março 25, 2016

********************* O RETORNO DE GRETA GARBO


Fontes:
site garboforever.com 
e “Garbo” de Barry Paris

Desde sua última atuação na comédia sofisticada “Duas Vezes Meu / Two-Faced Woman” (1941), de George Cukor, GRETA GARBO (1905-1990) nunca mais apareceria nas telas de cinema, mesmo sendo diversas vezes convidada para um possível retorno, inclusive pelo cineasta italiano Luchino Visconti, em 1971, numa participação especial como a Rainha de Nápoles na adaptação do clássico “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, que não foi realizada. De todas as ofertas que a diva sueca recebeu e rejeitou, apenas uma esteve muito próxima de se transformar em realidade: em 1948, aos 43 anos, ela assinou um contrato para estrelar um drama de época produzido por Walter Wanger, após decidirem que o romance de Honoré de Balzac, “A Duquesa de Langeais”, seria o veículo perfeito para a sua volta ao cinema. Na trama, um general apaixonado por uma nobre sedutora, casada por conveniência, não é levado a sério por ela durante longos meses. Quando ele enfim descobre que está sendo enganado, passa a desprezá-la, e ela, que começa a amá-lo, decide desaparecer, refugiando-se num mosteiro espanhol.

Famoso produtor norte-americano, casado com a atriz Joan Bennett, Walter Wanger havia trabalhado com GRETA GARBO no passado (produziu “Rainha Christina / Queen Christina” para a Metro-Goldwyn-Mayer, em 1933, um dos melhores filmes da lendária atriz), e ambicionava que o primeiro projeto de sua nova produtora, a Walter Wanger International Productions, em sociedade com Eugene Frenke, fosse um grande sucesso de público e de crítica, e nada melhor do que uma sofisticada produção que marcasse o retorno da super-estrela. A atriz confiou nele, ficando realmente empolgada. Mas a história de Balzac não foi a primeira sugestão do filme que garantiria sua volta. Salka Viertel, roteirista e amiga íntima de Garbo, insistiu na vida da escritora George Sand (interpretada poucos anos antes, em 1945, por Merle Oberon em “À Noite Sonhamos / A Song to Remember”). 

garbo em rainha christina
Na França, o produtor conseguiu financiamento para o filme sobre a atrevida George Sand. Escolheram para a direção Georg Wilhelm Pabst, magnífico cineasta austríaco que havia dirigido GRETA GARBO em seu começo de carreira, na Alemanha, ainda no período silencioso, em “Rua das Lágrimas / Die Freudlose Gasse” (1925). Pabst não se interessou pela proposta. Ele preferia uma adaptação de “Ulisses”, onde a atriz viveria um papel-duplo, como Circe e Penélope (como aconteceu em 1954, com Silvana Mangano). Frenke, sócio de Wanger, ao ficar sabendo que Pabst tinha má fama na Europa, devido a ligações nazistas na II Guerra Guerra Mundial, não aceitou a proposta. Seu nome afastaria os investidores.

O roteiro de “George Sand”, escrito por Salka Viertel, não agradou. O produtor reconheceu que seria um erro prosseguir com ele e o descartou definitivamente. Ele havia comprado os direitos de filmagem do clássico de Balzac, “A Duquesa de Langeais”, e propôs a GRETA GARBO interpretar a personagem título. O romance já havia sido transformado em filme várias vezes: em 1910, “Madame de Langeais”, dirigido pelo francês André Calmettes, com Germaine Dermoz; em Hollywood, “The Eternal Flame” (1922), de Frank Lloyd e estrelado por Norma Talmadge; em 1927, na Alemanha, “Amores de Duquesa / Liebe”, de Paul Czinner, com Elisabeth Bergner; e em 1942, na França, dirigido por Jacques de Baroncelli, com Edwige Feuillère. A possibilidade de viver a heroína infiel interessou a estrela por conta da junção de paixão, vingança e redenção. Além disso, ela admirava a atriz Edwige Feuillère. Wanger arranjou uma apresentação privada do filme interpretado por Feuillère, em Paris, para Garbo se familiarizar com a personagem trágica.

