dezembro 18, 2016

********** MARLON BRANDO – O INSACIÁVEL



Ele é um dos monstros sagrados da Sétima Arte. Apesar de uma vida pessoal conturbada, a profissional foi um estouro. Considerado pelos críticos (e também pelo público) como um dos grandes atores da história do cinema, revolucionou essa arte com interpretações inovadoras e introspectivas. Ao se mudar para Nova York, ainda muito jovem, MARLON BRANDO (1924-2004) matriculou-se no famoso Actor’s Studio. Conservando o espírito rebelde e agressivo da adolescência, tornou-se um dos mais requisitados atores da Broadway, desde a aclamada estreia em “I Remember Mama” (1944). A seguir, interpretou o personagem que o transformou no mito que cultivamos ainda hoje: o rude e sexy Stanley Kowalski de “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams.

Durante algum tempo recusou ofertas de Hollywood, mas em 1950 estreou com êxito em “Espíritos Indômitos / The Men”, de Fred Zinnemann, no papel de um soldado paraplégico. Ao seu lado, a ótima Teresa Wright. Marcou época na adaptação cinematográfica de Elia Kazan da peça impactante de Tennessee, “Uma Rua Chamada Pecado”. Recebeu a primeira das quatro indicações consecutivas ao Oscar de Melhor Ator. O longa lançou MARLON BRANDO como símbolo sexual, camiseta branca justa e suada. O mundo inteiro suspirou.

Nos anos seguintes, passou a ser idolatrado como o maior ícone do seu tempo. Seus filmes eram bem recebidos. Reconhecido de imediato pela capacidade original de interpretação, reescreveu as regras da atuação e, com impactante beleza sensual, redefiniu a postura do astro de cinema. Convertido em emblema da rebeldia ao interpretar o líder de um bando de motoqueiros em “O Selvagem / The Wild One” (1953), seu poder de atração diminuiu nos anos 1960 devido à participação em projetos medíocres e à recusa inexplicável em protagonizar excelentes filmes (como os premiados Ben-Hur / Idem, de William Wyler, 1959; e Lawrence da Arábia / Lawrence of Arabia, de David Lean, 1962).

O ator cresceu numa família difícil. Seu pai vendia produtos químicos e era indiferente aos três filhos. Sua mãe foi atriz sem projeção, mas se destacava mesmo por seu gosto pela bebida. Ele costumava buscar a mãe, embriagada, num bar ou adormecida sobre uma mesa. Ela eventualmente passava as noites fora de casa, com outros homens. O exemplo que teve em casa fez dele um homem de pouca consideração com a família. Ele queria ter muitas crianças. Mas nunca foi um pai, um marido. Ele nunca conseguiu amar ninguém. Ele nem amava a si mesmo.

A biografia intitulada “Brando Unzipped” (Brando sem Segredos, em tradução livre, de 2006), escrita por Darwin Porter, apresenta o grande ator como sexualmente insaciável. MARLON BRANDO se casou três vezes, mas acumulou dúzias de casos amorosos. Chamava seu membro de “nobre ferramenta”. De Rock Hudson a Vivien Leigh, de Bette Davis a Cary Grant, de Montgomery Clift a Marilyn Monroe, de Christian Marquand a Ursula Andress, de Ava Gardner a Rita Moreno, ele teve numerosas relações sexuais. Foi pai de pelo menos nove filhos, frutos dos casamentos com mulheres geralmente morenas e exóticas, entre elas a mexicana Movita.

marilyn monroe e brando
Em 1976, o astro assumiu numa entrevista o que até hoje muita gente ainda tem medo de dizer: “Como um grande número de homens, tive muitas experiências homossexuais e não sinto a menor vergonha. Nunca dei muita atenção para o que as pessoas acham de mim”. Ele teve um caso complicado com James Dean. Os dois eram adeptos de práticas sadomasoquistas. Supostamente, MARLON BRANDO se divertia apagando cigarros no corpo do amante. Ele gostava de atormentar o companheiro, a quem via como um mero brinquedo sexual, mas Dean estava completamente apaixonado.

