindo atenção. A atriz de pouco mais de 50 anos teve a difícil missão de encontrar um caminho próprio para a seca e algo cômica Perpétua, figura do universo amadiano, vivida na TV com talento e popularidade por Joana Fomm. Havia visto a atriz anteriormente em “Elas por Elas” (1989), um musical em que ela se desdobra em várias cantoras brasileiras; e, mais adiante, a conheceria nos bastidores de “Mademoiselle Chanel” (2004), trabalhando na produção do espetáculo em Salvador.

Caminhando entre técnicos e figurantes, insistindo para entrevistar Sonia Braga, eu passei os olhos por aquela expressividade magra, sentada, ausente, os dedos apertando o manuscrito. “Uma mulher inesquecível. Ela é uma sacerdotisa”, escrevi no bloco de notas. “Tieta” foi arrasado pela crítica, mas ela ganhou prêmios no Festival de Cinema de Cuba e na Associação Paulista de Críticos de Arte. O ano era 1995, e essa mulher magnética, famosa no teatro e na televisão, já tinha currículo dos bons no cinema: “O Rei da Noite”, “Bar Esperança, o Último que Fecha” (Hugo Carvana, 1982), “Anjos da Noite”, “Dias Melhores Virão” etc. Nos anos seguintes, atuaria em alguns bons filmes: “Jenipapo”, “Central do Brasil”, “O Viajante” (Paulo César Saracceni, 1998) etc. Sempre fulgurante.

Passados 22 anos, MARÍLIA PÊRA não está entre nós. Morreu em dezembro de 2015, vítima de câncer no pulmão. Deixou um legado de personagens inesquecíveis, como a prostituta Suely em “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, que simboliza muito bem o talento do cinema nacional. Uma figura de ficção que fez história. A atriz foi comparada à Anna Magnani. Levou prêmios internacionais, entre eles o de Melhor Atriz da Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos Estados Unidos, chegando pertinho do míope tio Oscar. Em “O Viajante”, uma versão do romance inacabado de Lúcio Cardoso – notável escritor injustamente esquecido -, ela se destaca como uma madura viúva de pequena cidade do interior mineiro, apaixonada por um desconhecido ambíguo.

Ela é uma das maiores atrizes do Brasil, gigantesca no teatro, cinema e tevê. Antes dela, somente Cacilda Becker apropriou-se de tal comoção frente ao talento. Resplandecente, o universo artístico da carioca MARÍLIA PÊRA, filha de uma tradicional família de atores que trabalhava na Companhia Henriette Morineau, começou na infância, no palco. Entrou em cena pela primeira vez aos quatro anos de idade, em “Medéia”, a tragédia de Eurípedes. Trabalhou muito tempo como bailarina, fazendo parte do balé fixo da TV Tupi do Rio, dançando em programas como “Grande Teatro Tupi”, “Teatrinho Trol”, “Espetáculos Tonelux” e em revistas musicais como “De Cabral a JK” (1959). A primeira aparição em telenovelas foi em “Rosinha do Sobrado”, na Rede Globo, em 1965 e, em seguida, em “A Moreninha”.

francisco cuoco e marília
em “o cafona”
Anos 1980, época das densas minisséries “Quem Ama não Mata” (1982), de Euclides Marinho, direção de Daniel Filho, e “O Primo Basílio” (1988), lembrando Eça de Queiróz. Na década anterior, carimbou sua presença em clássicos da história da tevê brasileira: “Beto Rockfeller” (1968), “Super Plá” (1969), O Cafona” (1971), “Bandeira 2” (1971) e “Uma Rosa com Amor” (1972). Tempos de Joana Martini, Shirley Sexy, Noeli, Serafina Rosa. Voltou às telenovelas em 1987 na engraçada “Brega e Chique”. Ninguém resistiu ao escracho. Na pele de Rafaela, fez bastante sucesso. Anos depois, diria que essa foi a telenovela que mais gostou de fazer. Ela voltaria a interpretar Rafaela no remake “Ti-Ti-Ti” (2011), escrito por Maria Adelaide Amaral. Na minissérie “JK” (2006) fez a ex-primeira dama do Brasil Sarah Kubitschek.