edwige feuillère e pierre-richard willm
em a duquesa de langeais
A produção finalmente iria começar. Wanger decidiu rodar na Itália por considerar mais fácil conseguir novos investidores e poder usar as instalações dos estúdios da Cinecittá a um custo muito inferior do que se filmasse na França ou em qualquer outro país. A pós-produção e montagem seriam feitas na Inglaterra, com algumas cenas rodadas nos arredores de Paris. O custo com essas cenas adicionais seria pago com o dinheiro dos milionários Rothschild, amigos de Garbo. A atriz chegou a Roma em abril de 1949 com o amigo e agente George Schlee. Tinha a missão de se encontrar com magnatas e usar o seu charme para convencê-los a investir em seu filme. Uma estratégia que ela nunca precisou utilizar antes. No primeiro encontro no hotel, nenhum investidor ficou satisfeito com o fato de GRETA GARBO aparecer com um grande chapéu que escondia seu rosto. Acharam que ela estava ocultando sinais de velhice, e decidiram não assinar os cheques até que vissem um teste de tela.

Quem poderia imaginar Garbo em um teste? Era um insulto. Garbo ainda era Garbo, mas não havia outra saída. Pelo menos três testes foram realizados. O primeiro em 5 de Maio de 1949, nos estúdios da Universal, por Joseph A. Valentine, que havia feito um trabalho maravilhoso fotografando Joan Crawford em “Fogueira de Paixões / Possessed” (1947) e Ingrid Bergman em “Joana D’Arc / Joan of Arc” (1948). Valentine filmou cerca de 23 minutos em preto-e-branco. GRETA GARBO revelou que estava apavorada, mas os resultados foram impressionantes. Valentine, então com 48 anos, foi contratado como diretor de fotografia, mas ficou gravemente doente e morreu.

teste de garbo fotografado por james wong howe
Dois dos melhores cinegrafistas da época, William H. Daniels e James Wong Howe, realizaram novos testes. Em 25 de maio, GRETA GARBO chegou aos estúdios da United Artists para seu teste com Howe. Ela usava um chapéu de palha, calças e uma blusa branca, e distribuía sorrisos. Foi para o camarim e 45 minutos depois apareceu maquiada e com o cabelo preso, vestindo uma jaqueta xadrez e um lenço preto. Enquanto Howe analisava como iria montar as luzes e compor a fotografia, ela perguntou se poderia fumar. Ele consentiu, e a atriz colocou um cigarro em sua piteira. Howe ligou a câmera e o rosto dela ganhou vida. Cerca de uma hora depois, o trabalho estava concluído. A seguir, a estrela se encontrou com William H. Daniels na Universal, onde o fotógrafo trabalhava, fazendo seu terceiro teste. Sentia-se um pouco tímida e temerosa, mas feliz por reencontrar seu antigo cameraman. Daniels trabalhou com Garbo na maioria de seus filmes na M-G-M, sendo o primeiro “Laranjais em Flor / Torrent” (1926) e o último “Ninotcka / Idem” (1939).

No dia seguinte, os laboratórios da Pathé em Hollywood revelaram os resultados. Analisando as diferenças de estilo, o de Howe foi considerado mais interessante e ele foi contratado. Garbo viu os testes e ficou feliz com os resultados. A estrela ainda não tinha perdido o brilho. Os testes ficaram perdidos por quase 40 anos. Em 1989, fragmentos foram encontrados e divulgados para o público após a morte de GRETA GARBO, em 1990. O de Joseph A. Valentine dura cerca de 20 minutos, e os de Howe e Daniels juntos somam 13 minutos. Investidores convencidos, tudo parecia estar dando certo. Os cenários ficaram prontos. As filmagens foram marcadas para início de setembro de 1949, em Roma, e o lançamento do filme foi planejado para 1950, coincidindo com o centenário da morte de Balzac. A produção orçada em 225 mil dólares, acabou disparando para meio milhão de dólares. O salário de Garbo, 100 mil dólares. Se o filme arrecadasse mais de dois milhões de dólares, ela receberia um adicional de 50 mil mais 15% sobre o lucro.