Temperamental, o ator provocou inúmeras confusões. Ao interpretar a peça de Tennessee Williams no teatro, o seu relacionamento com os colegas era tão difícil que um ator substituto – Jack Palance - chegou a socá-lo e quebrar seu nariz. A maneira como tratava os cineastas que não respeitava é um exemplo de sua perversidade. A Henry Koster, diretor de “Désirée, o Amor de Napoleão / Désirée” (1954), no qual interpretou Napoleão Bonaparte, direcionou insultos e chegou a pedir que ele tirasse piolhos de sua cueca. Houve um dia em que o veterano Koster teve que se ajoelhar para convencer MARLON BRANDO a continuar a trabalhar.

Ainda no campo privado, ele teve um papel decisivo na destruição de dois de seus filhos. A taitiana Cheyenne se enforcou aos 25 anos, em 1995, na casa da mãe, Tarita Teriipaia, uma atriz que ele conheceu no set de “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty” (1962). Depois, soube-se que ela acusava o pai por supostas relações incestuosas. Já Christian Brando, filho da atriz Anna Kashfi, matou o namorado de Cheyenne com um tiro na casa do pai. Pelo crime, Christian ficou preso entre 1991 e 1996. A tragédia abalou o astro profundamente. Quando estava se recuperando do trauma, sua ex-mulher Cristina Ruíz reabriu um processo litigioso de US$ 100 milhões. Ela afirmou que o ex-marido não cumpriu um acordo de pagar US$ 10 mil mensalmente como pensão para os três filhos do casal, incluindo o autista Timothy, que tinha 10 anos na época.

brando e o primeiro oscar
Indicado sete vezes ao Oscar de Melhor Ator - em 1951, por “Uma Rua Chamada Pecado”; em 1952, “Viva Zapata!”; em 1953, “Júlio César”; em 1954, “Sindicato de Ladrões”; em 1957, “Sayonara / Idem”; em 1972, “O Poderoso Chefão” e em 1973, “O Último Tango em Paris”MARLON BRANDO foi vitorioso duas vezes, pelo retrato de um ex-boxeador fracassado em “Sindicato de Ladrões”, e como o mítico Don Corleone de “O Poderoso Chefão”, marcando a recuperação da carreira então em decadência. Ele recusou o segundo Oscar em protesto contra a situação infame dos índios norte-americanos e o modo como eles eram retratados no cinema hollywoodiano. Em 1989, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por “Assassinato sob Custódia / A Dry White Season”.

Todos são fascinados pelo carisma do ator. Mas todos também se impressionam com a forma como sua vida se tornou uma tragédia. Com 20 anos, ele podia ter qualquer mulher ou homem do mundo. Ele podia fazer o que quisesse, e fez. Aí, aos 40, ele começa a perder o interesse por essas coisas. Até o sexo perde importância. Ele começa a achar as pessoas chatas. Ainda assim, nesse desânimo, brilhou em “Último Tango em Paris” (1972), de Bertolucci, em que o próprio ator teve a ideia de dar uma nova função para a manteiga; e em “Apocalypse Now” (1979), de Coppola, rodado quando MARLON BRANDO já vinha num acelerado processo de decadência física. Ele comia sem parar e não gostava de sair de casa.

“Ele tinha o que se pode chamar de combinação perfeita”, afirmou Rod Steiger, co-protagonista de “Sindicato de Ladrões”. “Tinha um talento incrível, era um símbolo sexual e se negava a aceitar compromissos. Tornou-se a expressão de uma interpretação verdadeira e realista, que nunca teria existido sem ele”, completou. Obeso, MARLON BRANDO chegou a pesar 160 quilos e viveu seus últimos anos de vida recluso na Polinésia Francesa, paraíso que o encantou durante as filmagens de “O Grande Motim” e onde costumava passar longas temporadas desde que comprou a ilha de Teti'aroa, em 1966.


