dezembro 19, 2011

****** SALA VIP: “A FELICIDADE NÃO SE COMPRA”



Produzido e dirigido pelo cineasta de origem italiana Frank Capra (1897-1991), mestre em comédias que apresentam mensagens reforçando os valores humanos, a exemplo de "Do Mundo Nada se Leva / You Can’t Take It With You" (1938), esta fábula fala de amizade, compaixão, solidariedade, amor e honestidade, contando a história de George Bailey (James Stewart), um sujeito de bom coração. Seu maior sonho é cursar uma faculdade, viajar pelo mundo, sair de sua pequena cidade. Porém, sua bondade e seu desejo de ajudar as pessoas vão sempre adiando a realização de seus sonhos. A cada oportunidade surgida, um novo obstáculo se interpõe no caminho de suas realizações. Com o passar dos anos, George se vê cada vez mais preso aos negócios sempre instáveis da empresa que herdou do pai. Ele é na verdade um realizador de sonhos. Através da pequena construtora herdada financia casas próprias para famílias pobres, cobrando juros tão baixos que mal consegue manter a sua própria família. Infelizmente, em virtude de grave problema financeiro, provocado por desonesto banqueiro (Lionel Barrymore), ele se vê prestes a perder a empresa, a reputação e a harmonia familiar. Na véspera do Natal, assumindo que fracassou, decide tirar a própria vida, saltando de uma ponte, mas é impedido pelo doce e atrapalhado aspirante a anjo, Clarence (Henry Travers), que mostra o quanto ele é importante para todos da sua comunidade. 


Filme lendário, certamente o melhor já feito com o Natal como pano de fundo – ao lado de “De Ilusão Também Se Vive / Miracle on 34th Street” (1947) -, foi produzido pela Liberty Films, uma companhia independente recém-criada, cujos donos, o próprio Capra, William Wyler, George Stevens e Sam Briskin, pretendiam ter liberdade e independência totais sobre suas próprias obras, ao contrário do que acontecia nos filmes feitos para os grandes estúdios. Mas faliu quando este filme fracassou, não conseguindo cobrir seu alto custo de produção - cerca de US$ 3 milhões e 700 mil. Com o fim da Liberty Films, A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (It’s a Wonderful Life, EUA, 1946) não teve seus direitos autorais comprados por nenhum estúdio, e acabou deixando de ter copyright, tornando-se de domínio público, qualquer um poderia fazer qualquer coisa com ele (por mais estranha que possa parecer essa situação, ela é comum, aconteceu com vários filmes de Orson Welles, praticamente todos os de Charles Chaplin da fase muda e os da fase inglesa de Alfred Hitchcock, só para dar alguns exemplos). Por ser grátis, passou a ser um campeão de reprises nas tevês norte-americanas e do mundo afora – e, graças a isso,  reconhecido e amado por novas gerações. Tradição de Natal nos Estados Unidos, é hoje um dos filmes mais amados da história, criando assim sua reputação de clássico imperdível.

Com emoção, humor ingênuo, toques lúdicos, ritmo e inteligência, o longa discute várias questões: o que é melhor, ter amigos ou se aproveitar das pessoas para vencer na vida? Será que nossas ações passam despercebidas? Quando encontramos um amor devemos embarcar nele ou deixá-lo para trás com receio de problemas futuros? São temas discutidos de maneira leve e sentimental. Ao invés de um aprofundamento, as situações vão acontecendo e nos absorvendo. Ao final, o público está completamente emocionado com tudo o que passou na vida de George, e a mágica está na ligação entre a vida desse personagem fictício com nossa própria vida. O roteiro de Frances Goodrich, Albert Hackett e do próprio Capra, com diálogos adicionais de Jo Swerling, apresenta diversas ações sobre uma felicidade que o dinheiro simplesmente não pode comprar, como o romantismo de George e Mary Hatch passeando sob a luz do luar e se conhecendo. James Stewart, que já havia trabalhado com Capra em “Do Mundo Nada Se Leva” e “A Mulher Faz o Homem / Mr. Smith Goes to Washington” (1939), impõe o seu carisma, numa composição marcante. É uma das suas melhores interpretações – ele que foi dirigido por Billy Wilder, George Stevens, Alfred Hitchcock, Otto Preminger, Ernst Lubitsch, George Cukor, John Ford, William A. Wellman, King Vidor e Anthony Mann. 