garbo e james mason
O produtor negociou com estúdios norte-americanos para lançar o filme nos Estados Unidos, entre eles a Columbia Pictures e a RKO Radio Pictures, que obteve os direitos de distribuição. O inglês J. Arthur Rank deu o apoio financeiro para escalar atores ingleses e realizar a pós-produção na Inglaterra. Vários astros foram considerados para interpretar o Duque de Langeais, entre eles Errol Flynn, Louis Jourdan, Laurence Olivier, Robert Cummings e Montgomery Clift. GRETA GARBO sugeriu James Mason após tê-lo visto ao lado de Joan Bennett em um suspense noir produzido por Wanger, “Na Teia do Destino / The Reckless Moment”, mas queria conhecê-lo pessoalmente. O produtor arranjou um encontro na casa do ator em Berverly Hills. Ela passou uma tarde agradável na companhia dele e esposa, brincando no jardim com os filhos do casal. Anos mais tarde, Mason lembrou o quanto a estrela estava surpreendente, espontânea, divertida e sorridente. Ele disse que o roteiro não era interessante, mas que seria magnífico atuar ao lado dela. Acabaram se tornando amigos, com a atriz visitando o casal algumas vezes depois disso, mas nunca conversavam sobre o trabalho que quase fizeram juntos. O salário do ator seria de 75 mil dólares.

Escolhido para dirigir o filme, Max Ophuls pensou em vários atores britânicos para atuar como Armand de Montriveau, o amado da Duquesa Antoinette de Langeais, entre eles Jack Hawkins. Também sugeriu profissionais para compor a equipe: os cenógrafos Jean D’Eaubonne e Leon Barsacq, o técnico de som Joseph de Bretagne, o gerente de produção Ralph Baum e o editor Michael Luciano. Sally Benson foi contratada para escrever o roteiro a partir do original de Frances Marion, de 1922. O filme ganhou os títulos de “The Duchess Of Langeais” na Inglaterra e “Lover and Friend” nos EUA. Benson tinha escrito os roteiros de “Agora Seremos Felizes / Meet Me in St. Louis” (1944), estrelado por Judy Garland, e “A Sombra de uma Dúvida / Shadow of a Doubt” (1943), de Alfred Hitchcock, mas o primeiro esboço não agradou a Walter Wanger. Ele tinha problemas com bebida e era negligente no trabalho, e apesar das revisões que fez no roteiro, o produtor pediu a Ophuls que o terminasse. Havia duas cenas que se passavam em um café do século 19, mostrando uma cantora desiludida do mundo, que seria vivida pela mítica Edith Piaf.

james wong howe
A primeira escolha para o filme foi George Cukor, mas pouco antes ele havia fechado contrato com a M-G-M para dirigir Katharine Hepburn e Spencer Tracy em “A Costela de Adão / Adam’s Rib”. Outros diretores foram pensados: Robert Siodmak, Mervyn Leroy, Henry Koster, William Dieterle, Curtis Bernhardt, Irving Rapper e Vittorio De Sica. Ao assistir ao sucesso da Broadway dirigido por Joshua Logan, “South Pacific”, Garbo achou que ele seria perfeito para dirigir o filme. Logan, porém, não aceitou os termos do contrato e a escolha acabou ficando com o franco-alemão Max Ophuls. Parecia que nada poderia dar errado. Mas deu. O planejamento financeiro começou a ruir quando o orçamento fugiu ao controle. A presença de estrela se tornou imediatamente necessária na Itália para conseguir os recursos adicionais para a produção começar. Assim que chegou a Roma, GRETA GARBO foi cercada pelos paparazzi. Ela teve uma reunião com os produtores da Scalera Films Productions, Giuseppe Amato e Angelo Rizzoli, e outros. Percebendo que eles queriam que ela sorrisse e seduzisse italianos ricos para convencê-los a colocar suas fortunas na conta da produtora, disse que não faria isso. As coisas rapidamente foram de mal a pior: Amato ficou chocado porque a atriz achou que ele tinha arranjado os fotógrafos e informado a imprensa de sua presença na reunião.