Aceitando cada vez menos papéis no cinema, recusou personagens como Karl Marx, Pablo Picasso e Theodore Roosevelt. Passava dias no sofá assistindo a séries e filmes antigos de comédia, não recebia mais amigos, não gostava de atender a telefonemas. Ele era apenas uma lembrança, obscura e melancólica, de quem foi MARLON BRANDO. Morreu em 2004, aos 80 anos, vítima de insuficiência pulmonar aguda. Nunca houve um ator como ele. Quando o vemos na tela há um magnetismo imenso que não deixa outra opção a não ser amá-lo. Mas, ao mesmo tempo, ele foi uma figura odiosa que destruiu tudo: seu talento, sua carreira, sua família e sua vida.



OS 10 MELHORES FILMES DE BRANDO
(por ordem de preferência)

01
O PODEROSO CHEFÃO
(The Godfather, 1972)
de Francis Ford Coppola
Com Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e
Sterling Hayden

Patriarca de poderosa família mafiosa de Nova York espera passar os negócios para um dos filhos, recém-chegado da Segunda Guerra. O rapaz tem outros planos, mas se vê forçado a assumir o império familiar ilegal quando o pai é quase morto por gângsteres rivais.
Oscar de Melhor Ator
Globo de Ouro de Melhor Ator
Melhor Ator do Círculo dos Críticos de Cinema de Kansas City

02
SINDICATO DE LADRÕES
(On the Waterfront, 1954)
de Elia Kazan
Com Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger
e Eva Marie Saint

Chefão de sindicato manipula um ingênuo ex-boxeador para ser cúmplice na morte de um delator. O assassinato coloca os trabalhadores do local em estado de tensão permanente e leva o rapaz a sofrer com o remorso de ter ajudado a levar um grevista inocente à morte.
Oscar de Melhor Ator
BAFTA de Melhor Ator Estrangeiro
Globo de Ouro de Melhor Ator
Melhor Ator do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York

03
UMA RUA CHAMADA PECADO
(A Streetcar Named Desire, 1951)
de Elia Kazan
Com Vivien Leigh, Kim Hunter e Karl Malden

Mulher frágil e neurótica visita sua irmã grávida em Nova Orleans, em busca também de uma moradia. Sua chegada afetará a vida da irmã, do cunhado e sua própria vida.

04
ÚLTIMO TANGO EM PARIS
(Ultimo Tango a Parigi, 1972)
de Bernardo Bertolucci
Com Maria Schneider, Jean-Pierre Léaud
e Massimo Girotti

Enquanto procura por um apartamento, francesa encontra norte-americano cuja esposa se suicidou recentemente. Começam uma apaixonada e tórrida história de desejo e sexo, apesar de nem revelarem seus nomes um para o outro. Essa relação ameaça a vida de ambos.
Melhor Ator do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York
Melhor Ator da Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos EUA

05
APOCALIPSE NOW
(Idem, 1979)
de Francis Ford Coppola
Com Martin Sheen, Robert Duvall e Harrison Ford
Esgotado pela guerra do Vietnã, capitão é mandado de volta à selva para encontrar e matar coronel que teria enlouquecido e montado um exército próprio. À medida que entra na floresta, ele é tomado pelos seus encantos e pela insanidade da batalha que o cerca. Um a um, os membros de sua tripulação são mortos, enquanto o capitão lentamente se torna mais e mais parecido com o homem que deveria matar.

06
OS PECADOS DE TODOS NÓS
(Reflections in a Golden Eye, 1967)
de John Huston
Com Elizabeth Taylor, Brian Keith e Julie Harris

Major vê sua carreira em franca decadência após o término da 2ª Guerra Mundial. Seus problemas militares e seus desejos homossexuais ocultos terminam influenciando também seu casamento, que vive uma crise acompanhada atentamente por um casal de vizinhos e um estranho recruta que nutre uma paixão platônica por sua esposa.

