novembro 28, 2011

*********** AGATHA CHRISTIE NO CINEMA


agatha christie 
Os seus livros venderam centenas de milhões de exemplares. Ela é a autora mais publicada de todos os tempos em qualquer idioma, somente ultrapassada pela “Bíblia” e por William Shakespeare. Escreveu oitenta romances policiais, dezenove peças e seis romances escritos sob o pseudônimo de Mary Westmacott. Ao morrer, deixou uma conta bancária com cerca de 20 milhões de dólares. A inventiva AGATHA CHRISTIE (1890-1976) foi pioneira ao fazer com que os desfechos de suas histórias fossem extremamente impressionantes e inesperados, sendo praticamente impossível ao leitor descobrir quem é o assassino. Britânica, conhecida como Duquesa da Morte e Rainha do Crime, dentre outros títulos, criou dois detetives exemplares: Hercule Poirot e Miss Marple. Poirot é um belga feioso, baixinho e com cabeça de ovo que usa de intuição e dedução para resolver seus crimes, sempre irritando os suspeitos, que o xingam de francês metido, ao qual ele responde: “Não. Belga metido”. Miss Jane Marple é uma idosa solteirona dona-de-casa que tem um raro faro policial. A obra instigante de AGATHA CHRISTIE foi sempre bem-vinda ao cinema, sendo retratada em cerca de trinta ocasiões. Mesmo assim, a autora não aceitou muito bem as versões cinematográficas de seus livros, especialmente as que contavam com seus dois mais notórios detetives: Poirot e Miss Marple. Mas o interesse da Sétima Arte nas tramas da Rainha do Crime começou cedo. Já em 1926 apareceu a primeira adaptação, um filme mudo alemão chamado “Die Abenteuer GmbH”, de Rudolph Walther-Fein, do livro  “O Inimigo Secreto”. A mais recente, baseada em “A Casa Torta”, ainda está sendo filmada sob a direção de Neil LaBute e com Julie Andrews, Matthew Goode, Gemma Arterton e Gabriel Byrne no elenco. A história gira em torno do assassinato de um milionário grego, que construiu a casa do título para que nela vivesse toda sua família. O caso é investigado pela neta mais velha em parceria com o namorado, o filho do inspetor chefe da Scotland Yard. Como é comum nos livros da autora, todos os presentes são suspeitos de ter cometido o crime.

12 VEZES A RAINHA DO CRIME

basil rathbone
AMOR DE UM ESTRANHO / Love From a Stranger (1937), de Rowland V. Lee. Com Ann Harding e Basil Rathbone.
Inspirado na peça de mesmo nome, que foi adaptada por Agatha Christie do conto “Philomel Cottage”, publicado em 1934. Uma jovem suspeita que o marido seja bígamo e assassino, e planeja matá-la para ficar com a herança. O diretor constrói uma atmosfera de angústia e terror realçada pelo irrepreensível desempenho de Basil Rathbone como um personagem frio e inalterável.

louis hayward, c. aubrey smith, barry fitzgerald, 
mischa auer e walter huston
O VINGADOR INVISÍVEL / And Then There Were None (1945), de René Clair. Com Walter Huston, Barry Fitzgerald, Louis Hayward, Roland Young, June Duprez, C. Aubrey Smith, Judith Anderson e Mischa Auer.
Adaptado da versão para o teatro de "O Caso dos 10 Negrinhos", escrita pela própria Agatha em 1943. Dez pessoas desconhecidas umas das outras são convidadas para um fim-de-semana em uma ilha incomunicável e uma a uma vão sendo mortas, enquanto a cada morte desaparece uma figura de um negro africano que enfeita o topo de uma lareira. No livro, todos morrem, inclusive o assassino. Agatha avaliou que a versão teatral precisava de um final mais feliz, então determinou que dois personagens sobrevivessem à experiência para construir uma vida juntos. O francês René Clair, em sua fase norte-americana, soube dosar humor e suspense, arrancando interpretações impecáveis de todo o elenco.

john hodiak
RECEIOS / Love From a Stranger (1947), de Richard Whorf. Com John Hodiak, Sylvia Sidney, Ann Richards e John Howard.
Remake hollywoodiano do filme inglês de 1937, com roteiro do escritor de livros de mistério Philip MacDonald. Inferior à obra de Lee, o resultado é lastimável, fracassando nas bilheterias. Como compensação, os ótimos Hodiak e Sidney.

