outubro 30, 2011

** QUIZ SHOW Nº 3: JANE FONDA & PAUL NEWMAN


jane fonda
De sex symbol nos anos 60, passando por ativista política (contra a guerra do Vietnã e pelas minorias) na década de 70 e, por fim, guru da boa forma, a carreira cinematográfica da moderna e desafiadora JANE FONDA (n. em 1937) foi marcada pelo inconformismo. Premiada com dois Oscars, nunca teve que vencer grandes obstáculos para se tornar uma atriz de sucesso. Além do talento e da beleza sensual, nasceu rica e teve a seu favor a força do sobrenome de seu pai, o lendário Henry Fonda – com quem tinha uma relação tensa. Depois de 29 anos nas telas, abandonou o cinema em 1989, sempre como elogiada protagonista. Nos últimos anos, voltou a filmar, infelizmente optando por comédias despretensiosas. Cabelos loiros, pele bronzeada, quase dois metros de altura e um ar gozador reforçado pelos olhos muito azuis, PAUL NEWMAN (1925-2008) surgiu na década de 50 como um Marlon Brando de segunda categoria. Mas soube firmar seu tipo charmoso e inquieto, transformando-se num dos atores mais queridos da história do cinema. Atuou em mais de 60 filmes e recebeu 10 indicações ao Oscar, vencendo em 1986 por “A Cor do Dinheiro / The Color of Money”. Jane e Paul são os protagonistas do nosso teste de conhecimentos cinematográficos nº 3. Quem acertar o maior número de perguntas será contemplado com dois DVDs (cópias) dos artistas sabatinados. Caso haja empate, vence quem respondeu em primeiro lugar. As respostas serão reveladas na edição/postagem da edição seguinte. Você sabe tudo sobre eles? Tudo mesmo? Tem certeza? Então prove e participe do QUIZ. Caso não saiba tudo, arrisque, talvez a sorte bata na sua porta. É só começar a responder.


(01)
O primeiro papel de destaque de Newman, o lutador de boxe Rocky Graziano em "Marcado pela Sarjeta / Somebody up There Likes Me", de 1956, foi originalmente escrito para...

A  Montgomery Clift
B  Marlon Brando
C  James Dean
D  John Derek

(02)
No início da carreira, Jane já tem uma grande preocupação: não quer ser confundida com mais uma loura burra e sensual. Por isso aceitou o papel oferecido por George Cukor em “A Vida Íntima de Quatro Mulheres / The Chapman Report” (1962). Qual a principal característica da personagem?

A  Intelectualidade
B  Frigidez sexual
C  Moralismo conservador
D  Independência

(03)
Qual o filme que Newman considera “um lixo, o pior que fiz na minha carreira”?

A  “O Cálice Sagrado / The Silver Chalice” (1954)
B  “Com Lágrimas na Voz / The Helen Morgan Story” (1957)
C  “A Delícia de um Dilema / Rally’s Round the Flag” (1958)
D  “Lady L / Idem” (1965)

henry e jane fonda
(04)
Em 1964 ela partiu para a conquista da Europa, onde se tornaria a musa e a estrela de Roger Vadim. Com um apelo erótico que incluía cenas de nudez nos seus filmes, Jane passou a ser conhecida como a “Brigitte Bardot norte-americana”. Antes de se casar com Vadim teve um famoso caso com um ator francês. Falo de:

A  Jean-Claude Brialy
B  Jean Sorel
C  Maurice Ronet
D  Alain Delon

(05)
Qual o personagem de Newman que abriu caminho para os anti-heróis rebeldes e inconformados interpretados por atores como Steve McQueen e Warren Beatty?

A   Ben Quick em “O Mercador de Almas / The Long Hot Summer” (1958)
B   Eddie Felson em “Desafio à Corrupção / The Hustler” (1961)
C   Hud Bannon em “O Indomado / Hud” (1963)
D   Luke em “Rebeldia Indomável / Cool Hand Luke” (1967)

(06)
Qual o filme que consolidou a carreira de Jane, resultando no seu primeiro estrondoso sucesso?