07
VIVA ZAPATA!
(Idem, 1952)
de Elia Kazan
Com Jean Peters, Anthony Quinn e Mildred Dunnock

Um grupo de lavradores procura o presidente do México afirmando que suas terras foram roubadas. Entre eles está Zapata, que se torna guerrilheiro, passando a ter grande importância na vida política do país.
BAFTA de Melhor Ator Estrangeiro
Melhor Ator no Festival de Cannes

08
A FACE OCULTA
(One-Eyed Jacks, 1961)
de Marlon Brando
Com Karl Malden, Katy Jurado e Ben Johnson

Traído por companheiro, depois de terem assaltado um banco mexicano, jovem bandido acaba na prisão. Anos mais tarde, vai à procura do traidor, sedento de ódio e vingança.

09
DUELO DE GIGANTES
(The Missouri Beaks, 1976)
de Arthur Penn
Com Jack Nicholson e Randy Quaid

Rancheiro que se fez na vida sozinho, transformando uma vasta e seca terra em um império de prosperidade, é ameaçado por um impiedoso ladrão de cavalos. Tentando fazer justiça com seus próprios meios, contrata um sádico pistoleiro para caçar o fora-da-lei.

10
JÚLIO CÉSAR
(Julius Caesar, 1953)
de Joseph L. Mankiewicz
Com James Mason, John Gielgud, Edmond O’Brien,
Greer Garson e Deborah Kerr

General é assassinado, vítima de conspiração para tomar o poder do Império Romano.
BAFTA de Melhor Ator Estrangeiro

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dezembro 03, 2016

*********** MARLENE DIETRICH – A DIVA INSPIRAÇÃO


“Na vida real, a maioria dos atores de cinema é uma decepção. Eu, por outro lado, sou melhor na vida real do que no cinema.”
MARLENE DIETRICH


Ela é um ícone do século 20, uma das mais famosas representantes da Era de Ouro de Hollywood. Dona de uma voz singular e de um corpo escultural, ela lançava moda, era corajosa e ousada, sensual e misteriosa. Deixou meio mundo apaixonado ao interpretar a cantora de cabaré Lola-Lola no clássico “O Anjo Azul”, em 1930, lançando-se numa celebrada carreira internacional. Oitenta e seis anos passados, ainda existe um grande fascínio por MARLENE DIETRICH (1901 - 1992). O legado da sereia alemã permanece: é usada como referência nos dias de hoje por cantoras e atrizes. Não sei que idade eu tinha ao vê-la pela primeira vez. Atravessava a fase da inocência, viciado em longas dublados na tevê, após a meia-noite, horário dos clássicos naquele tempo. Tive a sorte de conhecê-la no thriller “Testemunha de Acusação”, de Billy Wilder. A Christine criada por Agatha Christie é a sua melhor atuação, embora a beleza indomável sem frescor denuncie a meia-idade.

Hipnotizado pelo magnetismo do espetacular animal cujas escamas brilham dia e noite, fixei-me nos grandes olhos gélidos, no sorriso astuto e sobrancelhas desenhadas. Passei a garimpar seus filmes, entre eles, os sete rodados pelo seu mentor e amante Josef von Sternberg. Em “O Anjo Azul”, de meias provocantes e liga, na famosa cena na qual canta “Estou Pronta para o Amor da Cabeça aos Pés”, exibindo suas longas pernas, é lembrada como uma das mais antológicas do cinema. Trabalhou em dezenas de filmes durante seis décadas, muitos deles dirigidos por reconhecidos mestres como Ernst Lubitsch, Rouben Mamoulian, Jacques Feyder, Raoul Walsh, Billy Wilder, René Clair, Alfred Hitchcock, Fritz Lang e Orson Welles.