marlene dietrich
TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO / Witness for the Prosecution (1957), de Billy Wilder. Com Tyrone Power, Marlene Dietrich, Charles Laughton, Elsa Lanchester, John Williams, Henry Daniell e Una O’Connor.
Acusado de matar uma senhora rica vai a julgamento, escolhendo um arrogante e inteligente advogado para defendê-lo, num enredo cheio de surpresas e reviravoltas. Com elenco magnífico e direção ardilosa, foi sucesso de crítica e público.

margareth rutherford
SHERLOCK DE SAIAS / Murder at the Gallop (1963), de George Pollock. Com Margareth Rutherford, Robert Morley e Flora Robson.
Em 1962, a MGM lançou uma série de quatro filmes estrelados por Miss Marple. Sucessos de público, eram odiados pela escritora. A começar pelos títulos, modificados totalmente apenas para ter mais apelo comercial. “After the Funeral / Depois do Funeral” se tornou “Murder at the Gallop” (aqui, Sherlock de Saias). Diferente do texto original, o caso era desvendado por Hercule Poirot. Substituído por Miss Marple, ela investiga a morte de um homem de meia idade. Após o enterro, a família se reúne em um clube de hipismo, onde surgem as primeiras insinuações de assassinato. 

anita ekberg
OS CRIMES DO ALFABETO / The Alphabet Murders (1966), de Frank Tashlin. Com Tony Randall, Anita Ekberg, Robert Morley e Margareth Rutherford.
Do livro “Os Crimes ABC”, publicado em 1936, essa produção adicionou elementos de comédia ao texto original. A trama básica foi mantida, mas as interpretações beiram à caricatura. Poirot às voltas com um assassino que mata pessoas cujos nome e sobrenome tenham a mesma inicial da cidade onde moram. Agatha não aprovou o primeiro roteiro, que continha muita violência e uma cena de amor de Poirot, apenas autorizando o filme depois da exclusão das cenas de violência e sexo, além da substituição do ator que havia sido originalmente escolhido para o papel principal, o comediante Zero Mostel.


NOITE INTERMINÁVEL / Endless Night (1971), de Sidney Gilliat. Com Hayley Mills, Hiwell Bennett, Britt Ekland, Per Oscarsson e George Sanders.
O romance homônimo publicado em 1967 conta sobre o casamento de um trabalhador com uma jovem herdeira e o mal que uma maldição cigana joga sobre eles. O filme segue basicamente o livro, mas a tentativa de deixar a história mais atrativa com cenas sexuais desagradou à autora.

albert finney
ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENT / Murder on the Orient Express (1974), de Sidney Lumet. Com Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Sean Connery, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark e Michael York.
Em um cenário extremamente restrito - um trem ilhado pela neve -, apoiou-se em interpretações marcantes de talentosos nomes do cinema. Apesar da maestria da direção, entre sete indicações para o Oscar, somente Ingrid Bergman levou o de Melhor Atriz Coadjuvante. Sucesso de público e crítica, baseou-se no romance de mesmo nome publicado em 1934. Fiel ao texto original, não poupou esforços para caracterizar o glamour da época, com figurinos impecáveis e vagões reais do Expresso Oriente como cenário. Na trama, Poirot procura descobrir o assassino de um milionário norte-americano em um trem luxuoso.

mia farrow e olivia hussey
MORTE SOBRE O NILO / Death on the Nile (1978), de John Guillermin. Com Peter Ustinov, Jane Birkin, Bette Davis, Mia Farrow, Jon Finch, Olivia Hussey, George Kennedy, Angela Lansbury, David Niven e Maggie Smith.
Com roteiro do dramaturgo Anthony Schaffer, o longa se manteve fiel à trama original, na qual uma jovem norte-americana milionária é morta em um barco de turistas que navega no rio Nilo, no Egito dos anos 20. Todos a bordo tem motivos para matá-la.  

vanessa redgrave
O MISTÉRIO DE AGATHA / Agatha (1979), de Michael Apted. Com Dustin Hoffman, Vanessa Redgrave e Timothy Dalton.
De um fato real, o filme fala do desaparecimento de Agatha Christie no auge de sua fama. Ela simplesmente some sem deixar qualquer pista, enquanto 550 policiais procuram-na por toda a Inglaterra. Destaque para a fotografia e os efeitos luminosos do mestre Vittorio Storaro e para o desempenho hipnotizante de Vanessa.

