outubro 30, 2014

***************** 17 PROFESSORES, COM CARINHO

sandy denis em "subindo por onde se desce"
Faz tempo que planejo escrever esse post. Tenho inúmeros e queridos amigos professores, além de apreciar esse profissional valoroso como protagonista de filmes. Nesse especial, vamos dialogar com 17 filmes sobre professores que fizeram de tudo para educar os seus alunos, mesmo diante de enfrentamentos do sistema e razões pessoais diversas. Alguns, a história é outra, mas não deixam de ser marcantes. 

Numa seleção sempre fica um ou outro de fora. Não significa que outras opções não sejam importantes. O painel de filmes sobre este profissional é extenso e torna-se complexo abordá-lo nesse pequeno espaço. Como habitualmente, minhas listas são pessoais e raramente ultrapassam a década de 1970. Destacam, principalmente, os clássicos. Nessa lista, 17 títulos interessantes, alguns inesquecíveis, nos quais esse profissional fundamental na vida de todos é o eixo da história. 

Eu tive vários professores brilhantes. E você, teve um (a)? Conto com os seus comentários após a leitura. Vote nos seus preferidos e conte pra gente se faltou algum.

ROBERT DONAT: Mr. Chips
em ADEUS MR, CHIPS
(Goodbye Mr. Chips, 1939), de Sam Wood.



Na década de 1920, Arthur "Chips" Chipping é o dedicado e severo professor de latim de uma tradicional escola inglesa. Ele se casa com uma jovem atriz de musicais, Katherine Bridges (a inglesa Greer Garson, no papel que a levaria ao estrelato, lançada em Hollywood como a “Nova Garbo”), que deixa o palco para ser sua esposa e acaba conquistando os alunos com sua alegria e espontaneidade. Ela também transforma o marido, que vai deixando de ser tão intransigente e passa a ser admirado por todos. Esta é a primeira das quatro vezes em que o livro de James Hilton foi adaptado às telas. As posteriores, também com o mesmo título, foram produzidas em 1969, 1984 e 2002, sendo que as duas últimas foram feitas para a TV. O inglês Donat levou o Oscar de Melhor Ator.

MARTHA SCOTT: Ella Bishop
em DONA DE SEU DESTINO
(Cheers for Miss Bishop, 1941), de Tay Garnett



Dedicada professora sofre quando seu amado noivo foge com sua prima (Mary Anderson). Mas a rival morre no parto e sua filha é deixada para ser cuidada pela professora. Excelente atuação de Martha Scott, uma atriz das melhores que nunca chegou ao estrelato.

BETTE DAVIS: Miss Lilly Moffat
em O CORACAO NAO ENVELHECE
(The Corn is Green, 1945), de Irving Rapper



A professora Lily Moffat se revolta com as condições nas quais um povoado do país de Gales é governado e decide montar uma escola para os habitantes. No entanto, as autoridades governamentais se opõem ao projeto e a impedem de encontrar um local propício para a instituição. Outra soberba atuação de Davis, sem qualquer glamour. Katharine Hepburn faria o remake dos anos 1970.

MICHAEL REDGRAVE: Andrew Crocker-Harris
em NUNCA TE AMEI
(The Browning Version, 1951), de Anthony Asquith



Após lecionar 18 anos em uma escola preparatória na Inglaterra, Andrew Crocker-Harris, um enérgico e pouco amigável professor de latim e grego, é forçado a se aposentar. O pretexto é que sua saúde não está boa. Além disso, Andrew é visto pelos alunos como "Hitler" e seu casamento está no fim, pois Millie (Jean Kent), sua esposa , lhe é infiel com Frank Hunter (Nigel Patrick), outro professor. Texto afinado de Terence Rattingan e expressiva atuação de Michael Redgrave, pai de Vanessa e Lynn, levando o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes

ROSALIND RUSSELL: Miss Rosemary Sydney
em FÉRIAS DE AMOR
(Picnic, 1955), de Joshua Logan



Hal Carter (William Holden, no auge da sedução) é um viajante errante, que chega em uma pequena cidade do Kansas para visitar e tentar conseguir emprego com um rico colega de faculdade, Alan (Cliff Robertson). Porém ele conhece e se apaixona por Madge Owens (Kim Novak), a linda namorada de Alan. Quando a mãe da jovem sente que esta paixão é correspondida entra em desespero. Hal, com seu jeito aventureiro, exerce um fascínio sobre as mulheres locais, inclusive a professora solteirona Rosemary (sensacional Rosalind Russell), que está interessada em um comerciante local. Na famosa cena da dança, ela se sente atraída pelo estranho e provoca um escândalo. Baseado na peça teatral homônima de William Inge, vencedor do Prêmio Pulitzer.

SIMONE SIGNORET: Nicole Horner
em AS DIABÓLICAS
(Les Diaboliques, 1955), de Henri-Georges Clouzot



Michel Delassalle (Paul Meurisse) é o sádico diretor da escola de Christina (a brasileira Vera Clouzot), sua esposa. Ele tem um caso com Nicole, uma professora que tem sido sua amante há muito tempo. Entretanto, ele a trata tão mal quanto sua própria esposa, assim, as duas resolvem se unir contra ele e, juntas, elaboram um plano para eliminar seu tormento. Adaptação do romance policial de Pierre Boileau e Thomas Narcejac. A dupla é responsável também pelo livro que originou "Um Corpo que Cai / Vertigo" (1958). Hitchcock tentou comprar os direitos, mas Clouzot foi mais rápido. Um clássico genial, Prix Louis Delluc de Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York.

JENNIFER JONES: Miss Dove
em O OCASO DE UMA ALMA
(Good Morning, Miss Dove, 1955), de Henry Koster



Internada em um hospital, uma rígida professora reflete sobre sua trajetória profissional e seus alunos. Solitária, só conta com a visita dos ex-alunos.