Em plena ditadura, ela causou polêmica com espetáculos rebeldes do naipe de “Roda Viva” (1968), sendo espancada por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que invadiram o teatro onde a peça era encenada. Chegou a ser presa e obrigada a correr nua por um corredor polonês. Foi presa uma segunda vez, visto que era tida como comunista, quando policias invadiram a sua residência. Conquistou a crítica e o público definitivamente com o êxito de “Fala Baixo Senão Eu Grito” (1969). A abominável professora de “Apareceu a Margarida” (1973), de Roberto Athayde, rendeu o Prêmio Molière. Repetiu esse célebre espetáculo em 78, 94 e 95. 

Em 1987 encarnou Dalva de Oliveira em “A Estrela Dalva”; em 1996 foi a mitológica Maria Callas em “Master Class”, dirigida por Jorge Takla, e em 1998, com direção de Moacyr Góes, a nelsonrodriguiana prostituta Geni de “Toda Nudez Será Castigada”. Além disso, nos palcos interpretou Carmen Miranda em diversas ocasiões – “O Teu Cabelo não Nega” (1963), “A Pequena Notável” (1966), “A Tribute to Carmen Miranda” (1975), apresentada em Nova York, “A Pêra da Carmen” (1986 e 1995) e “Marília Pêra canta Carmen Miranda” (2005).

A expressividade mapeia o corpo enxuto e o rosto admirável de MARÍLIA PÊRA, tal qual uma Kay Kendall, uma Rosalind Russell, uma Arletty ou uma Marisa Paredes. Em “Brava Gente: A Cabine” (2002) sensibiliza Antonio Fagundes com um largo sorriso enamorado. Nessa história de amor, nada parece inverossímil ou excessivo, afinal a atriz desenha sua interpretação em gestos cúmplices. No chato “Dias Melhores Virão” rouba a cena como a dubladora Marialva. O mesmo aconteceu na enfadonha “Meu Bem Querer” (1998). A vilã Custódia supera sem máculas a telenovela, graças a reputação e habilidade da atriz. A Pupi de “O Rei da Noite” é outro momento seu de qualidade. Ela e Paulo José são a alma desta comédia à italiana. A atriz se conecta muito bem com Paulo José; e também com Marco Nanini. Há uma química perfeita entre eles. Foi maravilhoso vê-los em cena tantas vezes.

Em 2013, fez “Pé na Cova”, interpretando Darlene, uma suburbana maquiadora da funerária do ex-esposo Ruço (Miguel Falabella). Antes do seriado, a amizade com Miguel Falabella já havia rendido papéis no seriado “A Vida Alheia” (2010), no filme “Polaroides Urbanos” (2008), onde interpreta duas irmãs gêmeas, e na telenovela “Aquele Beijo” (2011), todos escritos por ele. No carnaval de 2015, ela foi homenageada pela Escola de Samba Mocidade Alegre, de São Paulo. Em agosto do mesmo ano, foi a grande homenageada do Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu o Troféu Oscarito. MARÍLIA PÊRA casou-se pela primeira vez aos dezessete anos, com o músico Paulo Graça Mello, morto num acidente de carro em 1969. Aos dezoito, foi mãe de Ricardo. Mais tarde, foi casada com o ator Paulo Villaça, seu parceiro em “Fala Baixo Senão Eu Grito”, e com Nelson Motta, com quem teve as filhas Esperança e Nina. Era casada, desde 1998, com o economista carioca Bruno Faria. 

Ela atuou em 26 filmes, desde a estreia como a ingênua Rosinha de “O Homem que Comprou o Mundo” (1968), de Eduardo Coutinho. Revelou-se uma presença soberana, uma das artistas mais completas do Brasil: além de interpretar, era cantora, bailarina, diretora, produtora e coreógrafa. Trabalhou em mais de 50 peças e cerca de 40 novelas, minisséries e programas de televisão. Entre os trabalhos favoritos na TV, no entanto, MARÍLIA PÊRA escolhia as minisséries: “O Primo Basílio” (1988), em que interpretou a vilã Juliana, e “Os Maias” (2001). Morreu aos 72 anos.