Com os custos de produção nas nuvens e o início das filmagens adiado, a situação ficou tensa quando os jornais disseram que Rizzoli estava deixando o projeto por conta das exigências impossíveis da estrela. Wanger e Frenke tentaram se livrar dos italianos, mas tinham ido longe demais. Eles sabiam que tudo era mentira, e que embora a atriz tivesse estabelecido certas cláusulas, ela nunca cogitou em pedir aumento de salário ou abandonar o projeto com a saída dos investidores. Quando Max Ophuls e James Wong Howe chegaram a Roma, tudo estava mergulhado no caos. Por sua vez, James Mason se recusou a viajar para a Itália até que os termos sobre seu salário e início das filmagens estivessem definidos. Os produtores cogitaram contratar Errol Flynn ou Louis Jourdan em seu lugar, e enviaram um telegrama para o agente de GRETA GARBO nos EUA informando sobre a mudança de protagonista. Walter Wanger estava descontente com a lentidão e os custos da produção, e principalmente com a presença de Schlee e as tentativas dele de interferir no processo criativo. Para Wanger, ele era uma barreira para o seu contato direto com Garbo. Por sua vez, Schlee afirmou que a estrela não aceitaria nem Flynn nem Jourdan atuando ao lado dela.

max ophuls
Para piorar, um duro golpe foi a falta de instalações disponíveis para as filmagens. A M-G-M havia reservado todos os estúdios da Cinecittá para o épico “Quo Vadis / Idem”. Sally Benson deu prosseguimento às más notícias quando decidiu processar a Wanger International por quebra de contrato. As mudanças feitas por Max Ophuls no roteiro original levantaram a ira dos moralistas de plantão. O chefe do Código Hays de Produção, Joseph Breen, informou aos produtores que o roteiro, celebrando o adultério, era inaceitável para os padrões da época. Wanger decidiu liberar Ophuls para que realizasse na França aquele que seria um de seus melhores trabalhos, “Conflitos de Amor / La Ronde” (1950). Finalmente, os italianos abandonaram o projeto e GRETA GARBO perdeu a fé no filme. Sem dinheiro, Wanger precisou recomeçar, buscando apoio em Hollywood. Howard Hughes demonstrou interesse e chegou a ser dito que ele iria investir o meio milhão necessário para salvar a produção, mas como o próprio Hughes estava enfrentando problemas financeiros, ele só poderia financiar parte do filme.


Em janeiro de 1950, Walter Wanger convocou uma reunião com a imprensa. Anunciou oficialmente o adiamento do filme, dizendo que não culpava a estrela pelo atraso e desmentiu os comentários de que ela estava velha demais. Pelo contrário, estava mais linda do que nunca. Por sua vez, GRETA GARBO confidenciou ao amigo Cecil Beaton o tempo enorme que perdeu, afirmando que essas “pessoas de filmes” são muito difíceis de lidar e que elas mentem o tempo todo, e que ainda tinha esperanças de trabalhar no filme, mas que não era nada agradável atuar para pessoas que não se gosta. Wanger não desistiu. Ele tentou novos financiamentos, inclusive propondo que Garbo atuasse sem salário e investisse seu próprio dinheiro, ficando com a maior parte dos lucros. Ela não se interessou. Ele tentou uma última vez convencer a atriz e escreveu uma carta para ela em fevereiro de 1950. Mas era o fim. Ela pediu a liberação de seu contrato. Queria muito ter feito o filme e ele esteve realmente muito perto de acontecer.