A  “Dívida de Sangue / Cat Ballou” (1965)
B  “O Incerto Amanhã / Hurry Sundown” (1967)
C  “Descalços no Parque / Barefoot in the Park” (1967)
D  “A Noite dos Desesperados / They Shoot Horses, Don’t They?” (1969)

paul newman e joanne woodward
(07)
As filmagens de “Cortina Rasgada / Torn Curtain” (1966) foram difíceis, marcadas com discussões freqüentes entre Newman e o diretor Alfred Hitchcock. Qual o motivo do desentendimento?

A  Hitch queria transformar o galã num novo Cary Grant
B  Hitch não aceitava a técnica de interpretação do ator fundada no Actor’s Studio
C  Newman não se deu bem com a estrela Julie Andrews
D  Newman não concordava com o rumo do seu personagem

(08)
No final dos anos 60, exibindo uma nova imagem, Jane deu uma série de entrevistas provocativas à imprensa declarando uma guerra ao pai e ao irmão Peter. De Peter, também ator, disse: “É um eterno desajustado à procura de si mesmo”. Como definiu o pai?

A  Pai ausente
B  Egoísta
C  Infeliz e frustrado
D  Mulherengo

(09)
A mulher de Newman, a atriz Joanne Woodward, é sua única paixão conhecida, além das cervejas em lata, carros de corrida e causas humanitárias. Em 1968 ele a dirigiu no elogiado “Rachel, Rachel / Idem”. Por que resolveu se enveredar pela direção?

A  O papel-título era um sonho antigo de Joanne
B  Os diretores convidados recusaram o filme por achá-lo pouco comercial
C  Newman tinha uma atração por essa atividade
D  Foi estimulado pelo roteirista Stewart Stern


(10)
Procurando direcionar seu trabalho de atriz com suas posições políticas, Jane recusou atuar em dois filmes que teriam grande êxito...

A  “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas / Bonnie & Clyde” e “O Bebê de Rosemary / Rosemary’s Baby”
B   “Adivinhe Quem Vem para Jantar / Guess Who’s Coming to Dinner” e “Um Clarão nas Trevas / Wait Until Dark”
C  “A Primeira Noite de um Homem / The Graduate” e “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas”
D  “Um Clarão nas Trevas” e “O Bebê de Rosemary”

(11)
Em junho de 1969, então considerado o astro de maior bilheteria da época, Newman fundou uma produtora para realizar os seus próprios filmes. Quem eram os seus sócios?

A  Faye Dunaway e Jack Nicholson
B  Robert Redford e Warren Beatty
C  Barbra Streisand e Sidney Poitier
D  Steve McQueen e Natalie Wood

(12)
Profundamente condicionada por sua luta política, a carreira de Jane Fonda chegou a um impasse em 1973, com todas as portas se fechando para ela. Qual o filme que representou o seu renascimento diante das câmeras?

A  “O Pássaro Azul / The Blue Bird” (1976)
B  “Adivinhe Quem Vem Para Roubar / Fun with Dick and Jane” (1977)
C  “Júlia / Idem” (1977)
D  “Amargo Regresso / Coming Home” (1978)

(13)
Nos anos 80, Jane foi eleita a segunda mulher mais influente dos Estados Unidos, depois de Katherine Graham (editora do jornal “Washington Post” e da revista “Newsweek”). Nessa mesma época, bateu todos os recordes de honorários pagos a uma estrela: cobrou 2 milhões de dólares e mais uma parte dos lucros por um único filme. Qual foi ele?