GLENN FORD: Richard Dadier
em SEMENTES DA VIOLENCIA
(Blackboard Jungle, 1955), de Richard Brooks



Na ousada trama para a década de 1950, Richard Dadier (Glenn Ford em um desempenho inesquecível, digno de Oscar) é um veterano de guerra expulso do exército e recém contratado pela escola North Manual, no subúrbio de Nova York, para ensinar inglês. Idealista, encara bravamente as gangues que dominam a instituição e ameaçam as mulheres que lá trabalham – a tentativa de estupro de uma delas na biblioteca é chocante. Ele pensa em desistir várias vezes, mas segue em frente, mesmo com o desinteresse dos colegas, que chamam os estudantes de animais. Um dos maiores problemas do mestre é lidar com o jovem irlandês Artie West (Vic Morrow), líder dos rebeldes envolvido com bebedeiras e roubo de automóveis. Dadier prova que, mesmo pagando um alto preço, a responsabilidade de educar fala mais alto, até mesmo quando sua esposa grávida é aterrorizada por West. Quem rouba a cena é Sidney Poitier, que faz um líder rebelde que acaba por se redimir – no filme, ele tem convincentes 17 anos, na vida real, 28. No Brasil, o filme provocou uma reação curiosa: quebradeiras em salas de cinema de todo o país, por adolescentes impressionados com o grau de rebeldia e agressividade dos personagens e por causa da música, o rock.

DORIS DAY: Erica Stone
em UM AMOR DE PROFESSORA
(Teacher's Pet, 1958), de George Seaton



Em Nova York, James Gannon (impecável Clark Gable), editor do jornal Evening Chronicle, nunca cursou o 2º grau e acredita que a única forma de aprendizado é a escola da vida. Assim manda uma carta ríspida ao "professor" Stone, quando este o convida para dar uma palestra na faculdade. Porém, seu chefe lhe explica que se trata de uma professora e o obriga a pedir desculpas, pois ele é membro do conselho da faculdade. Assim, Gannon tenta consertar a situação, mas antes que possa fazer qualquer coisa vê a carta que ele tinha enviado ser lida pela professora Erica Stone, que o ridiculariza. Ele se sente atraído e se torna um aluno dela, sem revelar sua identidade. Partindo de um bom roteiro, Seaton realiza uma ótima comédia romantica, no que é ajudado por um elenco de primeira linha. Apesar da diferença de idade, 23 anos, Clark Gable e Doris Day demonstram uma grande química em cena.

AUDREY HEPBURN: Karen Wright
em INFÂMIA
(The Children's Hour, 1961), de William Wyler



Duas professoras (magistrais Shirley MacLaine e Audrey Hepburn) de uma escola particular têm suas vidas viradas do avesso quando uma das crianças denuncia um sentimento um pouco maior que amizade entre as duas. A avó da garota, poderosa na cidade, trata de espalhar a história e fazer com que todos se voltem contra as pecadoras. Ainda em 1936, apenas dois anos após a estreia da peça de Lillian Hellmann, que deu origem aos filmes, o mestre William Wyler dirigiu a história pela primeira vez, mas a roteirista teve que fazer tremendas concessões à censura da época (nos anos 30, o Código Hays, que estabelecia o que podia e não podia ser mostrado nos filmes, imperava, e era absolutamente rígido). Como diz o livro “The United Artists Story”, “de acordo com Hollywood, homossexualismo não existia na América até os anos 60, e por isso These Three foi despojado de seu tema de lesbianismo”. Esta versão é mais audaciosa, com a surpreendente e lendária cena de Shirley MacLaine declarando seu amor frustrado por Audrey. Comovente.

LAURENCE OLIVIER: Graham Weir
em MENTIRA INFAMANTE
(Term of Trial, 1962), de Peter Glenville



O professor, Graham Weir, devido ao seu jeito tímido e reservado, é tratado com desdém por seus colegas, seus alunos e sua esposa. Uma de suas alunas, Shirley Taylor (Sarah Miles, estreando no cinema muito bem), é a única que aprecia seu jeito, aproximando-se. O professor passa a dar aulas particulares para Shirley, que cada vez mais se encanta por ele. A garota termina expondo seus sentimentos e propondo sexo. No entanto, Shirley o acusa de estrupo, a fim de destruir o que resta de sua vida.  Sir Laurence Olivier, com 54 anos, e Sarah Miles, com 19 anos, tiveram um caso durante as filmagens. A personagem Shirley Taylor ia ser interpretada por Natalie Wood, mas a atriz não queria ficar o tempo necessário para as filmagens fora do seu país. Olivier foi indicado ao BAFTA de Melhor Ator.

ANNE BANCROFT: Annie Sullivan
em O MILAGRE DE ANNIE SULLIVAN
(The Miracle Worker, 1962), de Arthur Penn



A incansável tarefa de Anne Sullivan, uma professora, ao tentar fazer com que Helen Keller (Patty Duke), uma garota cega, surda e muda, se adapte e entenda (pelo menos em parte) as coisas que a cercam. Para isto entra em confronto com os pais da menina, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram, sem nunca terem lhe ensinado algo nem lhe tratado como qualquer criança. Oscar, BAFTA e National Board of Review de Melhor Atriz. Refilmado duas vezes, ambas para a televisão, em 1979 e 2000. Patty Duke, que interpreta a garota Helen Keller, interpretou a própria Anne Sullivan na primeira refilmagem.

SANDY DENNIS: Sylvia Barrett
em SUBINDO POR ONDE SE DESCE
(Up the Down Staircase, 1967), de Robert Mulligan



Uma jovem professora de literatura, Sylvia Barret, chega a Calvin Coolidge cheia de ideias e entusiasmo. Mas, pela sua falta de experiência comete alguns deslizes, que irão atrapalhar seus planos em transformar o comportamento de seus alunos. Dos filmes que retratam o relacionamento entre jovens desordeiros e docentes, esse é um dos maiores representantes do gênero. Bela obra cinematográfica, baseada no romance de Bel Kaufman e filmada nos subúrbios de Nova York. Influenciou um grande número de cineastas a realizarem filmes sobre o tema. Sandy Dannis, no auge de sua carreira, tem atuação antológica, levando o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Moscou.