Li autobiografias que pouco revelam, mentiras escritas como se fossem verdade; e biografias que tentam, honestamente, narrar sua trajetória espetacular. Mas o enigma da diva permanece intacto. De férias em Paris, visitei o majestoso prédio onde morava, na Avenida Montaigne. Tempos depois, caiu em minhas mãos o documentário Marlene (1984) dirigido pelo ator alemão Maximilian Schell, parceiro de elenco em “Julgamento em Nuremberg”. Na época, não engoli as declarações amargas de sua filha Maria, na BBC, denunciado amargamente uma MARLENE DIETRICH fria, calculista, temperamental e violenta. Mergulhando na experiência da beleza dilacerante, terminei por idealizá-la a tudo o que convém à promoção do encantamento. Armadilhas amorosas, perfídias, sensualidade, neurônios acesos, jogos sexuais, álcool e cigarro. A estrela símbolo da emancipação da mulher moderna. A vênus loira que fazia homens e mulheres de gato e sapato.

marlene, a filha maria e o marido rudolf
O começo da carreira foi duro. Inicialmente, dançando em cabarés e teatros baratos, exibia as suas belas pernas. Ela não escondia a bissexualidade, tornando-se uma “mulher falada”, além dos padrões morais daqueles tempos pudicos, embora os espaços noturnos gays existissem em abundância na capital da Alemanha. MARLENE atraia a atenção de mulheres e homens. Casou-se uma única vez, com o assistente de direção Rudolf Simmer, em 1923. 

Nascida em Berlim, criada numa rígida educação prussiana, estudou música e fez teatro com o celebrado Max Reinhardt. Participou de produções de pouca visibilidade e trabalhou como cantora, mas o sucesso só aconteceu com a direção de Josef von Sternberg, que a levou a Hollywood. A Paramount Pictures imediatamente resolveu transformá-la na mulher mais bela do mundo, disputando com a Metro-Goldwyn-Mayer e sua estrela maior, Greta Garbo, também importada da Europa. A atriz arrepiou plateias com frases dúbias tipo “Foi preciso mais de um homem para trocar o meu nome por Lily Shangai” (de “O Expresso de Shangai”), tornando-se uma estrela admirada em todo o mundo. Felina, a mais bela do cinema do seu tempo, exibia naturalmente um show misterioso de luz e sombra, androgenia e plenitude intelectual. 

Fumava com extraordinária sagacidade. Nem Bette Davis ganhava dela na pegada do cigarro entre nuvens de fumaça. Ela pode facilmente ser confundida como produto deslumbrante da imaginação coletiva ou vislumbre paranormal. Ao longo da carreira, moldou a imagem da deusa sedutora e andrógina, valendo-se de uma sexualidade agressiva e atitude dominante: suas personagens não conhecem limites quando se apaixonam. Pegando emprestado peças do guarda-roupa masculino, em diversas ocasiões vestiu terno e cartola. Também se sentia à vontade trajando maravilhosos vestidos. Sempre exigente com sua aparência, utilizava o figurino como uma arma para conquistar tanto o parceiro do filme como o espectador.

josef von sternberg e marlene
No período pós-guerra, insatisfeita com os papeis que recebia em Hollywood - salvo algumas exceções, como “A Mundana / Foreign Affair” (1948), de Billy Wilder, que se passa em uma Alemanha devastada pela Segunda Guerra -, decidiu se dedicar à carreira de cantora. 

Com sua voz rouca e sexy, trajando smokings e vestidos transparentes, etérea e radiante, cantou em palcos sofisticados de meio mundo, sempre com casa lotada, iniciando a série de espetáculos em Las Vegas, no Sahara Hotel. No Rio de Janeiro, em 1959, no Copacabana Palace, fez um grande sucesso e teve sensacional cobertura da mídia. Vestido colante, casaco de plumas de cisne e joias, conquistou o público com charme e senso de humor. Cantou em inglês, francês e alemão. Na segunda parte, apareceu com um traje masculino e bengala. Ainda no Brasil, gravou uma versão de “Luar do Sertão”, clássico de Luiz Gonzaga.