A  “Como Eliminar seu Chefe / Nine to Five” (1980)
B  “Amantes e Finanças / Rollover”(1981)
C   “Agnes de Deus / Agnes of God” (1985)
D  “A Manhã Seguinte / The Morning After” (1986)





******

QUEM SE FOI


LEON CAKOFF


O criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo morreu este mês, aos 63 anos. Ele lutava desde o ano passado contra um câncer no cérebro. Leon Cakoff nasceu na Síria, em 25 de junho de 1948, vindo para o Brasil com a família aos oito anos e formando-se pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Por problemas com o regime militar, adotou o pseudônimo Cakoff, que nunca mais abandonou. Ele começou sua carreira em 1969, como jornalista, e depois crítico de cinema nos Diários Associados. A partir de 1974, dirigiu o Departamento de Cinema do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e iniciou a programação de mostras e ciclos no museu. Em 1977, para comemorar os 30 anos do Masp, criou a 1ª Mostra Internacional de Cinema. Desde a primeira edição, ele travou uma luta ferrenha contra a censura imposta pelo regime militar, trazendo filmes até por meio de malas diplomáticas de embaixadas e consulados. Foi assim que a Mostra exibiu filmes inéditos vindos da China, Cuba, União Soviética, França e dos mais distantes países. A partir de 1984, Leon desligou-se do Masp e carregou consigo o evento. Ao longo dos 35 anos de Mostra, introduziu no Brasil o cinema de excelentes autores que de outra forma não teriam chegado ao público nacional. Muitos grandes diretores passaram pela Mostra: o espanhol Pedro Almodóvar, em 1995 com “A Flor do Meu Segredo”; o norte-americano Dennis Hopper, que veio a São Paulo em 1984 apresentar “O Último Filme”; o alemão Wim Wenders, que veio a São Paulo na 32ª e na 34ª Mostra; o diretor de fotografia mexicano Gabriel Figueroa, que trabalhou com John Huston e Luís Buñuel, convidado da 19ª Mostra, em 1995; o iraniano Jafar Panahi, hoje mantido em prisão domiciliar pelo governo do Irã; o sérvio Emir Kusturica e o finlandês Aki Kaurismaki, entre tantos outros. Leon Cakoff dirigiu os curtas “Volte Sempre Abbas” (1999) e “Natureza-Morta” (2004), ambos em parceria com Renata de Almeida, e “Esperando Abbas” (2004). Ele também escreveu os livros “Gabriel Figueroa – O Mestre do Olhar”, uma entrevista com o mexicano; “Ainda Temos Tempo”, com crônicas de viagem ligadas a cinema; “Cinema Sem Fim”, com a história dos 30 anos da Mostra; e “Manoel de Oliveira”, uma longa entrevista sua com o cineasta português. Durante 22 anos foi casado com Renata de Almeida, atual diretora da Mostra. Ela dirige a Mostra a seu lado desde a 13ª edição do evento, em 1989.

outubro 28, 2011

********** GARBO, A BIOGRAFIA AUTORIZADA


O MISTÉRIO DA MAIOR DE TODAS AS ESTRELAS 

(em livro alentado de Barry Paris)

Enquanto existir uma coisa chamada Cinema e outra, o cinéfilo, livros sobre GRETA GARBO não deixarão de sair. Dentre os que li, existentes no mercado, creio que o mais completo, substancial (e contraditório, como não poderia deixar de ser) é “Garbo / idem” (1995), de Barry Paris, pela editora Nova Fronteira. São 554 páginas para o admirador de Garbo ficar satisfeito e, ainda assim, pedir mais. A capa e a contracapa do livro trazem fotos tão belas de Garbo que o fã corre o risco de comprar o calhamaço, como muitos, só pela sedução que as fotos exercem. Se for do tipo superficial, que mais exibe do que lê livros, ficará contente, mas, se exigir mais, terá uma decepção com o que há lá dentro – as fotos internas, embora de importância histórica e documental inegável, são em geral reproduções de qualidade bem duvidosa. O livro acaba valendo de fato pelo que Barry Paris escreveu.