SIDNEY POITIER: Mark Thackeray
em AO MESTRE, COM CARINHO
(To Sir with Love, 1967), de James Clavell



O negro Mark Thackeray é engenheiro, mas fica desempregado e resolve dar aulas em Londres, ensinando alunos brancos em uma escola no bairro operário de East End. Mas se depara então com adolescentes indisciplinados e desordeiros, e que estão determinados a destruir suas aulas. Só que ele, acostumado com hostilidades, não se amedronta e enfrenta o desafio de ensinar uma turma de baderneiros. Ao receber um convite para voltar a atuar como engenheiro, ele tem que decidir se pretende seguir como mestre ou voltar ao antigo cargo. O filme foi inesperadamente bem nas bilheterias. Judy Geeson e Lulu se reuniriam novamente com Sidney Poitier na sequência para a televisão, “To Sir, With Love II”, dirigida por Peter Bogdanovich. A África do Sul baniu o filme, alegando que era "ofensivo ver um homem negro ensinando uma classe de crianças brancas".
                                                                                     
MAGGIE SMITH: Jean Brodie
em PRIMAVERA DE UMA SOLTEIRONA
(The Prime of Miss Jean Brodie, 1969), de Ronald Neame



Uma professora em uma escola para meninas inspira suas alunas com suas ideias sobre arte, música e política, sendo que a última é baseada em noções românticas, que a levam a expressar sua admiração pelo fascismo na Itália. Amorosamente envolvida com Teddy Lloyd (Robert Stephens), professor que se dedica à pintura, Jean tem um pequeno círculo social de alunas que a adoram. Paralelamente, a senhorita MacKay (Celia Johnson), a séria diretora da escola, desaprova a influência de Jean, tendo suspeitas sobre a impropriedade das ações da professora. Oscar e BAFTA de Melhor Atriz.

ALAIN DELON: Daniele Dominici
Em A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE
(La Prima Notte di Quiete, 1972), de Valerio Zurlini



No início dos anos 70, um angustiado professor de literatura, em crise no casamento, se envolve afetivamente com uma de suas alunas, numa tentativa de preencher o vazio existencial de sua vida. Conhecido como "O Poeta da Melancolia", Zurlini teve uma carreira no cinema de apenas oito filmes; mas, de extrema qualidade. Esta obra-prima se tornou um marco na prolífica carreira de Delon, cuja atuação brilhante lhe rendeu excelentes elogios da crítica. Zurlini apresenta neste filme ecos de um movimento influente naquela época: o existencialismo. Filósofos como Albert Camus e Sartre escreveram sobre homens que vivem sem rumo, nômades ateus que escondem seu passado e ignoram seu futuro. E essas características definem o protagonista Dominici, um intelectual introvertido, cuja psique casa perfeitamente com o ideal do existencialismo. Maravilhoso sob todas óticas, um filme inesquecível e indispensável.

JON VOIGHT: Pat Conroy
em CONRACK
(Idem, 1974), de Martin Ritt 



Numa pequena ilha na Carolina do Sul (EUA), vive uma comunidade negra praticamente isolada do mundo. Em 1969, chega um novo professor à escola local, branco, recebido de modo pouco amistoso pela diretora negra. Logo na primeira aula, ele percebe a falta de repertório das crianças, não somente em relação ao conhecimento escolar como também em relação à vida. Conrack (esse é o nome que os estudantes adotam para o professor, pois não sabem pronunciar a última sílaba do nome irlandês!) apresenta esse problema para a diretora, que responde de forma incisiva: "Crianças negras são lentas, elas só entendem o chicote e… querem o chicote!". Aos poucos, Conrack conquista a confiança dos alunos e também da comunidade, resgatando a autoestima de muitos. Retrato sensível das mudanças sociais nos EUA no final dos anos 1960, com a Guerra do Vietnã e a luta pelos direitos civis das minorias negras.


outubro 21, 2014

********** 1939, O ANO GLORIOSO DE HOLLYWOOD

premiere de “e o vento levou”em atlanta, georgia

Em 1938, George Cukor desistiu de dirigir a comédia “Ninotchka”, que vinha desenvolvendo com a Metro-Goldwyn-Mayer, para comandar outro filme do estúdio, o lendário “E o Vento Levou”. Seu estilo, porém, não agradou ao mega produtor do longa, David O. Selznick, e ele foi demitido no meio das filmagens. Enquanto aguardava por outro projeto, o cineasta acabou como substituto no set de “O Mágico de Oz”, cujo diretor original também havia sido despedido. Sem assinar nenhum dos trabalhos, Cukor participou dos que viriam a se tornar três dos maiores filmes da história do cinema. E que, ao lado de vários clássicos lançados em 1939 – “No Tempo das Diligências”, “A Mulher Faz o Homem”, “Vitória Amarga” e “Paraíso Infernal”, dentre outros – fariam do ano uma espécie de “Eldorado” de Hollywood, considerado por críticos até hoje como o melhor da história da indústria norte-americana. Um marco que completa 75 anos em 2014. Era o momento da maturidade do cinema clássico, tanto no que tange ao grande poderio dos estúdios – em que o cinema se tornara uma indústria extremamente lucrativa, em plena véspera de uma Guerra Mundial e logo após atravessar a Depressão – quanto ao aprimoramento narrativo e da linguagem cinematográfica.

premiere de “e o vento levou”

A filmografia de 1939 permanece icônica e forte no imaginário do público. Além de terem sido fenômenos de público, esses filmes se tornaram verdadeiras referências, paradigmas, do cinema de gênero realizado na época. Sem “E o Vento Levou” – que, com o ajuste inflacionário, é ainda a maior bilheteria de todos os tempos, com cerca de US$ 4,5 bilhões arrecadados –, não existiria “Titanic / Idem” (1997). E em sua crítica no lançamento de “No Tempo das Diligências”, a Variety já dizia que o longa dirigido por John Ford “mantém um ritmo tenso e dramático, ao mesmo tempo em que injeta vários momentos cômicos, que delineiam seus personagens com sinceridade e humanidade”, dando a receita de sucesso de todo faroeste. “Ninotchka”, por sua vez, é um dos melhores exemplos do star system da época. Uma sátira ao comunismo construída a partir da simples premissa “Garbo ri”, criada pelo estúdio para atiçar a curiosidade do público em torno da primeira comédia da “diva gélida” Greta Garbo, conhecida por papéis dramáticos.