elizabeth taylor
A MALDIÇÃO DO ESPELHO / Mirror Crack’d (1980), de Guy Hamilton. Com Angela Lansbury, Edward Fox, Elizabeth Taylor, Geraldine Chaplin, Rock Hudson, Kim Novak e Tony Curtis.
Baseado no romance lançado em 1962, narra os esforços de Miss Marple em descobrir o assassino de uma mulher envenenada em uma festa beneficente promovida por uma estrela de cinema que filma na cidade.

maggie smith
ASSASSINATO NUM DIA DE SOL / Evil Under the Sun (1982), de Guy Hamilton. Com Peter Ustinov, Jane Birkin, James Mason, Roddy McDowall, Sylvia Miles, Diana Rigg e Maggie Smith.
Adaptado para as telas do romance homônimo publicado em 1941, manteve-se fiel ao original. Nele, a proprietária de um hotel, que fora uma atriz sem sucesso, recepciona os clientes, que, na maioria, tem algum relacionamento com o universo teatral. Todos são suspeitos quando um corpo é encontrado na praia.


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QUEM SE FOI

KEN RUSSELL

Responsável por imagens surrealistas e deslumbrantes, Ken Russell foi durante muitos anos considerado o enfant terrible do cinema britânico, devido ao modo irreverente como abordava temas como sexo e religião. Ele morreu esta semana, aos 84 anos de idade. Agressivo e cínico, autor de filmes perturbadores, por vezes ruins, mas nunca indiferentes, tornou-se conhecido por trabalhos marcantes como “Mulheres Apaixonadas / Women in Love” (1969), sua obra-prima, onde os atores Oliver Reed e Alan Bates protagonizam uma ambígua cena de luta, totalmente pelados. Por esse filme foi nomeado ao Oscar de Melhor Diretor, mas quem levou a estatueta foi a atriz protagonista Glenda Jackson. Logo a seguir gerou controvérsia com "Os Demônios / The Devils” (1971), proibido pela censura brasileira e norte-americana, um drama com cenas de exorcismo e nudez sobre o autoritarismo da igreja, inspirado num livro de Aldous Huxley e com Vanessa Redgrave no elenco. A homossexualidade de Tchaikovsky em “Delírio de Amor / The Music Lovers” (1970) também foi um escarcéu na época. Mas o diretor só se popularizou definitivamente com o musical "Tommy / Idem" (1975), baseado na ópera-rock do The Who e estrelado por Roger Daltrey, Ann-Margret, Elton John, Tina Turner, Eric Clapton e Jack Nicholson. Foi um imenso sucesso de bilheteira. Nascido em Southampton, Inglaterra, em 1927, iniciou a sua carreira como fotógrafo na BBC. Como cineasta, explorou uma fórmula básica - edição frenética, cenas chocantes, despudor, alguma histeria e notável senso cinemático -, escandalizando meio mundo. Ao envelhecer, controlou sua fúria criativa, passando a atuar e a dirigir filmes banais. Estava praticamente esquecido, mas é uma figura imprescindível para entender a modernidade do cinema europeu e sua relação com outras artes como a música clássica, a dança e a pintura. Um cineasta viril, inclassificável e fascinante.

novembro 27, 2011

********* LIV ULLMANN, A MUSA DE BERGMAN


liv ullmann
Representante fundamental da filmografia de Ingmar Bergman, a atriz sueca LIV ULLMANN, agora também cineasta de prestígio, recebeu prêmio honorífico na última edição do European Film Awards, em reconhecimento por sua excelência dramática em mais de quatro décadas e cerca de 50 filmes. Nascida casualmente em Tóquio, Japão, ela brilhou na juventude no Teatro Nacional Norueguês, de Oslo, interpretando Ofélia e Julieta (de William Shakespeare), Joana D’Arc (de Bernard Shaw) e personagens de Bertolt Brecht. Após modestos papéis no cinema, tornou-se com “Persona” (1966) – intitulado ridiculamente no Brasil como “Quando Duas Mulheres Pecam” – uma das intérpretes de maior prestígio do cenário cinematográfico internacional. Bergman utilizou a luz interior de LIV ULLMANN em mais oito filmes, culminando em 2003 com “Saraband”, continuação trinta anos depois do premiado “Cenas de Um Casamento / Scener ur ett Aktenskap” (1973). Em Barcelona, a sensível e simpática estrela falou de sua carreira vitoriosa, de Bergman e do seu mais recente projeto, a adaptação cinematográfica de “Casa de Bonecas”, de Henryk Ibsen. Aos 67 anos, de profundos olhos azuis, falando pousadamente com forte sotaque nórdico, a atriz transmite sabedoria, serenidade e vitalidade juvenil.