O curioso é que por pouco James Stewart não interpretou o generoso George Bailey, pois a primeira opção era Cary Grant, que recusou a excelente oportunidade, e ele queria descansar da Segunda Guerra, em que havia acabado de lutar, mas após muita insistência de produtor/diretor, aceitou o trabalho. Sua companheira de cena, Donna Reed (Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante como a prostituta de “A Um Passo da Eternidade / From Here to Eternity”, 1953), faz a mulher "perfeita" de tantos filmes hollywoodianos: compreensiva, amorosa e companheira em todas as situações. A atuação e a química entre os dois atores são tão incríveis que, se não funcionassem dessa maneira, o filme poderia cair na banalidade. Capra queria sua atriz preferida, Jean Arthur, para a composição de Mary, mas ela estava comprometida com uma peça na Broadway. Então resolveu dar a primeira chance de estrela para essa jovem atriz da MGM. Ela disputou a personagem com Ann Dvorak, Ginger Rogers e Olivia de Havilland. Lionel Barrymore, que faz o terrível vilão, e que na vida real era realmente paralítico, aceitou  fazer o filme sem ler o roteiro, mas Capra pensou também em Vincent Price, Claude Rains, Charles Coburn e Edgar Buchanan. Já para o papel do tio, feito por Thomas Mitchell, foram considerados Walter Brennan, Barry Fitzgerald, W.C. Fields e Adolphe Menjou. Outro destaque é a revelação de Gloria Grahame como Violet. Ela seria uma das principais femmes fatale do Film Noir e levaria o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Assim Estava Escrito / The Bad and the Beautiful” (1952). Neste filme, todos estão perfeitos, mas ninguém melhor do que a dupla central, em particular Jimmy Stewart, que faz o herói que vive numa cidadezinha qualquer sonhando em sair dela e viajar pelo mundo. Mas a vida nunca lhe permitiu.


Com inocência, ternura e sinceridade, A FELICIDADE NÃO SE COMPRA é uma das mais belas e comoventes obras da história do cinema. E resistiu bem ao tempo, tanto por causa de sua mensagem humanitária, sua fé no homem comum e sua crença ingênua na bondade intrínseca do ser humano, como também pelo conjunto de talentos reunidos. Este foi o primeiro filme de Capra depois de um longo período em que trabalhou no esforço de Guerra, documentando o conflito, e o que passou certamente marcou sua vida, mas ainda assim não perdeu a confiança na humanidade. Tanto que preferiu voltar com esta fábula solidária. A história original de Phillip Van Doren Stern nasceu como um conto, “The Greatest Gift” (“O Maior Presente”), que o autor mandou imprimir 200 cópias, enviando-as para os seus amigos como presente de Natal. A RKO Radio Pictures gostou do argumento e comprou os direitos por US$ 10 mil. Escreveram três roteiros em cima dele, mas acabaram desistindo do projeto. Quando Capra leu o projeto, comprou-o pelo mesmo preço. Era o seu filme predileto tanto quanto de James Stewart. Em sua autobiografia, Capra escreveu: “Acho que foi o maior filme que eu fiz. Mais ainda, eu acho que é o maior filme que qualquer um fez. Ele não foi feito para os críticos ou os literatos. É meu tipo de filme para o meu tipo de público”. Apesar do fracasso retumbante de bilheteria, chegou a ser indicado aos Oscars de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Montagem e Melhor Som. Não levou nada, foi o ano de “Os Melhores Anos de Nossas Vidas / The Best Years of Our Lives”, que arrebatou sete estatuetas. Mas ganhou o Globo de Ouro de Melhor Diretor.


gloria grahame
Votado pelo American Film Institute (AFI) em primeiro lugar como o filme que mais inspira as pessoas e o mais poderoso de todos os tempos, ficou em terceiro no gênero fantasia e décimo primeiro dentre os 100 melhores de todos os tempos. A fábula de Frank Capra a cada ano se torna mais e mais irresistível. Sem cair em sentimentalismos desnecessários, versa sobre a importância de cada um, o impacto que cada pessoa tem no mundo. E nos faz pensar em como seria o mundo sem que nós estivéssemos nele. É um exercício interessante e imprescindível. Ele nos faz pensar, e o mais surpreendente de tudo, faz com que a gente queira se transformar em uma pessoa melhor.  É difícil não se emocionar com este filme, que embora siga uma fórmula de bondade e altruísmo pouco realista, o faz de forma tão convincente que não se pode escapar de suas armadilhas sentimentais. 