Mas, no caso de biografias de astros e estrelas de cinema, o fenômeno básico do “star system” – o da idolatria cega do espectador a seus deuses– continua em pé. Duvido que alguém que gostasse de, por exemplo, Lana Turner, e que fosse dotado de algum discernimento literário, pudesse apreciar o que a estrela escreveu sobre si mesma (com auxílio de algum “ghost writer”, sem dúvida alguma) num livro da Francisco Alves chamado “Lana”, ainda encontrável em sebos. Leu como fã, e nada mais. Leitura de fã é sempre apaixonada, uma espécie de consumo vicioso, e os livros desse tipo são consumidos sem muita exigência de que o escritor seja bom. Basta ser competente, na linha dos artesãos meticulosos, pesquisadores profissionais e jornalistas que conhecem seu ofício que a América oferece aos montes. Ninguém se importa muito com a qualidade literária da biografia das estrelas, na verdade, já que amá-las parece ser uma coisa que forçosamente implica em fraquezas e complacências. Como cinéfilo, tenho dessas fraquezas desculpáveis à luz da paixão, acumulando um bom número de livros sobre atrizes e atores cuja qualidade está entre o dúbio e o razoável, quando não é ruim mesmo, como o tal livro autobiográfico de Lana Turner. Nos anos 70 e 80, livros desse tipo foram saindo sem cessar, pela Francisco Alves e outras editoras – sobre Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Vivien Leigh, Elizabeth Taylor etc. Fazem sucesso até hoje, mas só são encontráveis nos sebos virtuais ou nos bons sebos reais de grandes cidades.

O autor de “Garbo”, Barry Paris, teve muito cuidado em seu empreendimento – um monte de gente é citada, agradecimentos aos depoimentos recolhidos são feitos em profusão e o livro tem um ar digno e convincente. Mas, há algo com as biografias de estrelas que é sempre paradoxal: queremos saber muito, mais, mais, mais, queremos saber toda a verdade (se tal é possível), juramos exigir qualidade e rigor, mas ao mesmo tempo, estamos dispostos, por paixão, a ignorar as manipulações, adulterações, conciliações, remendos, que podem ter sido feitos pelos biógrafos – estamos ávidos por bisbilhotices saborosas, historinhas que nunca, na verdade, poderão ser comprovadas, detalhes engraçados, grotescos, comoventes. Em suma, todo mundo, ao ler um livro desses, é suspeito: suscetível de ser alimentado por mentiras ou fatóides, está na verdade se curvando ao ídolo, a um objeto de devoção – e o ídolo desperta um apetite pela irracionalidade que pode ser despudorado e sem limites. A verdade – onde será que mora essa senhora mesmo? – conta pouco, nesses casos.


TEMOR À IDOLATRIA

Curiosamente, GARBO foi vítima precisamente disso, em toda a sua vida. Vítima dessa idolatria que sufoca, que interroga desesperadamente, que quer entrar em todos os poros do idolatrado, não deixar um respiradouro para o ser humano, para a pessoa assustada e frágil que pode existir por debaixo do mito. Essa curiosidade (que nada tem de inofensiva, que pode ser doentia e violadora) sempre a apavorou. No livro de Paris, que resumirei dentro do possível, ela surge como uma moça de grande beleza não lapidada (bem gordinha, aliás, e com dentes tortos), ao chegar a Hollywood, levada pelo diretor sueco Mauritz Stiller, foi “reformatada” pela Metro para se tornar a divina Garbo que o mundo conheceu e amou. Com atos e perguntas ingênuos, que despertavam risadas, falando Inglês com dificuldade, simplória como uma camponesa sueca sob muitos aspectos, ficou isolada em Hollywood, detestando o sol e o calor da Califórnia, morrendo de saudades da Suécia. Molhava-se o tempo todo, para combater o calor, e sonhava com neve (ver, a este respeito, a volúpia com que se cobre de neve em “Rainha Christina/ Queen Christina”, 1933).