(Entrevista de Antonio Nahud, em Barcelona, publicada no jornal baiano “A Tarde”, em 21 de fevereiro de 2005)


Segundo consta, o seu primeiro encontro com Bergman, acompanhada por Bibi Andersson, deixou o diretor impressionado com a semelhança entre vocês, imaginando logo depois o enigmático “Persona”. É lenda ou realidade?

Realmente foi assim que aconteceu. Em “Persona” fiz uma atriz de teatro que repentinamente deixa de falar, num papel quase sem diálogos. Aos 28 anos de idade, eu não tinha a menor idéia do que o filme queria dizer. Olhava para Ingmar e sentia que a mulher que eu estava representando tinha muito a ver com ele: alguém muito famoso que não queria falar nem explicar nada sobre sua vida ou criação, escondendo-se atrás de uma fachada. Então, copiei sua expressão facial angustiada... Depois fizemos outros filmes. Creio que trabalhamos tanto tempo juntos porque eu não fazia perguntas, apenas seguia suas orientações.

Você tem uma filha com Bergman, a escritora Linn Ullmann, e ele a transformou em um dos rostos mais famosos do cinema. Poderia nos contar um momento íntimo de vocês?

Certa vez disse a Ingmar que ele era “um gênio”, enquanto que eu era somente “um talento”. A reação dele foi uma metáfora que eu nunca me esqueci: “Você é meu Stradivarius”. Foi o elogio mais comovente que alguém me disse em toda a minha vida. Essa relação honesta entre o maestro e sua solista aprofundou a nossa arte. Com ele aprendi que o grande artista é alguém que puxa um pouquinho o limite da verdade. Como a bailarina que salta e consegue ficar dois segundos além do possível no ar.

O que diz do último filme que fizeram juntos, o tocante “Saraband / Idem”, de 2003?

ingmar bergman e liv 
Eu abandonei o cinema como atriz em 1994, estava cansada de filmes medíocres, e tinha bem claro que só voltaria a atuar caso fosse convidada por Ingmar. O nosso reencontro foi natural, como regressar à terra natal. “Saraband” é um filme forte e autobiográfico, como todos os seus filmes, o que não quer dizer que sejam cópias de sua própria vida. Ele explora as horríveis relações entre pais e filhos, ainda mais dramática quando um deles não sabe pedir perdão. Quando foi filmar “Saraband”, Ingmar estava longe dos sets havia quinze anos. Novos métodos de filmagem, aos quais ele não estava acostumado nem se acostumaria, impediam que ficasse colado à câmera como sempre fez. Perdi aquele espectador privilegiado, fiquei perdida. Mas quando ele disse ação, tudo foi muito bem.

Bergman foi um extraordinário diretor de atrizes. Deu papéis maravilhosos para você, Harriet Andersson, Ingrid Thulin, Eva Dahlbeck e Bibi Andersson. Havia competitividade entre vocês?

Nunca. Bibi Andersson, que poderia ter me odiado porque ela era a favorita de Ingmar até que eu surgi, continuou sendo a minha melhor amiga. A verdade é que as mulheres são capazes de um grau de intimidade, cumplicidade e aceitação que os homens desconhecem.

liv em "os imigrantes"
Qual o filme de que sente mais orgulho?

Talvez “Os Imigrantes / Utvandrarna” (1971), de Jan Troell, em que fiz uma jovem camponesa obrigada pela miséria a fugir de sua terra natal, partindo para a conquista de territórios ainda virgens no meio-oeste norte-americano. O segundo, “Face a Face / Ansikte mot Ansikte” (1976), de Bergman.

Sempre desejou ser atriz?