FILMOGRAFIA SELECIONADA
(por ordem de preferência)

01
PIXOTE: A LEI DO MAIS FRACO
(1981)

de Hector Babenco
com Fernando Ramos da Silva, Jardel Filho, 
Rubens de Falco, Elke Maravilha, 
Tony Tornado e Beatriz Segall

02
ANJOS DA NOITE
(1987)
de Wilson Barros
com Zezé Motta, Antônio Fagundes, Marco Nanini,
Chiquinho Brandão e Guilherme Leme

03
CENTRAL DO BRASIL
(1998)

de Walter Salles
com Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, 
Othon Bastos, Otávio Augusto 
e Matheus Nachtergaele

04
MIXED BLOOD
(1984)

de Paul Morrissey
com Richard Ulacia e Linda Kerridge

05
AMÉLIA
(2001)
de Ana Carolina
com Béatrice Agenin, Camila Amado,
Marcélia Cartaxo e Cristina Pereira

06
O REI DA NOITE
(1975)
de Hector Babenco
com Paulo José, Vick Militello, Cristina Pereira
e Yara Amaral

07
O VIAJANTE
(1998)
de Paulo César Saraceni
com Jairo Mattos, Leandra Leal 
e Paulo César Pereio

08
JENIPAPO
(1995)
de Monique Gardemberg
com Otávio Augusto, Patrick Bauchau, Júlia Lemmertz
e Ana Beatriz Nogueira

09
DIAS MELHORES VIRÃO
(1990)

de Carlos Diegues
com Paulo José, Zezé Motta, José Wilker
e Paulo César Pereio

10
TIETA DO AGRESTE
(1996)

de Carlos Diegues
com Sonia Braga, Chico Anysio, Cláudia Abreu,
Zezé Motta e Jece Valadão

GALERIA de FOTOS

 
 
 
 
 

fevereiro 12, 2017

********** UM CONDE CINEASTA, GAY e COMUNISTA



“Prefiro contar as derrotas, descrever as almas solitárias, os destinos esmagados pela realidade”
LUCHINO VISCONTI
1976


BELEZA e DENSIDADE

Dilacerado entre convicções socialistas e a nostalgia dos valores perdidos da sua formação aristocrática, o esteta italiano de fama internacional LUCHINO VISCONTI (1906 - 1976) juntou épico e intimismo, morte e decadência, sensualidade e política em filmes de arquitetura rigorosa e refinamento visual. Apaixonado pela beleza, filmou com minúcia enamorada alguns dos mais belos rostos que passaram nas telas: Romy Schneider, Alain Delon, Jean Sorel, Silvana Mangano, Massimo Girotti, Maria Schell, Jean Marais, Charlotte Rampling, Claudia Cardinale, Alida Valli, Farley Granger, Claudia Cardinale, Pierre Clémenti, Burt Lancaster, Marisa Berenson, Dominique Sanda, Anna Karina, Florinda Bolkan e Helmut Berger.

luchino visconti
De um cinema autoral e passional, tornou-se mestre em adaptações literárias, rodando obras de Thomas Mann, Albert Camus, Camillo Boito, Lampedusa, Gabriele D’Annunzio, James B. Cain, Dostoievski. Ele nasceu em Milão, nobre, filho de um Duque, evidente no nome de batismo e títulos aristocráticos: Luchino dei Duchi di Grazzano Visconti, Conde di Lonate Pozzolo, Signore di Corggeno, Consignore di Somma, Crenna e Agnadello. Durante a juventude interagiu com importantes intelectuais e artistas, do compositor Puccini ao escritor D'Annunzio. 

Interessou-se desde cedo por música, literatura e teatro, e também por cavalos. Fez o serviço militar em 1926 na cavalaria, passando a criar cavalos puro-sangue destinados às corridas. O cinema surgiria na sua vida bem mais tarde. Morreu em 17 de março de 1976, aos 70 anos, ao som da Segunda Sinfonia de Brahms e sem realizar dois sonhos: filmar “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, e “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust.