O segredo para que a fita seja universal, e preserve ao longo do tempo sua força de esperança e fé no ser humano, está na crença de que a bondade é possível e habita sempre o coração dos homens. Quando a dirigiu, Capra tinha em mente passar ao público a sensação de que a vida, apesar das tragédias, vale a pena, que o simples fato de estar vivo já é motivo para ser celebrado. Talvez os traumas da guerra recém-terminada tenham enevoado a compreensão da platéia, mas o fato é que, da década de 1960 para cá, A FELICIDADE NÃO SE COMPRA galgou o imaginário popular e se estabeleceu como um dos filmes que mais conseguiu influenciar a maneira do público em encarar as situações difíceis do cotidiano. É impressionante como um simples filme tenha conseguido tanto. Ele é um daqueles longas necessários, que temos que assistir pelo menos uma vez na vida. Simplesmente Maravilhoso! Não importa quantas reprises a tevê exiba, não importa quantas décadas o atravessem, merecerá sempre os olhos lacrimejados de seus espectadores.

henry travers
A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (It’s a Wonderful Life, EUA, 1946). Duração: 130 min; P & B; Produção e Direção: Frank Capra (Liberty Films); Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett e Frank Capra; Fotografia: Joseph Walker e Joseph Biroc; Edição: William Hornbeck; Música: Dimitri Tiomkin; Cenografia: Jack Okey (d.a.), Emile Kuri (déc.); Vestuário: Edward Stevenson; Elenco: James Stewart (“George Bailey”), Donna Reed (“Mary Hatch”), Lionel Barrymore (“Henry F. Potter”), Thomas Mitchell (“Tio Billy Bailey”), Henry Travers (“Clarence”), Beulah Bondi (“Ma Bailey”), Ward Bond (“Bert”), Frank Faylen, Gloria Grahame (“Violet Bick”), H. B. Warner e Samuel S. Hinds.

Nota: ***** (ótimo)

Prêmios: Globo de Ouro de Melhor Direção

donna reed e james stewart

dezembro 12, 2011

SALA VIP: “A BESTA HUMANA” e “DESEJO HUMANO”


broderick crawford 
O escritor francês Émile Zola, considerado o fundador do naturalismo, em um dos seus romances mais conhecidos, A BESTA HUMANA (1890), examina as características psicológicas dos homicidas e apresenta um detalhado retrato dos trabalhadores de uma ferrovia francesa do século 19 (a exemplo do que fizera genialmente com os mineiros em “Germinal”, 1885). A personagem principal é Jacques Lantier, um maquinista na linha Paris-Le Havre. Ele sofre de enxaquecas e tem fortes impulsos assassinos. Só se sente bem na sua locomotiva, a "Lison". Por infelicidade, conhece a inescrupulosa Séverine, cujo marido Roubaud, subchefe da estação de Le Havre, acaba de matar um homem que a havia seduzido ainda adolescente, e tornam-se amantes. Séverine sugere a Lantier eliminar o seu próprio marido, um tipo rude e alcoólatra. Fascinante no tocante ao estudo da natureza humana, o livro explicita como a tecnologia industrial contribuiu para a degeneração moral e a desumanização da sociedade. É também um típico folhetim com enredo trepidante, teorias biológicas e sociológicas embutidas nas ações dos personagens e um conjunto de assassinatos que chocam e fascinam o leitor. Poucas obras de Zola apresentam tamanha multiplicidade de ações e intriga tão cheia de surpresas e reviravoltas, podendo ser encarada como uma narrativa policial ou como um mergulho no universo das pulsões subterrâneas e das paixões mais avassaladoras, aquelas que levam os seres à violência e ao crime. 