Atuar é absolutamente uma extensão do que sou. Quando era muito jovem e vulnerável, não via a atuação como trabalho, e sim a paixão de uma adolescente que nunca foi a mais bela nem a mais popular da escola, divertindo-se ao fazer os melhores papéis em produções estudantis. Pouco a pouco, percebi que deveria levar a sério aquele ofício. Mas ainda hoje fico um pouco assustada com uma profissão nascida simplesmente no meu cotidiano para me dar prazer. Não sei como consegui sobreviver e ter uma vida familiar maravilhosa fazendo o que gosto. Atuar é uma alegria. Um bom ator ou um bom filme ajudam o espectador a ter consciência de si mesmo. Quando isso ocorre, as pessoas se sentem mais valorizadas e procuram fazer coisas importantes na vida.

Bergman, que odeia dar entrevistas ou revelar publicamente suas afeições, certa vez declarou que você é uma grande atriz. O que sentiu com esse comentário?

Sei que sou boa atriz, que tenho talento. Sei que Ingmar me considera uma grande atriz e também sei que ele é um gênio. Essa confiança mútua foi muito importante para o nosso trabalho. Ainda assim, não creio que eu seja melhor atriz do que muitas outras. Não sei porque ele me escolhia entre tantas outras mais talentosas, talvez porque eu seja uma pessoa de convívio fácil, tranqüila, sem atritos.



Em 1992 você estreou como diretora em “Sofie”. Fale um pouco sobre esse momento.

Quando as atrizes envelhecem recebem somente ofertas de papéis estúpidos, que não permitem transmitir nada, deixando de ser divertido atuar. Eu tive sorte e pude mudar de rumo, passei a dirigir. Creio que algo diferente aconteceu comigo com o passar do tempo. Minha vida entrou numa renovada época criativa. Quero dirigir muitos filmes e escrever muitos livros. Essa intensidade surgiu com meu sentido de mortalidade, da vida se que vai. Agora sinto que tenho algo para dar. Antes não tinha essa consciência.

Existe uma continuidade temática em seus filmes?

Com certeza. Creio que eles estão diretamente relacionados com a busca do amor. O amor desejado, o amor recebido e o amor que nos abandona.

com o elenco de "gritos e sussurros"
Dois deles têm roteiro de Bergman: “Enskilda Samtal” (1996) e “Infidelidade / Trolosa” (2000)...

Foi a pedido dele e eu fiquei muito comovida. Com eles provei que uma mulher pode narrar uma história de uma maneira muito distinta da versão masculina. Algumas idéias desses dois filmes são minhas e outras de Ingmar. Isso é o mais excitante no cinema: pode-se fazer diferentes interpretações de uma mesma história.

Seu próximo projeto cinematográfico como diretora é a revisitação do clássico teatral “Casa de Bonecas”....

Exato. Estou pronta para iniciar as filmagens, falta apenas finalizar uma coisa ou outra. Serei fiel ao texto de Ibsen. “Casa de Bonecas” narra a hipocrisia e convencionalismos da sociedade do final do século XIX. Nora salva a vida do marido doente graças a um empréstimo conseguido falsificando a assinatura de seu pai. Como conseqüência, a protagonista acaba abandonando o esposo e os filhos. Fiz a protagonista na Broadway, em 1975. Ao subir no palco, na pré-estréia, as feministas vibraram. Quando o pobre coitado que fazia meu marido, Sam Waterston, abria a boca, choviam vaias. Fiquei impressionada. É um texto muito atual.

com bibi andersson em "persona"
Quem fará Nora?

Kate Winslet. Pensei inicialmente na atriz australiana Cate Blanchett, que não pôde aceitar por estar grávida. Admiro o trabalho da Kate. Temos conversado por telefone e ela me disse que está impaciente para iniciar as filmagens. O seu marido, Torvald, será representado por John Cusack. O Stellan Skarsgard também está no elenco e possivelmente Tim Roth.

Nos anos setenta, você era um modelo a seguir: intelectual, independente e liberal. Por que sua carreira não deu certo em Hollywood?

Escolhi muito mal meus filmes. Porém, não foi uma experiência decepcionante. Diverti-me muito e ganhei dinheiro. As portas da Broadway se abriram e quando a aventura se acabou voltei à Europa e continuei trabalhando. Fui duas vezes indicada ao Oscar, e confesso ter ficado decepcionada com a derrota. Eu era jovem, ingênua e ambiciosa. Mas tudo caminhou bem, possivelmente se tivesse ficado em Hollywood seria uma dessas estrelas esquecidas com o rosto esticado e inexpressivo para agradar aos produtores.