carole lombard e clark gable na premiere 
de “e o vento levou”

Já a comédia “A Mulher Faz o Homem” é um exemplar de como o diretor Frank Capra sempre contava histórias velhas a seu modo. Mas é o ‘seu modo’ que vale tudo. Esse filme é apenas a parábola de Cristo expulsando os vendilhões do templo. Só que o templo é o Senado em Washington. E Cristo bebe cocktails e namora moças bonitas, com aquela bruta e encantadora falta de jeito de James Stewart. É o típico filme para fazer as pessoas acreditarem na sociedade e na capacidade dos norte-americanos de vencerem a depressão econômica. O cinema de Capra na década de 30 é isso, mas com muito talento. Esse papel político denota o segundo aspecto que alicerça o poder desses filmes. Tendo sido lançados em 1939, eles foram realizados no início daquele ano, ou em 1938, sendo as últimas grandes produções do mundo pré-Segunda Guerra e, portanto, os derradeiros representantes de um imaginário romântico, fantasioso, heroico e satírico, típico do cinema clássico, que seria inevitavelmente abalado e alterado pelos horrores do conflito, dando lugar a amargura e o pessimismo do noir. Por esse novo mundo que estava prestes a surgir, 1939 permanece como o totem de um tempo que desaparecia. Apenas uma década depois desse auge, Hollywood entraria em declínio, com os estúdios perdendo seu monopólio e dinheiro; as celebridades sendo acusadas no Macarthismo e as plateias se voltando para a televisão ou para novas cinematografias. Claro que Hollywood sobrevive ainda hoje, mas tudo mudou com a decadência dos grandes estúdios.

mickey rooney e judy garland (oscar especial por “o mágico de oz”)

Se eu mesmo fosse escolher apenas um ano para definir o que de melhor foi produzido no cinema, inegavelmente seria o ano de 1939, embora 1959 também surpreenda. No entanto, não só eu escolheria este ano, a maioria dos especialistas também fizeram isto. Há sete décadas e meia o cinema estreava produções que iriam marcar para sempre a sétima arte. Foi uma safra de ouro, com destaque em todos os gêneros de filmes, consagrando diretores e artistas. Nesta época, acredite, já havia quase 18.000 salas de cinemas nos Estados Unidos, a entrada era módica (algo em torno de US$ 0,25), o mundo se preparava para uma terrível guerra, mas o público estava cada vez mais fascinado por esta forma de entretenimento. A Segunda Guerra Mundial começaria naquele ano, mesmo que os EUA só tenham entrado nela em 1941. As economias recuperavam-se, de alguma forma, ainda dos efeitos devastadores da crise originária em 1929, com o crash da bolsa e Hollywood investia em grandes produções cinematográficas. Mesmo que, aparentemente, pudesse até ser um tempo sombrio ou de incertezas, o cinema surge como algo verdadeiramente mágico. Colorizava-se essa ideia de grandes filmes, as estreias eram badaladas, com a presença das grandes estrelas, que, muitas vezes, se apresentavam antes das sessões de lançamento, em tardes e noites glamourosas.

vivien leigh e o oscar

O que aconteceu naqueles dias foi um conjunto de coincidências que culminaram para que aquele ano fosse singular na história do cinema, fazendo, assim, 1939 como um ano de belíssimas produções. Para não exaltarmos apenas a grandiosidade de alguns filmes em especial, basta identificarmos um dado inimaginável: foram cerca de 483 produções (tenho 70 delas na minha coleção) lançadas naquele ano, e não faltavam estrelas: Merle Oberon, Clark Gable, Joan Crawford, Bette Davis, Greta Garbo, Gary Cooper, Cary Grant, Irene Dunne, Jean Arthur, Laurence Olivier, Tyrone Power, Marlene Dietrich, Ginger Rogers, Errol Flynn, Carole Lombard, disputando as bilheterias e rendendo algo em torno de US$ 659.000.000,00. Da safra de 1939, o mais cultuado sem dúvida é “E o Vento Levou”. Os direitos sobre a obra de Margaret Mitchell foram comprados US$ 50.000,00 para a adaptação. O livro já era um sucesso absoluto e a sua estreia nas telas foi esperada ansiosamente pelo público, que, após longo período de espera, pôde ver em technicolor o cultuado Clark Gable, ao lado da praticamente desconhecida Vivien Leigh. No entanto, teve inúmeras dificuldades para ser levado a efeito: confusões de bastidores envolvendo Gable e o diretor inicial George Cukor e a posterior substituição de Cukor por Fleming. Porém, nada deteve a beleza de um resultado magnífico, e, ao final, o que se viu foram três horas e quarenta e dois minutos de um filme premiado com os Oscars de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz (Vivien Leigh), Melhor Atriz Coadjuvante (a maravilhosa Hattie McDaniel), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia em Cores, Melhor Cenografia e Melhor Montagem. Prêmios merecidos para cenas inesquecíveis.

victor fleming e o oscar

E não pára por ai. Havia ainda outros espetáculos naquele ano: “O Mágico de Oz”. Podia parecer perigoso investir-se em duas superproduções em um único ano, não fosse o estúdio MGM, que poderia arriscar tudo, com suas tantas estrelas, como de um céu inspirado. Desta forma, a história infantil mágica também foi às telas com Judy Garland ganhando o papel de Dorothy, a menininha do Kansas. Shirley Temple foi até cogitada para o papel, mas a Paramount não cedeu o seu maior trunfo para a MGM, fazendo com que ele voltasse às mãos de Garland. A personagem acabou sendo o grande trunfo da carreira da jovem atriz e ela rodou os Estados Unidos em apresentações que aconteciam antes das sessões, rendendo mais circulação de dinheiro para a audaciosa MGM. Depois disto, é impossível imaginar “Somewhere Over the Rainbow” fora do filme ou na voz de alguém que não fosse Judy.