simone simon e jean gabin
O cinema não poderia desprezar esse argumento atraente, dramático e realista. Em 1938, no período dourado do cinema francês, o mestre Jean Renoir (1894-1979) - que já havia filmado outra obra de Zola, “Naná / Idem” (1926) -, adaptou A BESTA HUMANA com Jean Gabin como Lantier, Simone Simon como Séverine e Fernand Ledoux como Roubaud. Como todas as versões literárias do cineasta francês, não se trata de uma simples publicidade para o livro ou uma “tradução certinha” para o cinema, mas uma legítima e imperdível obra de arte. Saudado na ocasião do seu lançamento como um retrato real da vida humilde dos operários ferroviários (o crítico francês Georges Sadoul chegou a atribuir às primeiras cenas do filme um caráter estritamente documental), apresenta um comovente e fenomenal Gabin – talvez o maior ator do cinema francês - como Lantier. Já a chatinha Simone Simon não convence plenamente como mulher fatal, enquanto Ledoux encarna o marido traído tradicional com sentimento. Às vezes o filme é confuso ou mesmo dispersivo, como no episódio em que intervém a jovem namorada do estranho mocinho, que desaparece a seguir, sem jamais voltar, mesmo depois da confissão de amor de um Lantier alucinado. Sem nada sofrer com a passagem do tempo – oito décadas desde o seu lançamento -, o poético A BESTA HUMANA deixa na memória do público relações amorosas trágicas e imagens de locomotivas que seguem sob os trilhos, barulhentas e iluminadas, entre lapsos de trevas e silêncios desconcertantes.

gloria grahame e glenn ford
Dezesseis anos depois, o mestre do expressionismo alemão Fritz Lang (1890-1976) refilmou essa história de frustrações, adultério e crime. Transformado num cruel film-noir passado numa cidade do meio-oeste dos Estados Unidos, DESEJO HUMANO é uma das melhores obras da fase norte-americana do cineasta. O triângulo amoroso formado por Glenn Ford (o maquinista “Jeff Warren”), Gloria Grahame (a infiel “Vicky Buckley”) e Broderick Crawford (o marido “Carl Buckley”) é um dos mais contundentes do cinema - personagens decaídos que se despedaçam entre si em um universo asfixiante de apartamentos simplórios e estações de trem, de linhas ferroviárias com traçados retilíneos e restritivos, que são como uma espécie de imagem de seus próprios destinos. A desordem conjugal, os abusos sentimentais, o sentimento de culpa e a traição mantêm alto o nível de tensão da trama. O tratamento visual, a iluminação e o sofisticado jogo de claros-escuros do diretor de fotografia Burnett Guffey também se destacam. Se o início de DESEJO HUMANO e A BESTA HUMANA (de Renoir) coincidem, ao nos mostrar a mesma inexorável marcha do trem, o drama de Lang termina por caminhar noutra direção ao evitar a linha básica do romance de Zola: a referência à influência patológica da hereditariedade como o veículo do trágico. O personagem Lantier, no romance e no filme de Renoir, é um psicopata, trazendo no sangue a maldição de gerações envenenadas pelo álcool. O Lantier de Lang é apenas um homem solitário, que acaba de voltar da guerra da Coréia, seduzido por uma fêmea ardente e esperta. 


gloria e glenn
Sombrio e expressionista (contrapondo-se ao naturalismo de Renoir), austero e cerebral, frio e violento, DESEJO HUMANO (o diretor não gostava do título, retrucando: “que outro tipo de desejo existe?”) se insere num gênero específico do cinema, o policial noir, em que Lang rodou um dos seus mais belos filmes, “Almas Peversas / Scarlet Street” (1945). A grande personagem da história é Vicky Buckley, a habitual “femme fatale”, um papel que era para ser de Rita Hayworth, mas que a excelente Gloria Grahame faz muito bem, dando-lhe os matizes de provocada inocência e subterrânea perversidade. Enganando todos os homens em cena (o marido bêbado, o amante rico e o novo amante maquinista), ela não deixa de ser uma vitoriosa, mesmo que morra asfixiada pelas mãos do esposo no final. Já o personagem de Broderick Crawford foi pensado para Peter Lorre, mas este terminou por recusar, nunca perdoando a tirania do diretor durante as filmagens do clássico “M, O Vampiro de Dusseldorf / M” (1931). Perseguido pela censura e elogiado pelos críticos, o magistral DESEJO HUMANO é relato absorvente e de impressionante morbidez. No entanto, não saberia dizer se essa é a melhor versão do folhetim de Zola. A de Renoir também é espetacular. Além disso, sou suspeito, tenho verdadeira veneração por Fritz Lang. 