ASSISTENTE de RENOIR

Dedicado à cenografia e aos figurinos teatrais, em 1936 conheceu o produtor Gabriel Pascal, acenando-lhe a possibilidade de dirigir a adaptação de um conto de Gustave Flaubert para o estúdio britânico de Alexander Korda. O projeto não vingou. Ao 20 anos, desanimado, mudou-se para Paris, ficando amigo da estilista Coco Chanel. Através dela foi apresentado a Jean Cocteau e Jean Renoir. Este último, contratou-o como assistente do inacabado “Une Partie de Compagne” (1935), “Toni” (1935) e “Les Bas-Fonds” (1936). O genial Renoir seria uma influência marcante e o primeiro passo de uma carreira que brilharia na Itália.

EM CENA, a ESTRELA ANNA MAGNANI

anna magnani e visconti
Ele vendeu joias da família para realizar sua estreia cinematográfica, “Obsessão”, considerado o primeiro filme neo-realista, clássico de luxúria, adultério e morte. Queria Anna Magnani como protagonista. Não foi fácil, pois na época os produtores não acreditavam no talento dramático da futura diva. Eles a viam apenas como uma excelente comediante. No entanto, LUCHINO VISCONTI tinha como garantia a atuação dela em “Teresa Venerdi / Idem” (1941), de Vittorio De Sica, convicto do talento imenso. Convencendo os produtores, partiu para Ferrara com a atriz, começando as filmagens. Interessada no papel, ela enganou o diretor dizendo que estava grávida de dois meses, mas na verdade estava com cinco meses.

Para substituí-la como a bela e infeliz esposa do dono de um boteco e de um posto de gasolina de beira de estrada, chamou às pressas Clara Calamai. Ela diria mais tarde que o diretor era “um senhor medieval com chicote”.  Em cena com ela, Massimo Girotti, que faria outros filmes com LUCHINO VISCONTI: “Sedução da Carne”, “As Bruxas” e “O Inocente”. O cineasta trabalharia com Anna Magnani em “Belíssima”, de 1951, ela dando show como a mãe humilde que sonha em tornar sua filha uma estrela infantil de cinema e é apaixonada por Burt Lancaster.

NA II GUERRA MUNDIAL

Em 1944, Roma foi declarada “cidade aberta”. Denominação dada em tempos de guerra a uma cidade que, na iminência de ser atacada ou invadida, abandona os esforços de defesa, disposição de luta e se entrega ao inimigo. Politicamente comunista e antifascista, LUCHINO VISCONTI se juntou à Resistência italiana, escondendo aliados em seu palácio e permitindo que o lugar fosse utilizado como centro de um comando secreto, arriscando-se a ser executado. Participou de ações armadas contra os ocupantes alemães. Foi preso pela Gestapo em 1944, durante três meses. Vingou-se da prisão filmando a execução do chefe da policia política italiana Pietro Caruso para o documentário de 1945 “Dias de Glória”.

O CONDE VERMELHO

Ligado ao Partido Comunista Italiano, daí a alcunha de “Conde Vermelho”, nunca chegou a ser admitido como membro. O puritanismo do PCI da época jamais aceitaria um homossexual assumido no seu quadro. E sua origem também não recomendava. Na verdade, VISCONTI nunca foi totalmente aceito pelas esquerdas. Jamais perdoaram não ter dado continuidade à chamada “trilogia proletária”, iniciada com “A Terra Treme”. A partir de “O Leopardo”, quando, na opinião de muitos, ele abandonou de vez a temática política, essa rejeição ficou clara. Passou a ser patrulhado.