walter wanger
Muitos rumores circularam na época e acusações surgiram de todos os lados. Mas o motivo principal porque “A Duquesa de Langeais” não se realizou foi a desistência dos investidores italianos, além das diferenças entre Walter Wanger e George Schlee, que nunca se entenderam. Por conta disso, não aconteceu o esperado retorno de GRETA GARBO ao cinema. Nunca foi estabelecido o grau de relacionamento entre Garbo e Schlee, que era casado com Valentina, figurinista da atriz. Schlee tinha uma bem protegida casa na Riviera, conhecida como “Garbo’s house”. Quando ele morreu em 1964, ela ficou profundamente abatida. Importava-se muito com ele e sentiu a sua falta até o fim da vida. Walter Wanger, que começou a carreira no final dos anos 1920, ainda era um produtor de sucesso, quando em 1951, levado pelo ciúme disparou um tiro contra o agente de sua esposa Joan Bennett, Jennings Lang, acusando-os de terem um caso. 

Entre os filmes mais importantes que Wanger produziu, posteriormente ao projeto fracassado com GRETA GARBO, estão “Vampiros de Almas / Invasion of the Body Snatchers” (1956), clássico de ficção-científica de Don Siegel; “Quero Viver! / I Want to Live!” (1958), dirigido por Robert Wise e que deu o Oscar de Melhor Atriz à Susan Hayward, e a mal fadada produção “Cleópatra / Idem” (1963), estrelada por Elizabeth Taylor, Rex Harrison e Richard Burton. Depois de se separar de Joan Bennett em 1965, ele morreu em 1968, aos 74 anos. A obra de Honoré de Balzac teria mais três versões: “La Duchesse de Langeais” (1982), telefilme francês de Jean-Paul Roux; “La Duchesse de Langeais” (1995), telefilme francês de Jean-Daniel Verhaeghe, com participação especial de Edwige Feuillère como  a princesa Beaumont-Chauvry; e “Ne Touchez pas la Hache” (2007), filme francês de Jacques Rivette.


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março 06, 2016

************** NORMA SHEARER, RAINHA DA MGM


Uma das raras atrizes do cinema mudo a continuar estrela também no sonoro. A Metro-Goldwyn-Mayer a promovia como “A Primeira Dama das Telas” ou “Rainha da M-G-M”no período áureo do estúdio que tinha como slogan “mais estrelas do que as que existem no céu”. Beleza de olhos azulados, esbanja charme no papel-título da extravagante superprodução “Maria Antonieta / Marie Antoinette” (1938). Foi o primeiro filme dela que vi e nunca mais a perdi de vista. Era uma das atrizes mais populares no firmamento da Hollywood dos anos trinta. Diziam, na época: na M-G-M Greta Garbo faz a arte, NORMA SHEARER (1902 - 1983) ganha as produções mais caprichadas, Joan Crawford e Jean Harlow fazem o dinheiro para pagar o prestígio das duas primeiras.

De origem escocesa, nascida em Montreal, Canadá, teve uma infância difícil. Viveu num humilde subúrbio depois da falência dos negócios paternos. Em 1920, mudou com a mãe e a irmã para Nova Iorque à procura de trabalho, conseguindo emprego como vendedora de pautas musicais num pequeno teatro da Oitava Avenida. Sonhando em subir na vida, figurou em diversos filmes, entre eles, “Horizonte Sombrio / Way Down East” (1020), de D. W. Griffith, aparecendo na dramática sequência em que, numa noite de tempestade, Lillian Gish é expulsa pelos puritanos. Durante as filmagens conheceu o todo-poderoso diretor e ele garantiu que ela nunca iria se tornar uma estrela.