jean renoir
A BESTA HUMANA
La Bête Humaine
(1938)
de Jean Renoir

País: França; Duração: 100 mins; P & B; Produção: Robert Hakim e Raymond Hakim (Paris Film Production); Roteiro: Jean Renoir; Fotografia: Curt Courant; Edição: Suzanne de Troeye e Marguerite Renoir; Música: Joseph Kosma; Cenografia: Eugène Lourié (d.a.); Vestuário: Laure Lourie; Elenco: Jean Gabin (“Jacques Lantier”), Simone Simon (“Séverine Roubaud”), Fernand Ledoux (“Roubaud”), Blanchette Brunoy, Gérard Landry, Jenny Hélia e Colette Régis

Nota: ***** (ótimo)

jean gabin e simone simon
jean gabin

fritz lang
DESEJO HUMANO
Human Desire
(1954)
de Fritz Lang

País: EUA; Duração: 91 mins.; P & B; Produção: Lewis J. Rachmil (Columbia Pictures); Roteiro: Alfred Hayes; Fotografia: Burnett Guffey; Edição: Aaron Stell; Música: Daniele Amfitheatrof; Cenografia: Robert Anderson (d.a.); William Kiernan (déc.); Vestuário: Jean Louis; Elenco: Glenn Ford (“Jeff Warren”), Gloria Grahame (“Vicki Buckley”), Broderick Crawford (“Carl Buckley”), Edgar Buchanan, Kathleen Case e Peggy Maley

Nota: ***** (ótimo)

glenn ford e gloria grahame
glenn ford e gloria grahame

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CINE-JORNAL

OS 50 ANOS DE “BONEQUINHA DE LUXO”

“Bonequinha de Luxo / “Breakfast at Tiffany’s” (1961), a comédia romântica mais charmosa de todos os tempos, completou 50 anos este final de ano (estreou no Brasil em 13 de novembro de 1961). Tudo começou quando a Paramount Pictures decidiu que queria um projeto moderno, que falasse dos novos tempos e novos costumes. Seus executivos se encantaram com uma novela de sucesso publicada pelo polêmico Truman Capote em 1958. O estúdio comprou os direitos, mas logo terminou por perceber que era impossível filmá-lo dentro dos padrões morais que Hollywood adotava. Começando pela mocinha Holly Golightly, uma garota que tenta ascender socialmente em Nova York graças aos favores de homens ricos. Seu grande sonho é dar um golpe, casando-se com um deles. Até um milionário brasileiro (o ator espanhol José Luis de Vilallonga) entra na sua lista de pretendentes. O hábil roteirista George Axelrod teve que praticamente reescrever o argumento, tentando encontrar estruturas que fossem moralmente palatáveis para o público da época. Claro que ficou menos ousado que o romance, mas não é menos eficiente em sua combinação de comédia inteligente, drama de costumes e história de amor. A crueza e o cinismo de escritores como Truman Capote só seriam aceitos pelo cinema comercial quase uma década depois, após John Schlesinger propor algo semelhante em “Perdidos na Noite / Midnight Cowboy” (1969). Dirigido pelo eficiente Blake Edwards - aqui em seu melhor momento -, todo o elenco de “Bonequinha de Luxo” está em estado de graça: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Mickey Rooney e Martin Balsam. Mas segundo Capote, a atriz perfeita para interpretar Holly Golightly teria sido Marilyn Monroe. Ela chegou a ser convidada para o papel, mas recusou, temerosa do efeito que uma personagem que praticamente se prostituía teria sobre sua carreira, que àquela altura já balançava. O filme venceu dois Oscars: Melhor Canção (“Moon River)” e Melhor Trilha Sonora para Henri Mancini. Também foi indicado ao prêmio em outras três categorias: Melhor Atriz (Audrey Hepburn), Melhor Direção de Arte e Melhor Roteiro Adaptado. Audrey levou o David di Donatello de Melhor Atriz Estrangeira e concorreu ao Globo de Ouro na categoria Atriz de Comédia/Musical.