Atriz, escritora, roteirista e diretora. Qual desses ofícios é o mais difícil?

Dirigir. Principalmente porque sou mulher. No meu primeiro filme, já tinha mais de 50 anos, e tentava ser simpática com todos, mas eles riam da minha ingenuidade. Depois de rodar cinco filmes, terminei por aprender: não tenho que ser dura, tenho que crer em mim mesma, evitando o complexo de ser uma mulher madura e me orgulhando disso.

Observação: O projeto “Casa de Bonecas”, que seria dirigido por Liv, não se concretizou. Uma pena.

jornal "a tarde", 2005

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CONFIDENCIAL

LIA TORÁ


Primeira brasileira a filmar em Hollywood, a bela carioca Lia Torá (1907–1972) inicialmente estudou dança em Barcelona, logo integrando o cast da Companhia Velasco de Teatro de Revista, que gozava de fama internacional. Numa turnê no Brasil, conheceu Júlio Moraes, herdeiro de uma das maiores fortunas do país. Ele era casado, mas acabou se separando e se casando com ela. Apesar de o esposo ser contra seus sonhos de atriz, em 1927 ela participou de um concurso patrocinado pela Fox Film no Brasil, cujo prêmio era participar em filmes daquele estúdio. Sua beleza física e fotogenia - tinha olhos verdes - fizeram com que, morando na Suíça com o esposo, recebesse uma carta da Fox informando que ficara em primeiro lugar no concurso, ao lado do repórter Olympio Guilherme. Ao chegar em Hollywood, adotaria o pseudônimo de Lia Torá. Em 1927, faria sua estréia na comédia "The Low Neck", um curta-metragem com direção de Walter MacDonald. O filme não foi exibido no Brasil. No ano seguinte interpretaria pequenos papéis em "Anjo das Ruas / Street Angels", de Franz Borzage, e "Dry Martini", de Harry d'Abbadie d'Arrast. Somente em 1929 teve sua grande chance protagonizando “A Mulher Enigma / The Veiled Woman”, dirigido por Emmett J. Flynn. Em 1930, ela e seu partner Olympio Guilherme participaram como Mestres de Cerimônia no lançamento de "King of Jazz", de Michael Curtiz. Em 1931, trabalhou em "Don Juan Diplomático”, de George Melford, e “Eran trece”, ao lado de outro brasileiro, Raoul Roulien. Com a chegada do cinema falado, a carreira de Lia Torá foi condenada ao ostracismo. Ela dominava o espanhol e o francês, mas inglês não era o seu forte. Percebendo que seu espaço estaria reduzido a partir daquele momento, fundou sua própria companhia, produzindo "Hollywood, Ciudad de Ensueño" (1931), de George Crone. Este foi o ponto final de sua carreira, logo voltando a ser novamente Horácia Moraes - seu nome real - e se dedicando as corridas automobilísticas, sua outra paixão. Em 1971, um ano antes de morrer, teve uma participação especial como atriz na produção de Brás Chediak, "As Confissões de Frei Abóbora".

novembro 26, 2011

******* OS MELHORES ATORES BRITÂNICOS


james mason

Hollywood sempre teve no Reino Unido uma fonte inesgotável de matéria prima artística. Com tradição teatral shakespeariana, os intérpretes da Inglaterra impressionam pela densidade dramática e versatilidade, roubando quase sempre a cena. É exemplar a resposta de Laurence Olivier a Marlon Brando quando este perguntou quantos horas ele precisava para assumir o caráter de Hamlet, um personagem atormentado. Brando vinha da escola do Actor´s Studio, onde o ator mergulha no personagem e o assume como se fosse o próprio, um método ensinado por Lee Strasberg e que virou moda entre os atores norte-americanos. Oliver respondeu: “Não perco nenhum minuto em ser Hamlet, eu apenas represento, é muito mais fácil”. Os ATORES BRITÂNICOS têm em cena uma presença clássica, impecável e invejável. É infindável a quantidade e a qualidade deles, tornando super difícil selecioná-los numa lista reduzida de favoritos (e por ordem de preferência). Deixei de lado atores magníficos como Michael Caine, Ralph Richardson, Paul Scofield, Charles Chaplin, Herbert Marshall, Cary Grant, Robert Donat, Oliver Reed, David Niven, Robert Newton e Peter Sellers. Também não coloquei no páreo atores contemporâneos como Jeremy Irons, Ben Kingsley, Anthony Hopkins, Daniel Day-Lewis, Gary Oldman, Ralph Fiennes, Jude Law e James McAvoy. Qual a sua opinião?