A figura erótica, porte aristocrático e magníficas pernas colocadas no seguro por um milhão de dólares, fizeram dela o protótipo da sedutora, aquela que tudo pode. Indicada ao Oscar por “Marrocos”, MARLENE DIETRICH era mais que uma atriz. Difícil não se encantar com seu rosto iluminado por pontos de luz, olhar duro repleto de promessas, impassível sarcasmo. Inventou-se como réptil único, de reações magnéticas e sensibilidade cintilante. Após “Marrocos”, seguiram-se outros sucessos como “O Expresso de Xangai” e “A Vênus Loura / Blonde Venus” (1932). Neste último, ela tem de trabalhar em um cabaré para pagar o tratamento médico do marido. Lá conhece um milionário (Cary Grant) e se apaixona por ele. Em muitos de seus filmes, utiliza sua bela voz em números musicais que transbordam volúpia, e nesse filme cantou “Hot Vodoo”, evocando o caráter místico de seus encantos.


Ao chegar a Hollywood em 1930, morena e um pouco gorda, o pigmalião Sternberg pintou os seus cabelos de um quase dourado, afinou o rosto arrancando os dentes traseiros, esculpiu o corpo através de dieta e massagista, arqueou as sobrancelhas além do normal, alongou e escureceu as pestanas superiores, deu aos olhos a ilusão de serem enormes pelo artifício da maquilagem - uma linha branca desenhada no interior das pálpebras e que ela estoicamente suportava sem lacrimejar. Nascia assim a estrela andrógina, a vamp que escandalizaria a opinião pública ao aparecer de smoking na estreia do épico “O Sinal da Cruz / The Sign of the Cross”, em 1932, protagonizado por sua amante Claudette Colbert. 

Bissexual, ela teria romances também com Greta Garbo, Edith Piaff e a roteirista Mercedes de Acosta. Namorou o ator francês Jean Gabin e os escritores Ernest Hemingway e Erich Maria Remarque. Ganhou notoriedade por manter inúmeras relações amorosas, tanto com homens como com mulheres. Deslumbrantemente feminina, tinha fama de devastar corações. Nas rodas dos poderosos de Hollywood era conhecida como “amante voraz”.

douglas fairbanks jr., marlene e fritz lang
Dizem que a diva podia derreter um homem com um levantar de sobrancelhas e destruir uma rival com o olhar. Enigmática, ela zelava por sua privacidade, contando mentiras e inventando histórias sobre si mesma. Josef von Sternberg e ela se uniram como um visionário e sua invenção bendita, o criador e a criatura. “Marlene sou eu”, disse o cineasta numa entrevista. MARLENE DIETRICH devorou o mentor, que nunca mais foi o mesmo depois dela. Ela se destacou desde o primeiro filme norte-americano, provocando reações confusas no público ao beijar a boca de uma mulher numa cena de “Marrocos”.

Em 1933, Hitler a convidou para estrelar filmes nazistas, oferecendo uma fortura. Ela recusou e, em 1937, tornou-se cidadã norte-americana. Descontente com o nazismo, durante a Segunda Guerra se dedicou a ajudar as tropas aliadas, visitando hospitais do front e entretendo soldados com shows especiais, onde cantava “Lili Marlene”. Condecorada com medalhas nos EUA e considerada uma traidora em seu país de origem. Ao retornar a Berlim, em 1960, foi vaiada, recebida com faixas tipo “Marlene, go home”. Só retornaria ao seu país natal depois de morta. Apesar do ressentimento, foi enterrada em Berlim.

marlene e jean gabin
Femme fatalle por definição, destas que dão um sentido à vida mesmo nos convertendo em objetos usados e jogados fora, não é à toa que seu verdadeiro nome é Maria Madalena. Ao vê-la como Concha Perez em “Mulher Satânica / The Devil Is a Woman, passei a acreditar que amava a si mesmo e não podia permitir rival neste amor intenso. MARLENE DIETRICH não levava o casamento a sério. Idosa, deixou-se esculpir por cirurgiões plásticos, silhueta mantida por apertados corpetes, bicos dos seios eroticamente recriados por pérolas colocadas no soutien. No ano de 1975, deixa os palcos. Seu último trabalho no cinema foi em “Apenas um Gigolô / Schoner Gigolo, Armer Gigolo”, de 1978, estrelado por David Bowie, onde fez a Baronesa von Semering.