Uma coisa é certa: para 1939 tudo era possível. Não havia limites para ousadia, foi o ano em que Greta Garbo oficialmente riu. Em “Ninotchka”, uma comédia romântica assinada por Billy Wilder, a eterna diva recebeu uma indicação ao Oscar. Neste ano, inclusive, ainda se tinha outra atriz magistral, Bette Davis em Vitória Amarga. Na sua 12° edição, o Oscar selecionou seus dez melhores filmes: a produção inglesa “Adeus, Mr. Chips / Goodbye, Mr. Chips”, “Vitória Amarga”, “Ninotchka”, “O Morro dos Ventos Uivantes, “O Mágico de Oz”, “No Tempo das Diligências, “A Mulher Faz o Homem”, “Carícia Fatal” e “Duas Vidas”. Melhor Direção, indicados John Ford por “No Tempo das Diligências”, Frank Capra por “A Mulher Faz o Homem”, William Wyler por “O Morro dos Ventos Uivantes, Sam Wood por “Adeus, Mr. Chips. Levou Victor Fleming por “E o Vento Levou”. Uma injustiça, Wyler merecia o premio. Melhor Ator, concorreram Clark Gable por “E o Vento Levou”, James Stewart por “A Mulher Faz o Homem”, Laurence Olivier por “O Morro dos Ventos Uivantes”. Ganhando Robert Donat por “Adeus, Mr. Chip”s. Bobagem, nenhum deles supera o Heathcliff de Olivier. Melhor Atriz, na disputa Irene Dunne por “Duas Vidas”, Greer Garson por “Adeus, Mr. Chips”, Greta Garbo por “Ninotchka”, Bette Davis por “Vitória Amarga”. Justamente, venceu Vivien Leigh por “E o Vento Levou”. Mas, se possível, eu substituiria Greer Garson por Merle Oberon. No Top 10 de bilheteria, “E o Vento Levou” ficou em primeiro lugar, arrecadando $198,676,459. A seguir na lista, “Jesse James / Idem”, “A Mulher Faz o Homem, “E as Chuvas Chegaram / The Rains Came”, “Sangue de Artista / Babes in Arms”, “Uma Cidade que Surge / Dodge City”, “Adeus Mr. Chips”, “O Mágico de Oz”, “O Corcunda de Notre Dame” e “Gunga Din”.

gable e a escritora margaret mitchell

E, assim, se escreveu o ano mágico que mudou a história do cinema. Talvez a grande contribuição daqueles dias fosse mesmo a de firmar a arte do cinema, de forma mais difundida e ganhasse, definitivamente, um lugar de destaque na vida de seus espectadores mais fiéis. A crítica cinematográfica reconhece ser este o ano glorioso de criação de Hollywood. Para quem gosta verdadeiramente de cinema, o ano de 1939 ainda não acabou. Passa-se o tempo, a gente assiste a estes filmes novamente e ainda se surpreende que eles sejam melhores do que da última vez que o vimos, como se o vento não tivesse conseguido levá-los.

don ameche e claudette colbert em “meia-noite”

OS 20 MELHORES FILMES DE 1939
(por ordem de preferência)

(01)
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES
(Wuthering Heights)
drama
de William Wyler
com Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven,
Flora Robson, Donald Crisp e Geraldine Fitzgerald
(The Samuel Goldwyn Company)
Melhor Filme do Círculo dos Críticos de Nova York;
Indicado ao Oscar de Melhor Filme;


Baseado no livro de Emily Bronte, esta clássica história de amor, paixão, ódio e vingança, tornou-se uma obra-prima do cinema, aclamada pela crítica e pelo público. Humilhado por seu irmão de criação, o sombrio Heathcliff (impressionante Laurence Olivier) torna-se um homem rico e em busca de vingança. Ao mesmo tempo, porém, o rebelde nutre grande paixão por Cathy (a diva Merle Oberon), irmã do homem que deseja humilhar e que, durante os anos em que esteve ausente da Inglaterra, casou-se com o nobre Edgar (David Niven). Primorosa fotografia do mestre Gregg Toland, levando o Oscar, e atuação visceral de todo o elenco. Sublime.

(02)
AS MULHERES
(The Women)
comédia
de George Cukor
com Norma Shearer, Joan Crawford, Rosalind Russell,
Mary Boland, Paulette Goddard, Joan Fontaine,
Marjorie Main e Ruth Hussey
(Metro-Goldwyn-Mayer)


Baseado em uma peça homônima, esta comédia é famosa por seu elenco totalmente feminino e a direção hábil e elegante de George Cukor. O enredo foca em um grupo de mulheres da alta-sociedade que passam os dias no salão de beleza e desfiles de moda. A doce Mary (Norma Shearer, num dos seus melhores momentos) é uma esposa dedicada que descobre que seu marido está tendo um caso com Crystal Allen (divina Joan Crawford!). Essa confusão logo vira o assunto mais comentado nas rodas de suas amigas, incluindo a invejosa Sylvia (a deliciosa Rosalind Russell, quase roubando o filme) que vive no dilema de casar-se para logo se divorciar. Mary fica em dúvida se continua casada, ignora o caso ou se pede a separação. Com diálogos espirituosos e humor ácido, cortesia grande parte da veterana roteirista Anita Loos, a comédia atinge o seu nível máximo nesta obra. Assim como as caracterizações da venenosa Crawford, a divertida Russell e da esposa frustrada Norma Shearer.