o casamento com o poderoso thalberg
Com a ajuda do produtor Hal Roach, partiu para Hollywood em 1924. Um dia após sua chegada, encontrou casualmente Irving G. Thalberg, jovem produtor da M-G-M (então Companhia Mayer), conhecido como The Boy Wonder (O Menino Prodígio). Ela o confundiu com um office-boy, até vê-lo se sentar atrás de uma grande mesa e colocar os pés em cima do móvel. Ficaram encantados um pelo outro. Irving pelo carisma dela, ela pelo enorme poder dele. Imediatamente foi convidada para assinar contrato com Louis B. Mayer. O sucesso não foi instantâneo, cresceu a cada filme. Em 1927, com o êxito de “O Príncipe Estudante / The Student Prince in Old Heidelberg”, consagrou-se como estrela.

Ao se casar com o modesto e seguro de si Thalberg, também em 1927, passou a escolher papéis e diretores. Muitos acreditavam que era uma oportunista, mas NORMA SHEARER trabalhou duro para provar seu talento. Conseguiu elogios em 1929, ao estrelar o primeiro filme falado do estúdio, “O Julgamento de Mary Dugan / The Trial of Mary Dugan”. O sotaque de classe alta canadense foi muito bem recebido. Aproveitou para deixar de lado personagens de ingênua, que fazia até então, criando uma imagem moderna, elegante e liberada.

oscar de melhor atriz 1930
Em 1930, ganhou o Oscar de Melhor Atriz pelo desempenho em “A Divorciada / The Divorcee”, derrotando Greta Garbo e Gloria Swanson. A primeira de uma série de esposas obstinadas que iria interpretar ao longo da carreira. Neste, uma espécie de drama precursor do feminismo, ela procura se igualar à liberdade sexual do marido ao descobrir que ele a está enganando. Concorreu novamente ao Oscar ainda em 1930 por “Ébrios de Amor / Their Own Desire” e também em 1931 (“Uma Alma Livre / A Free Soul”), 1934 (“A Família Barrett / The Barretts of Wimpole Street”), 1936 (“Romeu e Julieta / Romeo and Juliet”) e 1938 (“Maria Antonieta”). Com o último levou a Taça Volpi de Melhor Atriz no Festival de Veneza.

Teve dois filhos com o franzino e de coração fraco Thalberg, vivendo com ele até sua morte precoce, em 1936, aos 37 anos, vitimado pela pneumonia. Na cripta foi gravado pela viúva: Meu querido, para sempre. Sua morte abalou a indústria cinematográfica. Com ele, encerrava-se uma era e Hollywood perdia mais que um gênio, perdia quem primeiro entendera o tênue equilíbrio entre arte e comércio, quem estabelecera a equação completa do cinema, quem desenvolveu um estilo administrativo eficiente e flexível, disciplinado sem ser desumano, extravagante mas não esbanjador. Thalberg moldara o estúdio e embora a M-G-M continuasse com invejável sucesso por mais duas décadas, nunca mais seria a mesma. F. Scott Fitzgerald o tomou como modelo para o protagonista de O Último Magnata / The Last Tycoon, seu romance inacabado, publicado postumamente.  

Inconformada com a morte de Thalberg, NORMA SHEARER tentou se aposentar, mas o contrato de trabalho não permitiu. Dois anos mais adiante, em 1938, envolveu-se num tórrido romance com o ator Mickey Rooney, um ídolo juvenil então com 18 anos. Louis B. Mayer conseguiu evitar o escândalo, e a história somente foi revelada na autobiografia de Mickey. David O. Selznick lhe ofereceu o papel de Scarlett O`Hara em “...E o Vento Levou / Gone with the Wind, e ela recusou para a glória de Vivien Leigh. “Não gosto de Scarlett. Muito melhor seria interpretar Rhett Butler”, disse para ele.