Vaidosa, não se deixou ser filmada ou fotografada em idade avançada. Com o corpo em ruínas, em cadeira de rodas, refugiou-se até a morte no apartamento parisiense, evitando entrevistas e não permitindo que a vissem em decadência física. A imagem reclusa, daquela que foi uma das mulheres mais belas de sempre, era algo que a revoltava. Apenas a filha, netos e o médico tinham permissão de visitá-la. Tornou-se, nos anos finais de vida, alcoólatra e dependente de calmantes. Sua morte foi tardia, somente aos 90 anos, de falência renal. Alguns acreditam que ela sofria de Alzheimer. Dizem também que teria se suicidado, através de ingestão proposital e excessiva de tranquilizantes. Mas estes buxixos nunca foram confirmados.


O canto de MARLENE DIETRICH, numa vocalização quase falada, provoca estremecimento, mas ela não era cantora, talvez nem mesmo atriz, estava além de rótulos. Em Londres, numa exposição do figurino do filme “Kismet / Idem” (1944), da russa Barbara Karinska, compreendi que os belos vestidos e adereços expostos não tinham viço pela falta do recheio da atriz. A diaba dissimulada, ar afetado, olhar lascivo, sugestivo sorriso. Convite aos sonhos mais lúbricos. A diaba idolatrada por milhões morreu solitária, nos braços da empregada doméstica. Em 1999, o American Film Institute (AFI) a nomeou entre as dez maiores estrelas de todos os tempos.

Por que não mais existem belezas como ela? Belezas que nos iludia e nos faça sonhar. Talvez responda a Norma Desmond (Gloria Swanson) de “O Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard” (1950), sob a luz do projetor, revendo-se numa película muda do seu apogeu de estrela: “Continua a ser maravilhoso, não continua? E sem diálogos. Não precisávamos de diálogos. Tínhamos rostos. Já não há rostos como aquele”.

Fontes
“A Beleza – Der Blaue Engel”, de Manuel Dias Coelho; “A Bela e a Fera”, de Fabio Cypriano; “Desejo-lhe Amor – Conversas com Marlene Dietrich”, de Erik Hanut, e “Marlene de A a Z”.


10 VEZES MARLENE
(filmes por ordem de preferência)

01
Tana em
A MARCA DA MALDADE
(Touch of Evil, 1958)
de Orson Welles

02
Christine em
TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO
(Witness for the Prosecution, 1957)
de Billy Wilder

03
Sra. Bertholt em
JULGAMENTO EM NUREMBERG
(Judgment at Nuremberg, 1961)
de Stanley Kramer

04
Lola Lola em
O ANJO AZUL
(Der Blaue Engel, 1930)
de Josef von Sternberg

05
Shanghai Lily em
O EXPRESSO DE SHANGHAI
(Shanghai Express, 1932)
de Josef von Sternberg

06
Princesa Sophia Frederica / Catherine II em
A IMPERATRIZ GALANTE
(The Scarlet Empress, 1934)
de Josef von Sternberg

07
Maria 'Angel' Barker / Sra. Brown em
ANJO
(Angel, 1937)
de Ernst Lubitsch

08
Madeleine de Beaupre em
DESEJO
(Desire, 1936)
de Frank Borzage

09
Domini Enfilden em
O JARDIM DE ALAH
(The Garden of Allah, 1936)
de Richard Boleslawski

10
Mademoiselle Amy Jolly em
MARROCOS
(Morocco, 1930)
de Josef von Sternberg

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