NA RIBALTA

alain delon e romy schneider
dirigidos por visconti
Nos últimos anos da década de 1940, direcionou sua energia para o teatro. Foi um atuante, inovador, criativo e audacioso diretor teatral. Sua primeira peça, “Os Pais Terríveis”, de Jean Cocteau, despontou como sucesso e escândalo. Fez cerca de 50 apresentações com casa lotada, algo extraordinário para a época. Houve grande tumulto e êxito ainda maior ao encenar “Adamo”, de Achard, lidando com a homossexualidade. A reação do público para “Caminho Áspero”, de Erskine Caldwell (filmado por John Ford), não foi menos violenta. A montagem chocou a classe mais abastada. Criticaram duramente a sua ópera “Fígaro”, descontentes com as inovações. A carreira na ribalta do diretor continuou com sucessos, como “Crime e Castigo” e “À Margem da Vida”, e nomes do calibre de Vittorio Gassman e Marcelo Mastroianni faziam parte de sua companhia teatral.

Após a opulência de “Rosalinda”, patrocinado por Salvador Dali – que afirmou sarcasticamente que o realizador “era um comunista que só gostava do luxo” -, montou em 1949 “Um Bonde Chamado Desejo” - com Gassman como um vigoroso Stanley Kowalski -, conduzindo habilmente a agressividade e o erotismo latentes no texto. Dirigiu a tragédia “Orestes”; “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, com Mastroianni; “O Sedutor”, de Diego Fabro; “La Locandiera”, de Goldoni; “As Três Irmãs”, de Tchekov. Nos palcos de Paris, em 1961, brilhou com Alain Delon e Romy Schneider na comédia “Pena Que Ela é Uma Puta”, de John Ford. No finalzinho da vida, adoentado, montou o polêmico Harold Pinter, “Tanto Tempo Faz”, e a ópera “Manon”.

A DIVA LÍRICA

Ele teve um grande envolvimento com a produção de óperas. Montou 21 delas entre 1953 e 1973, sendo dez de Verdi, seu compositor preferido. Por volta de 1954 tornou-se amigo de Maria Callas, montando e dirigindo espetáculos inesquecíveis para a soprano, no Scala de Milão. Essa inesquecível parceria resultou em óperas como “La Vestale”, “La Sonnambula”, “La Traviata” e “Anna Bolena”. A famosa cantora lírica afirmaria que aprendeu a representar com LUCHINO VISCONTI.

O diretor usou música clássica em muitos de seus filmes. Giuseppe Verdi (“Obsessão”, “Sedução da Carne”, “O Leopardo”); Anton Bruckner (“Sedução da Carne”); Gustav Mahler (“Morte em Veneza”); Cesar Frank (“Vagas Estrelas da Ursa”); Gaetano Donizetti (“Belíssima”); Richard Wagner (“Ludwig”) etc.

DE OLIVIER a LANCASTER

burt lancaster e luchino visconti
Sonhou Laurence Olivier para o papel do príncipe Fabrizio di Salina na obra-prima cult “O Leopardo”, personagem que acredita que se deve dar a impressão de estar mudando tudo para que tudo permaneça igual. O esnobe inglês tinha outros compromissos profissionais. Quando sugeriram Burt Lancaster, relutou, mas terminou por se encantar com a semelhança física dele com o protagonista de Lampedusa. Ficaram amigos. O ator norte-americano garantiu que foi o melhor momento de sua carreira.

O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mostra a mudança de rumo da nobreza siciliana para a nova sociedade burguesa. O desempenho magistral de Lancaster é distinto e profundamente humano. O diretor lapida o ex-artista de circo, fazendo com que fale pausadamente, brilhando mais nos silêncios, nas pausas. Onze anos depois, voltariam a trabalhar juntos no soberbo “Violência e Paixão”, onde ele faz um professor solitário, alter ego do diretor.

INTIMIDADE

visconti e alain delon
Apesar dos casos amorosos vividos, em diferentes períodos, com várias mulheres, como Coco Chanel, as atrizes Clara Calamai, María Denis, Marlene Dietrich e a escritora Elsa Morante, VISCONTI jamais escondeu sua homossexualidade, explicitamente referida em muitos dos seus filmes e nas montagens teatrais que dirigiu. Nos anos 1930, em Paris, teve um relacionamento com o fotógrafo Horst P. Horst. Entre o final dos anos 1940 e o início dos 1950, já consagrado como diretor, manteve uma longa relação afetiva e profissional com o seu então cenógrafo Franco Zeffirelli, que vivia então na vila do diretor, na via Salaria, em Roma.