com o figurino de “romeu e Julieta”
Também não aceitou ser a protagonista do premiado drama “Rosa da Esperança / Mrs. Miniver” (1942), Oscar de Melhor Atriz para Greer Garson. Aos 40 anos, sentindo-se velha para papéis românticos e com o fracasso do seu último filme, a comédia “Idílio a Muque / Her Cardboard Lover” 1942), aposentou-se. Havia contracenado com grandes astros (John Gilbert, Lionel Barrymore, Lon Chaney, Robert Montgomery, Clark Gable, Fredric March, Basil Rathbone, Leslie Howard, John Barrymore, Tyrone Power, Robert Taylor, Melvyn Douglas, George Sanders) e dirigida por cineastas célebres como Victor Sjostrom, Ernst Lubitsch, George Cukor, John M. Stahl, Clarence Brown, Edmund Goulding e Sidney Franklin. 

Deixando de atuar, rica, ela continuou vivendo em Hollywood, onde descobriu e lançou a atriz Janet Leigh. Ao conhecer Martin Arrouge, um instrutor de esqui, 20 anos mais novo que ela, casou-se com ele em 1942. Formavam um par perfeito: ela queria continuar vivendo na intimidade como estrela e ele queria alguém para adorar. Permaneceram casados até a morte dela, em 1983, com ele enfrentando terríveis momentos. A família da atriz tinha um histórico de doença mental. Sua irmã Athole (casada com o cineasta Howard Hawks) passou a vida entrando e saindo de hospitais psiquiátricos, seus pais e o irmão Douglas tinham manias esquisitas.  O mesmo aconteceu com a atriz.

Com dois filhos, NORMA SHEARER não aceitava ser mãe, alegando não ter instinto maternal. Depressiva e alcoólatra, ela se tornou obcecada pela aparência e em idade avançada teve graves problemas de saúde, sucumbindo à deficiência visual e a demência, muitas vezes confundindo seu segundo marido, Martin, com Irving G. Thalberg. Faleceu aos 80 anos, depois de sofrer três derrames. O auge da sua carreira aconteceu entre 1930 e 1936, embora seja mais recordada por dois filmes posteriores, “Maria Antonieta” e “As Mulheres / The Women” (1939).

(Fonte: “Norma: The Story of Norma Shearer”, de Lawrence J. Quirk, e “The Filmes of Norma Shearer”, de Jack Jacobs e Myron Braum)


10 FILMES DE NORMA SHEARER
(por ordem de preferência)

(01)
AS MULHERES
de George Cukor
com Joan Crawford, Rosalind Russell 
e Joan Fontaine

(02)
ROMEU E JULIETA
de Geoge Cukor
com Leslie Howard, John Barrymore 
e Basil Rathbone

(03)
MARIA ANTONIETA
de W.S. Van Dyke
com Tyrone Power, John Barrymore 
e Anita Louise

(04)
UMA ALMA LIVRE
de Clarence Brown
com Leslie Howard, Lionel Barrymore 
e Clark Gable

(05)
O PRÍNCIPE ESTUDANTE
de Ernst Lubitsch
com Ramon Novarro e Jean Hersholt

(06)
ESTE MUNDO LOUCO
(Idiot's Delight, 1939)
de Clarence Brown
com Clark Gable, Charles Coburn 
e Burgess Meredith

(07)
IRONIA DA SORTE
(He Who Gets Slapped, 1924)
de Victor Sjöström
com Lon Chaney e John Gilbert

(08)
VIDAS PARTICULARES
(Private Lives, 1931)
de Sidney Franklin
com Robert Montgmery

(09)
A DIVORCIADA
de Robert Z. Leonard
com Robert Montgomery, Chester Morris 
e Conrad Nagel

(10)
A FAMÍLIA BARRETT
de Sidney Franklin
com Fredric March e Charles Laughton

GALERIA DE FOTOS