(03)
E O VENTO LEVOU
(Gone with the Wind)
drama
de Victor Fleming
com Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard,
Olivia De Havilland, Thomas Mitchelle Hattie McDaniel
(Selznick International Pictures / Metro-Goldwyn-Mayer)
Oscar de Melhor Filme;


É “a produção mais bem-sucedida de Hollywood” disse o famoso crítico norte-americano Leonard Maltin, do Entertainment Tonight. Sob seu ponto de vista, “parece melhor com o passar dos anos”. Este romance ambientado durante a Guerra Civil Americana ganhou o impressionante número de 10 Oscars, incluindo Melhor Filme, e seus imortais personagens, Scarlett, Rhett, Ashley, Melanie, Mammy e Prissy, popularizam esse épico de apelo permanente a todas as gerações. Tido por muitos como o maior filme de todos os tempos.

(04)
A MULHER FAZ O HOMEM
(Mr. Smith Goes to Washington)
comédia
de Frank Capra
com James Stewart, Jean Arthur, Claude Rains,
Edward Arnold, Thomas Mitchell, Eugene Pallette
e Beulah Bondi
(Columbia Pictures Corporation)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme;


Jefferson Smith (adorável James Stewart) é um homem humilde do interior que é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos em Washington. Ao chegar lá, ele vai ver como a política é suja e como a maioria dos chefes de estado está afundada nessa lama. Apesar de Smith ser um homem simples, ele não se acovarda perante aos outros, como quando depois de sofrer falsas acusações, fez um discurso de várias horas que o esgotou completamente. No meio dessa sujeira toda, o que ele acreditava em relação a bondade e ao caráter dos governantes fica totalmente ameaçado. No elenco, toda a capacidade da baixinha Jean Arthur. Um filme imortal.

(05)
NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS
(Stagecoach)
western
de John Ford
com John Wayne, Claire Trevor, Andy Devine,
John Carradine, Thomas Mitchell, George Bancroft
e Tim Holt
(Walter Wanger Productions)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme;


Um grupo de nove pessoas é obrigado a embarcar em uma perigosa jornada em cima de carruagem através do Arizona, em um território indígena. Sendo levados por cavalos durante bastante tempo, cada um tem o seu motivo pessoal para realizar tal viagem. No meio do caminho eles terão que enfrentar Gerônimo e seus guerreiros apaches, e contra eles contarão apenas com a ajuda do cowboy Ringo Kid (John Wayne). Esta é a primeira das muitas colaborações entre John Ford e John Wayne, que com o sucesso deste filme se tornaria um astro. Ao lado dele, a sensacional e sensual Claire Trevor, especialistas em papeis de prostituta, brilhando em filmes noir, westerns e comédias.

(06)
NINOTCHKA
(Idem)
comédia
de Ernst Lubitsch
com Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire
e Bela Lugosi
(Metro-Goldwyn-Mayer)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme;


Nina Yakushova (surpreendente Greta Garbo), comissária do governo soviético, é mandada a Paris para averiguar o comportamento de três representantes do governo que têm como missão negociar uma joia. Aos poucos sucumbe ao capitalismo e a Leon d'Algout (o talentoso Melvyn Douglas, um dos raros parceiros amorosos de tela que não foi ofuscado por Garbo), um galanteador francês que está apaixonado por ela.

(07)
O CORCUNDA DE NOTRE DAME
(The Hunchback of Notre Dame)
drama
de William Dieterle
com Charles Laughton, Maureen O'Hara, Cedric Hardwicke,
Thomas Mitchell e Edmond O'Brien
(RKO Radio Pictures)


Quasímodo (soberbo Charles Laughton), o deformado sineiro da catedral de Notre Dame, localizada em Paris, é injustamente condenado a ser açoitado. Quando pede água apenas uma cigana (Maureen O'Hara, estreando em Hollywood) sente compaixão por ele. Quando ela é injustamente acusada de assassinato, ele decide protegê-la. O melhor filme de Dieterle, um diretor cheio de altos e baixos. O produtor Irving Thalberg apresentou o projeto a Laughton pela 1ª vez em 1934, mas terminou por não ser realizado. Apenas cinco anos depois, quando Laughton assinou com a RKO Radio Pictures, é que o ator escolheu a adaptação do livro de Victor Hugo como seu primeiro filme no novo contrato. Marca a estreia de Edmond O'Brien no cinema. Maureen O'Hara foi contratada por insistência de Laughton, que acreditava que ela encaixaria perfeitamente no papel de Esmeralda. O ator esperava duas horas e meia, todos os dias, para que a maquiagem de seu personagem ficasse pronta.

(08)
GUNGA DIN
(Idem)
aventura
de George Stevens
com Cary Grant, Victor McLaglen, Douglas Fairbanks Jr.,
Sam Jaffe e Joan Fontaine
(RKO Radio Pictures)


Três soldados profissionais em serviço na Índia estão prestes a se separar porque o casamento do espirituoso Ballantine (Fairbanks Jr.) se aproxima. Só que acontece uma reviravolta: eles se deparam com uma seita fanática que pratica sacrifícios humanos e resolvem entrar em ação. Seguem-se aí batalhas e derramamento de sangue, e na retaguarda dessa guerra está Gunga Dim (impecável Sam Jaffe), um humilde e leal carregador de água que sonha em um dia se tornar soldado, mas para isso antes ele terá que provar seu valor. Oito maquiadores foram mandados para o set de filmagens, onde eles trabalharam durante as seis semanas das filmagens que aconteceram em estúdio. Além disso, mais de 600 figurantes participaram das cenas do Mount Whitney.

(09)
MEIA-NOITE
(Midnight)
comédia
de Mitchell  Leisen
com Claudette Colbert, Don Ameche, John Barrymore,
Francis Lederer, Mary Astor e Monty Woolley
(Paramount Pictures)


Considerado um dos clássicos da comédia maluca e como o melhor filme de Leisen. O roteiro foi escrito por Billy Wilder e Charles Brackett, na primeira colaboração da dupla com o diretor. Refilmado em 1945 como “Fantasia Mexicana / Masquerade in Mexico”, com o mesmo diretor, porém com elenco (Dorothy Lamour, Arturo de Córdova e Patric Knowles), roteiro e resultado inferiores. Corista desempregada, a norte-americana Eve Peabody (a versátil Colbert, a estrela mais bem paga de sua época) chega a Paris em uma noite chuvosa. À procura de emprego, toma o táxi de Tibor Czerny (charmoso Ameche), um húngaro, que a leva de clube noturno em clube noturno. Quando o taxista se apaixona por ela, Eve o larga e acaba em uma festa grã-fina, onde se apresenta como a Baronesa Czerny. Impressionado, o milionário Georges Flammarion propõe-lhe um lugar entre as socialites desde que seduza Jacques Picot, amante de sua esposa Hélène. Mas Tibor, que não desistira dela, descobre seu paradeiro e apresenta-se como o Barão Czerny. Depois de vários mal-entendidos, frases de duplo sentido e confusões diversas, todos ficam felizes.