Biógrafos garantem romances dele com Alain Delon, Mario Girotti (depois Terence Hill) e Giuliano Gemma. Profissionalmente convidava homossexuais para atuar em seus filmes (Massimo Girotti, Farley Granger, Jean Marais, Dirk Bogarde, Burt Lancaster etc.). Depois de 1965, ligou-se ao ator austríaco Helmut Berger. A relação se manteve, com altos e baixos, até a morte do diretor, em 1976.

UMA HISTÓRIA de AMOR e DOR

helmut berger e visconti
Acostumado a descrever em filmes e peças os meandros complexos do afeto e do amor, LUCHINO VISCONTI mergulhou num universo destrutivo a partir do relacionamento amoroso com o temperamental Helmut Berger, ator de pouco talento, drogado e escandaloso. Ele foi sua inspiração em vários de seus dramas, desde o pequeno papel em “As Bruxas”, aos 23 anos. Tenso e inseguro, Berger se destacou em “Os Deuses Malditos”, principalmente na famosa cena imitando a Lola-Lola de Marlene Dietrich em “O Anjo Azul / Der Blaue Engel” (1930).

O jovem ator também viveu o papel-título de “Ludwig, a Paixão de um Rei”. Nessa filmagem de 1972, o diretor sofreu um colapso que o deixou semiparalítico. Em 1975 voltaria a escalar o amante para “Violência e Paixão”, deixando claro na narrativa que a lucidez não é capaz evitar a sedução carnal. Com a morte do protetor, Helmut Berger decaiu subitamente, mesmo atuando em diversos filmes. Terminaria por tentar o suicídio, incendiando o apartamento onde morava.

QUASE PROUST, QUASE GARBO

Desde jovem LUCHINO VISCONTI foi leitor atento e fiel de Proust. O conhecimento e a intimidade com o universo do escritor francês deixaram marcas profundas no seu imaginário. Um dos seus maiores sonhos era o de adaptar ao cinema um dos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”. Em 1969, a produtora Nicole Stéphane convidou o cineasta para realizá-lo. Apesar de apreciar muitos pontos do roteiro de Ennio Flaiano, preferiu uma versão mais pessoal, encarregando sua parceira habitual de ajudá-lo, a ótima roteirista Suso Cecchi D’Amico.

Projeto promissor. Locações foram escolhidas, figurinos desenhados, elenco anunciado: o Barão de Charlus, personagem principal da versão viscontiana, caberia a Laurence Olivier ou Marlon Brando; Marcel, o narrador, seria interpretado por Alain Delon (falou-se também em Dustin Hoffman); Helmut Berger interpretaria Morel; Silvana Mangano, a duquesa (Oriane) de Guermantes; Charlotte Rampling faria Albertine (Visconti também pensou em uma desconhecida para o papel); Edwige Feuillère, madame Verdurin; a avó de Marcel, Madeleine Renaud; Marie Bell encarnaria a Berma; Simone Signoret, Françoise; e luxo supremo, Greta Garbo, convidada pela produtora, pedira um tempo para se decidir.

silvana mangano
O diretor não se conteve e anunciou numa coletiva que a veterana estrela sueca, afastada das telas desde os anos 1940, estaria no seu filme como a Rainha de Nápoles. A divulgação precipitada provocou a recusa da mítica atriz. Por razões não esclarecidas, o filme não foi realizado. Nicole Stéphane pediu o adiamento das filmagens, a fim de captar recursos, mas o diretor impaciente partiu para outro projeto: “Ludwig – A Paixão de Um Rei”. A amiga Suso D’Amico alega que ele no fundo temia realizar a obra de Proust, acreditando que seria seu último trabalho.

A MUSA

Atriz maravilhosa e uma das grandes estrelas do cinema europeu, Silvana Mangano se tornou musa de LUCHINO VISCONTI em seus últimos filmes. Interpretou Glória no episódio “A Bruxa Queimada Viva” em “As Bruxas”; a mãe de Tadzio em “Morte em Veneza”; Cosima Von Buelow, esposa do compositor Richard Wagner, em “Ludwig, a Paixão de um Rei” e a Marquesa Bianca Brumonti em “Violência e Paixão”. Obsecado pela recordação da mãe falecida em 1939, o cineasta via ecos maternos na elegância e na personalidade forte da estrela italiana.