dezembro 11, 2011

*********** ESSES ADORÁVEIS CANASTRÕES


victor mature e hedy lamarr em "sansão e dalilah"
O cinema é uma arte que freqüentemente privilegia os CANASTRÕES. Não que eu tenha nada contra, muito pelo contrário, sem esses galãs a magia inventada por Méliès seria menos divertida e apaixonante. Entretanto, o que realmente significa o termo canastrão? Possivelmente aquele que cativa pelo seu tipo imutável em qualquer filme, seja um melodrama ou uma fita de ação, apresentando expressão facial praticamente nula. Poderosos e populares, eles provam que uma carreira de décadas nem sempre é sinônimo de talento dramático. Geralmente bonitos ou charmosos, participam de produções que rendem milhões de dólares - alguns incrivelmente ganharam o Oscar de Melhor Ator (Warner Baxter, Bing Crosby, William Holden, Yul Brynner, Charlton Heston, Cliff Robertson, John Wayne etc.) - e trabalham muitas vezes com bons diretores e grandes atrizes, mas sobrevivem nas telas amparados principalmente no carisma pessoal. Alguns até disfarçam a falta de talento, outros acreditam que utilizam uma técnica seca, sem emoção. O concreto é que os CANASTRÕES se valem da beleza ou do carisma, desviando a atenção do público para seus dotes físicos, numa espécie de sedução mais hipnotizante do que o próprio personagem. Reduzidos ao rótulo que o mercado cinematográfico os condicionou, são adoráveis ícones. Confira alguns inesquecíveis atores de irremediável canastrice:

CORNEL WILDE
(1912-1989)

Melhores momentos: 
“À Noite Sonhamos / A Song to Remember” (1945); 
“Sangue Ardente / Hot Blood” (1956).

GEORGE BRENT
(1899-1979)

Melhores momentos: 
“Vitória Amarga / Dark Victory” (1939);
 “Silêncio nas Trevas / The Spiral Staircase” (1945).

GEORGE PEPPARD
(1928-1994)

Melhores momentos: 
“Herança da Carne / Home From the Hill” (1960);
“Bonequinha de Luxo / Breakfast at Tiffany's” (1961).

JOHN GAVIN
(n. em 1931)

Melhores momentos: 
“Imitação da Vida / Imitation of Life”; 
“Psicose / Psycho” (1960).

JOHN PAYNE
(1912-1989)

Melhores momentos: 
“O Fio da Navalha / The Razor’s Edge” (1946);
“De Ilusão Também se Vive / Miracle on 34th Street” (1947).

LOUIS JOURDAN
(n. em 1921)

Melhores momentos: 
“Carta de Uma Desconhecida / Letter From a Unknown Woman” (1948); 
“Gigi / Idem” (1958).

ROBERT TAYLOR
(1911-1969)

Melhores momentos: 
“A Dama das Camélias / Camille” (1936);
“Quo Vadis / Idem” (1951).

VAN JOHNSON
(1916-2008)

Melhores momentos: 
“O Preço da Glória / Battleground” (1949); 
“A Última Vez Que Vi Paris / The Last Time I Saw Paris” (1954).

VICTOR MATURE
(1913-1999)

Melhores momentos: 
“O Beijo da Morte / Kiss of Death” (1947); 
“O Manto Sagrado / The Robe” (1953).

YUL BRYNNER
(1920-1985)

Melhores momentos: 
“Os Dez Mandamentos / The Ten Commandments” (1956); 
“O Rei e Eu / The King and I” (1956).

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ESTRÉIA

“CÁLAMO”
(Tatarak, 2009)