(10)
PARAÍSO INFERNAL
(Only Angels Have Wings)
aventura
de Howard Hawks
com Cary Grant, Jean Arthur, Richard Barthelmess,
Rita Hayworth e Thomas Mitchell
(Columbia Pictures Corporation)


Em um pequeno aeroporto na América do Sul, Bonnie Lee (Jean Arthur) conhece um grupo de pilotos que se arriscam diariamente entre neblina e montanhas fazendo entregas pela região. O frio e distante líder dos aviadores, Geoff Carter (Cary Grant), chama especialmente sua atenção, mas para conquistá-lo ela terá antes que afastar Judy MacPherson (Rita Hayworth no seu primeiro papel de destaque) de seu caminho. Para o papel de Judy, Howard Hawks fez testes com Dorothy Comingore, Rochelle Hudson e Rita Hayworth. Selecionou Hayworth porque, segundo ele, ela tinha um rosto “que a câmera ama”.

(11)
HERÓIS ESQUECIDOS
(The Roaring Twenties)
criminal
de Raoul Walsh
com James Cagney, Humphrey Bogart, Priscilla Lane
e Gladys George
(Warner Brothers)


Eddie Bartlett é um veterano de guerra desempregado que se torna contrabandista, trocando as batalhas por garrafas. Enquanto cresce seu império, Eddie enfrenta ameaças externas e internas, constantes batalhas territoriais, confrontos de gangues e traições. Marcante momento de extraordinário James Cagney e do veterano injustamente esquecido Raoul Walsh, um dos grandes diretores da história do cinema.

(12)
VITÓRIA AMARGA
(Dark Victory)
drama
de Edmund Goulding
com Bette Davis, George Brent, Humphrey Bogart,
Geraldine Fitzgerald e Ronald Reagan
(Warner Brothers)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme;


Judith Traherne (comovente Davis) é uma jovem herdeira que desfruta regaladamente de sua riqueza sempre cercada por festas e por amigos, entre eles a fiel Ann King (Fitzgerald). Tendo fortes dores na cabeça, Judith é aconselhada por seu médico a procurar um especialista, o Dr. Frederick Steele (o canastrão Brent) que após realizar alguns exames descobre que a jovem sofre de um maligno câncer cerebral. Abalado com a jovialidade e entusiasmo da paciente, junto com Ann, ele decide esconder o diagnóstico da mesma. No entanto, após se envolver sentimentalmente com seu médico e de casamento marcado com ele, a protagonista descobre a real situação de sua saúde e a partir de então passa a enfrentar amargos dias sabendo que lhe resta menos de um ano de vida. Baseado numa aclamada peça teatral, esse melodrama magnífico foi levado às telas graças à insistência de Bette Davis. Interessada pelo papel de Judith ela convenceu o chefe do estúdio Jack Warner a realizar o filme. Jack, segundo consta, não acreditara que o filme pudesse alcançar sucesso algum afinal ele indagava: “Quem vai querer ver um filme onde a mocinha fica cega e morre no final?”. Bette Davis, ao contrário de seu chefe, via em seu personagem a oportunidade de vencer seu terceiro Oscar. De Fato o filme foi um sucesso e levou milhares de pessoas aos cinemas. O Assunto abordado referente a doenças terminais e cirurgias cerebrais não era realmente muito comum na época o que despertara profundamente o interesse do público. Entre tantos outros ótimos filmes de 1939, Vitória Amarga acabou se ofuscando, mas nunca perdeu completamente seu brilho.

(13)
BEAU GESTE
(Idem)
aventura
de William A. Wellman
com Gary Cooper, Ray Milland, Robert Preston,
Brian Donlevy, Susan Hayward e Broderick Crawford
(Paramount Pictures)


Refilmagem da produção de 1926, com Ronald Colman. Baseado no romance homônimo de P. C. Wren, uma história clássica da fraternidade entre irmãos que se alistam na famosa Legião Estrangeira Francesa. Significando esse serviço militar um verdadeiro suicídio, a Legião era vista como uma saída honrosa para homens desesperados e sem alternativas e que só esperavam a morte. Mas também podia ser uma aventura irresistível para jovens cavalheiros, como eram os protagonistas do filme. Num pequeno papel, Susan Hayward já mostra que vinha para ficar.

(14)
MÃE POR ACASO
(Bachelor Mother)
comédia
de Garson Kanin
com Ginger Rogers, David Niven e Charles Coburn
(RKO Radio Pictures)


Polly Parrish (hilária Rogers) trabalha como caixa em uma loja de departamentos e, um dia, quando surge um bebê abandonado, acaba cuidando dele como se fosse seu filho. Impressionado com sua conduta, seu patrão (o simpático e elegante Niven) resolve empenhar-se para manter ela e a criança juntas. Com roteiro maravilhoso de Norman Krasna, que prende a atenção do expectador do inicio ao fim do filme, o diretor não explorou os dotes da dançarina de Ginger Roger, sim, bastante sua veia humorística. Uma comédia inesquecível que continua atual até hoje. Fantástica.