(01)
CHARLES LAUGHTON
(1899-1962)

(02)
LAURENCE OLIVIER
(1907-1989)

(03)
REX HARRISON
(1908-1990)

(04)
ALEC GUINNESS
(1914-2000)

(05)
ALBERT FINNEY
(n. em 1936)

(06)
JOHN GIELGUD
(1904-2000)

(07)
RONALD COLMAN
(1891-1958)

(08)
DIRK BOGARDE
(1921-1989)

(09)
JAMES MASON
(1909-1984)

 (10)
PETER FINCH
(1916-1977)

(11)
ALAN BATES
 (1934-2003)

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O QUE ESTÁ FAZENDO

DUSTIN HOFFMAN


O ator Dustin Hoffman, ganhador de dois prêmios Oscar de Melhor Ator (por "Kramer vs. Kramer / Idem", 1979, e "Rain Man / Idem", 1988), estreia como diretor aos 74 anos com o filme "Quartet", baseado em uma peça de teatro de Ronald Harwood e com um elenco de veteranos atores britânicos. A produção começou a ser gravada recentemente no sul da Inglaterra, em Buckinghamshire, e conta a história de três cantores de ópera aposentados que vivem em um asilo dedicado a esse tipo de profissional. A rotina dos personagens muda com a chegada de uma nova moradora no local. No elenco, os veteranos Maggie Smith ("Assassinato em Gosford Park / Gosford Park", 2001), Tom Courtenay ("Doutor Jivago / Doctor Jhivago”, 1965), Michael Gambon, Billy Connolly e Pauline Collins, conhecida por seu papel em "Shirley Valentine / Idem" (1989). Dustin Hoffman queria que um dos papéis principais ficasse com Albert Finney, de 75 anos, mas o ator se encontra filmando “Skyfall”, de Sam Mendes, ao lado de Ralph Fiennes, Javier Bardem e Judi Dench. Produzido pelo próprio ator, o filme é financiado pela BBC Films, DCM Productions e Decca. O roteiro é do próprio autor da peça de teatro, Harwood, roteirista também do premiado "O Pianista / The Pianist" (2002). A estréia está prevista para o segundo semestre de 2012, nos Estados Unidos.

novembro 21, 2011

******* AS MELHORES ATRIZES BRITÂNICAS


merle oberon
A Inglaterra sempre colaborou com estrelas no mercado cinematográfico mundial. Elas se tornam eternas, principalmente pela qualidade dramática de suas interpretações. Recentemente, o conceituado jornal britânico “Times” fez uma pesquisa, elegendo “As Melhores ATRIZES BRITÂNICAS de Todos os Tempos”. Maggie Smith ocupa o topo da lista, ficando a senhora Tim Burton, Helena Bonham Carter, em segundo lugar. A publicação lembrou também Julie Andrews, Helen Mirren e Dame Judi Dench, entre outras. Como tenho fascínio por listas, criei a minha, por ordem de preferência. Deixei de fora sensacionais atrizes inglesas de hoje – Kate Winslet, Kristin Scott Thomas, Tilda Swinton, Helen Mirren e a própria Bonham Carter -, situando-me no universo clássico. A polêmica está lançada. Confira, revelando suas favoritas.

01
JULIE CHRISTIE
(nasceu em 1941)

02
MERLE OBERON
(1911 – 1979)

03
JEAN SIMMONS
(1929 – 2010)

04
DEBORAH KERR
(1921 – 2007)

05
WENDY HILLER
(1912 – 2003)

06
FLORA ROBSON
(1902 - 1984)

07
VANESSA REDGRAVE
(nasceu em 1937)

08
MAGGIE SMITH
(nasceu em 1934)

09
CHARLOTTE RAMPLING
(nasceu em 1946)

10
CLAIRE BLOOM
(nasceu em 1931)

11
GLENDA JACKSON
(nasceu em 1936)