Autor de diversas obras-primas, além de vencedor de inúmeros prêmios internacionais, o veterano polonês Andrzej Wajda, após o fabuloso “Katyn / Idem” (2007), está de volta aos 85 anos de idade (ele nasceu em 1926) com o lírico “Cálamo”, baseado em um conto de Jaroslaw Iwaszkiewicz. Poético, fala sobre a morte e a necessidade de se conviver com a possibilidade dela. Marta (Krystyna Janda), uma mulher de meia-idade, casada com um médico (Jan Englert) de uma pequena cidade, não sabe que tem uma doença terminal. Há anos chora a morte de seus dois filhos, massacrados no levante de Varsóvia. Ao conhecer o jovem Bogus (Pawel Szajda), encanta-se com sua juventude e inocência. Este encontro à beira de um rio coberto por cálamos é marcado pela fascinação recíproca de duas existências, onde uma caminha para o fim prematuro e a outra somente acaba de entrar na maturidade. “Cálamo” é também um filme sobre a criação de um filme, e a personagem principal não é somente a fictícia Marta, mas a atriz que a interpreta, com Wajda entrelaçando na narrativa um autêntico monólogo da extraordinária Krystyna Janda (a mesma de vários outros trabalhos do diretor) sobre a morte de seu marido Edward Klosinski, um reconhecido diretor de fotografia, ao qual este filme foi dedicado. Ele morreu durante as filmagens, que pararam, mas retornaram meses depois com depoimentos da atriz protagonista sobre a morte do parceiro. Considerado o maior cineasta polonês de todos os tempos, Andrzej Wajda estudou na Escola de Lodz (assim como Roman Polanski) e surpreendeu o mundo na década de 50 com a famosa trilogia formada por “Geração / Pokolenie” (1955), “Kanal / Idem” (1957) e “Cinzas e Diamantes / Popiól i Diament” (1958), cujo sucesso abriu as portas do cinema polonês para o mundo. Na França realizou os belos “Um Amor na Alemanha / Eine Liebe in Deutschland” (1083, com Hanna Schygulla), “Danton – O Processo da Revolução / Idem” (1983, com Gérard Depardieu) e “Os Possessos / Les Possedés” (1988, com Isabelle Huppert e Omar Sharif). Profundamente engajado politicamente, sem, no entanto, ser panfletário, o cinema de Wajda fez história. “Cálamo” demonstra que ele continua em plena forma. Não é a toa que está rodando “Walesa”.

dezembro 06, 2011

************* MELHORES FILMES de 2011

9º lugar para "A Pele Que Habito"

Se você é um grande fã de filmes, assim como eu, provavelmente já está preparando a sua tradicional lista dos MELHORES FILMES de 2011. Ao contrário de outros tempos, não tive nenhuma dificuldade para montá-la, afinal este ano foi marcado por um excesso de produções cinematográficas descartáveis, de olho exclusivamente na bilheteria. Como parâmetro para esta lista, usei filmes exibidos no Brasil (festivais, mostras, circuito ou lançados diretamente em DVD) nos últimos doze meses. O critério de escolha foi exclusivamente pessoal e por ordem de preferência. Sabemos que gosto é particular e que películas que ficaram de fora podem causar certa, digamos, celeuma. Ainda assim, sem mais delongas, vamos aos filmes.

01
A ÁRVORE DA VIDA 
(The Tree of Life, EUA, 2011)
de Terrence Malick

02
CONTRA CORRENTE 
(Contracorriente, Peru  / Colômbia / 
França / Alemanha, 2009)
de Javier Fuentes-Léon

03
MELANCOLIA 
(Melancholia, Dinamarca / Suécia 
/ França / Alemanha, 2011)
de Lars Von Trier

04
DOS HOMENS E DOS DEUSES 
(Des Hommes Et Des Dieux, França, 2010)
de Xavier Beauvois

05
PINA 
(idem, Alemanha/França
/Inglaterra, 2011)
de Wim Wenders

06
CÓPIA FIEL 
(Copie Conforme, França/ 
Itália/Bélgica, 2010)
de Abbas Kiarostami

07
O MÁGICO 
(L’Illusionniste, França/Inglaterra, 2010)
de Sylvain Chomet

08
O PALHAÇO 
(Brasil, 2011)
de Selton Mello

09
A PELE QUE HABITO 
(La Piel Que Habito, Espanha, 2011)
de Pedro Almodóvar

10
NÃO ME ABANDONE JAMAIS 
(Never Let Me Go, Inglaterra/EUA, 2010)
de Mark Romanek

OS MELHORES de 2011


Melhor Filme
A ÁRVORE DA VIDA
(Dede Gardner, Sarah Green, Grant Hill, 
Brad Pitt e Bill Pohlad /Brace Cove Productions, 
Cottonwood Pictures, Plan B Entertainment)

Melhor Diretor
TERRENCE MALICK (“A Árvore da Vida”)

Melhor Roteiro
JAVIER FUENTES-LÉON (“Contra Corrente”)

Melhor Fotografia
MANUEL ALBERTO CLARO (“Melancolia”)

Melhor Atriz
CHARLOTTE GAINSBOURG (“Melancolia”)

Melhor Ator
MICHEL PICCOLI (“Habemus Papam”)