(15)
O MÁGICO DE OZ
(The Wizard of Oz)
Fantasia musical
de Victor Fleming
com Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger e Margaret Hamlton
(Metro-Goldwyn-Mayer)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme;


Em Kansas, Dorothy (ícone Judy Garland) vive em uma fazenda com seus tios. Quando um tornado ataca a região, ela se abriga dentro de casa. A menina e seu cachorro são carregados pelo ciclone e aterrissam na terra de Oz, caindo em cima da Bruxa Má do Leste e a matando. Vista como uma heroína, mas o que ela quer é voltar para Kansas. Para isso, precisará da ajuda do Poderoso Mágico de Oz que mora na Cidade das Esmeraldas. No caminho, ela será ameaçada pela Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton), que culpa Dorothy pela morte de sua irmã, e encontrará três companheiros: um Espantalho (Ray Bolger) que quer ter um cérebro, um Homem de Lata (Jack Haley) que anseia por um coração e um Leão covarde (Bert Lahr) que precisa de coragem. A MGM pagou a L. Frank Baum US$ 75 mil pelos direitos de adaptação cinematográfica de seu livro, uma quantia recorde na época. Teve cinco diretores. Richard Thorpe iniciou as filmagens e rodou por várias semanas até ser demitido pelos produtores, que consideraram seu trabalho insatisfatório. Nenhuma das cenas rodadas por Thorpe foi incluída na versão final do filme. Ainda em busca de um diretor substituto, os produtores contrataram George Cukor como diretor temporário. Victor Fleming assumiu a direção logo em seguida, mas teve que abandoná-la após ser contratado para dirigir E o Vento Levou. Após a saída de Fleming, King Vidor foi contratado para rodar as sequências restantes. O roteiro foi escrito tendo em mente o ator W.C. Fields para interpretar o Mágico de Oz, porém o produtor Mervyn LeRoy procurou antes Ed Wynn, que recusou o papel. LeRoy ofereceu então um salário de US$ 75 mil a Fields, que recusou e pediu US$ 100 mil. Foi a vez então do produtor recusar. Uma pena, Fields era maravilhoso.

(16)
ATIRE A PRIMEIRA PEDRA
(Destry Rides Again)
western
de George Marshall
com Marlene Dietrich, James Stewart, Mischa Auer,
Una Merkel e Brian Donlevy
(Universal Pictures)


O vilão da incontrolável cidade de Bottleneck mata o xerife local, e nomeia como seu sucessor Destry (James Stewart), um homem com uma personalidade destoante da maioria dos xerifes, e que foi eleito porque achavam que ele seria inofensivo. Afinal Destry prefere leite a uísque e se recusa a andar armado, porém mesmo com essas características ele se mostra durão na hora de lutar contra o crime. Alguém tão excêntrico acaba por despertar o interesse da artista de saloon Frenchy (belíssima Marlene Dietrich), que protagoniza a cena típica dos faroestes: o combate de saloon. Só que dessa vez entre duas mulheres. O papel de Tom Destry era originalmente de Gary Cooper, mas ele queria mais dinheiro do que os produtores estavam dispostos a pagar. Foi o primeiro faroeste de James Stewart. Ele e Marlene tiveram um caso que durou exatamente o tempo das filmagens. Posteriormente, ela declarou que teve que fazer um aborto depois que Stewart a engravidou.

(17)
DUAS VIDAS
(Love Affair)
drama
de Leo McCarey
com Irene Dunne, Charles Boyer e Maria Ouspenskaya
(RKO Radio Pictures)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme;


Sofisticado europeu e bela novaiorquina se apaixonam durante cruzeiro em transatlântico. Mas a história de amor será interrompida por uma série de percalços. O próprio diretor refilmaria a mesma história quase 20 anos mais tarde como “Tarde Demais para Esquecer / An Affair to Remember” (1957), com Cary Grant e Deborah Kerr. Belíssimo filme, que recebeu seis indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante (Ouspenskaya), Melhor Argumento, Melhor Cenário, Melhor Música. Primeira das duas maravilhosas versões sobre a mesma história romântica dirigidas pelo ótimo Leo McCarey.

(18)
AO RUFAR DOS TAMBORES
(Drums Along the Mohawk)
drama
de John Ford
com Claudette Colbert, Henry Fonda, Edna May Oliver,
John Carradine e Ward Bond
(20th Century-Fox)


Clássico impecável do mestre Ford. Em 1776, Magdelana Borst (Claudette Colbert, uma das minhas atrizes favoritas) e Gilbert Martin (Henry Fonda) se casam e vão para o Vale do Mohawk. Porém, os repetidos ataques dos índios os fazem ir, juntamente com outros colonos do vale, para um forte próximo, de onde assistem os índios devastarem suas fazendas e cabanas. Sarah McKlennar (vibrante Edna May Oliver), uma solteirona com uma grande fazenda, vai ajudá-los e contrata Gilbert para trabalhar no campo, dando aos Martin um lugar para ficar. A vida dura da fazenda não tem sido boa para Lana, que foi criada na riqueza e em circunstâncias favoráveis. Com o tempo ela desenvolve uma pele mais grossa e aprende a amar a nova vida.

(19)
CARÍCIA FATAL
(Of Mice and Men)
drama
de Lewis Milestone
com Lon Chaney Jr., Burgess Meredith, Betty Field
e Charles Bickford
(Hal Roach Studios)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme;


Baseado no romance de John Steinbeck, conta a história dos amigos George e Lennie, que tentam perseguir o seu sonho de possuírem o seu próprio rancho em vez de terem de trabalhar para outros. O grandalhão tem a mente infantil, e devido à sua força, machuca homens e animais. George é menor fisicamente, porém é mais esperto. Devido às encrencas que Lennie se envolve, eles vão trabalhar numa nova fazenda. Quando estão prestes a realizar seu sonho, Lennie acidentalmente mata uma moça. Foi nomeado para quatro Oscars.

(20)
CONFLITO DE DUAS ALMAS
(Golden Boy)
drama
de Rouben Mamoulian
com Barbara Stanwyck, Adolphe Menjou, William Holden,
Lee J. Cobb e Joseph Calleia
(Columbia Pictures Corporation)


Empresário desonesto ilude um jovem violinista (Holden, estreando muito bem no cinema), convencendo-o a desistir da música em favor de uma carreira no boxe.