(Fontes: “Da Mann a Proust. Intervista con Visconti”, de Giuliana Bianchi; “Visconti”, de Yves Guillame; “Visconti: Classicisme et Subvertion”, de Michèle Lagny; “Luchino Visconti: Les Béances de Ludwig”, do Cahiers du Cinéma; e “Esplendor de Visconti”, de Maria Rosária Fabris, Alex Calheiros e Carlos Augusto Calil”)

alain delon e claudia cardinale em o leopardo

FILMOGRAFIA

OBSESSÃO
(Ossessione, 1943)

adaptação do romance de James B. Cain
com Massimo Girotti e Clara Calamai

DIAS DE GLÓRIA
(Giorni di Gloria, 1945)

documentário

A TERRA TREME
(La Terra Trema, 1948)

com pescadores sicilianos

BELÍSSIMA
(Bellissima, 1951)

adaptação do conto de Cesare Zavattini
com Anna Magnani e Walter Chiari

NÓS, AS MULHERES
(Siamo Donne, 1953)

com Anna Magnani
episódio “Anna”

SEDUÇÃO DA CARNE
(Senso, 1954)

adaptação do romance de Camillo Boito
com Alida Valli, Farley Granger, Massimo Girotti
e Christian Marquand

UM ROSTO NA NOITE
(Le Notti Bianche, 1957)

adaptação do romance de Fiodor Dostóievski
com Maria Schell, Marcello Mastroianni, Jean Marais
e Clara Calamai
Leão de Prata no Festival de Veneza

ROCCO E SEUS IRMÃOS
(Rocco e i suoi Fratelli, 1960)

adaptação do romance de Giovanni Testori
com Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot,
Katina Paxinou e Claudia Cardinale
Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza

BOCCACCIO 70
(Idem, 1962)

com Romy Schneider, Thomas Milian e Romolo Valli
episódio “O Trabalho”

O LEOPARDO
(Il Gattopardo, 1963)

adaptação do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa
com Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale,
Paolo Stoppa e Romolo Valli
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

VAGAS ESTRELAS DA URSA
(Vaghe Stelle dell'Orsa..., 1965)

com Claudia Cardinale, Jean Sorel, Michael Craig
e Marie Bell
Leão de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Veneza

AS BRUXAS
(Le Streghe, 1967)

com Silvana Mangano, Annie Girardot, Fernando Rabal,
Massimo Girotti, Clara Calamai e Helmut Berger
episódio “A Bruxa Queimada Viva”

O ESTRANGEIRO
(Lo Straniero, 1967)

adaptação do romance de Albert Camus
com Marcello Mastroianni, Anna Karina e Bernard Blier

OS DEUSES MALDITOS
(La Caduta degli Dei, 1969)

com Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Griem,
Helmut Berger, Charlotte Rampling e Florinda Bolkan

MORTE EM VENEZA
(Morte a Venezia, 1974)

adaptação do romance de Thomas Mann
com Dirk Bogarde, Silvana Mangano, Björn Andrésen,
Romolo Valli e Marisa Berenson
David di Donatello de Melhor Direção

LUDWIG: A PAIXÃO DE UM REI
(Ludwig, 1973)

com Helmut Berger, Romy Schneider, Trevor Howard,
Silvana Mangano e Helmut Griem
David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Direção

VIOLÊNCIA E PAIXÃO
(Gruppo di Famiglia in un Interno, 1971)

com Burt Lancaster, Helmut Berger, Silvana Mangano
e Romolo Valli
David di Donatello de Melhor Filme 

O INOCENTE
(L'Innocente, 1976)

adaptação do romance de Gabriele D'Annunzio
com Giancarlo Giannini, Laura Antonelli, Jennifer O`Neill
e Massimo Girotti

GALERIA de FOTOS