Mauritz Stiller, o diretor que a levou, era um homem famoso na Europa e não gostou do sistema americano, pois os produtores não simpatizaram com seu excesso e, além disso, era homossexual, envolvia-se liberalmente com rapazes, ignorando o puritanismo da América. Resultado: acabou voltando para a Suécia sem fazer filme algum e morreu esquecido. Sem seu mentor, solitária, GARBO ficou em Hollywood como um alienígena perdido em planeta estranho e foi obrigada a construir sua carreira com dramalhões em geral horrorosos. Ela detestava tudo aquilo e, forçada a adaptar-se aos modelos publicitários dos estúdios da Metro, foi aos poucos rebelando-se contra toda aquela hipocrisia puritana, alimentada por fuxicos sádicos. Recolhia-se, esquivava-se. Como se tornou um grande sucesso, aprendeu a fazer as coisas à sua maneira e a impor seu temperamento difícil. A “griffe” Garbo, no final dos anos 20 e nos anos 30, passou a incluir a recusa obstinada à publicidade. Era uma aversão verdadeira, e foi tomada como pose. Mas, ela estava envolvida em contradições insolúveis – ser uma estrela de cinema amada pelo mundo inteiro e ao mesmo tempo uma eremita é coisa para enlouquecer.

É muito boa a parte do livro que cuida de sua infância, quando Barry Paris a mostra como uma menina que parecia ter consciência de que era predestinada a ser uma rainha solitária e mostrava já um enorme medo da fama. Isso não parece charme nem teoria romanesca com fumaça de misticismo adequada à mitificação – Garbo parecia mesmo patologicamente sensível à superexposição, e, mesmo com uma vaidade humanamente compreensível, nunca se reconciliou com os preços concretos e inevitáveis decorrentes da fama. Sofreu com essa situação mais que qualquer outra estrela que se conheça, pois foi a mais famosa de todas. Esse é seu maior enigma, e parece uma brincadeira particularmente cruel do Destino que uma mulher tão fóbica a essas coisas tenha se tornado a criatura mais famosa (e exposta) do planeta. 


Quanto aos filmes, alguém escreveu que GARBO passava por eles como uma condessa fazendo visita a uma favela. E é verdade: a maior parte são peças de museu que não merecem reverência, embaladas pela música de certo Herbert Stothart, compositor da Metro que roubava escandalosamente melodias de Tchaicovksy. Seus galãs foram, no mais das vezes, atores fracos, quando não canastrões inaceitáveis. Os únicos filmes dela que se salvam são “Rainha Cristina”, “Ninotchka / idem” (1939) e “A Dama das Camélias / Camille” (1936), porque, tivessem quantos defeitos tivessem, ajustavam-se feito luva à sua personalidade. Há também a sua interpretação marcante para a heroína de Tolstoi em “Anna Karenina / idem” (1935), em que parece amar mais o filho que o amante (o conde Vronski, vivido por Fredric March) e está soberba como a grande suicida. Teria sido uma Emma Bovary perfeita, mas, quando Hollywood lembrou-se de filmar a heroína de Flaubert, confiou-a a Jennifer Jones num filme de Vincente Minnelli que ficou esquecido.

Sua carreira termina nos anos 40, com o fracasso de uma comédia, “Duas Vezes Meu / Two-Faced Woman” (1941), que parece nem ser lembrada no Brasil (ou em qualquer outro lugar do mundo), quando foi dirigida por George Cukor. Já erguera sua fama dúbia – diziam-na lésbica, mas nada se provava, embora tivesse muitas amigas homossexuais e gostasse de ser cortejada por elas. A Metro inventou que tinha um caso com o galã John Gilbert (risível em “Rainha Cristina”), e ele na certa esteve apaixonado por ela, mas Garbo era avessa ao casamento, avessa a ligações, e sempre foi assim – parecia querer ser amada, mas a ideia de intimidade constante, regular, a apavorava. Os casos mais ou menos públicos que teve foram célebres – com o maestro Leopold Stokowski e com o fotógrafo Cecil Beaton. Beaton era homossexual assumido e talvez por isso não a incomodasse muito (a agressividade que ela supunha ser inseparável dos homens heterossexuais a apavorava). Mas ele foi oportunista com ela, mais que a amou: fotografou-a e divulgou fotos sem a sua aprovação, e ela nunca o perdoou por isso. Traiu-a no que mais prezava: sua privacidade, a divulgação de sua imagem não-pública. 


GARBO temia essas coisas de maneira instintiva, quase primitiva, como algumas tribos indígenas que sempre acharam que as máquinas fotográficas roubariam as suas almas. Tudo indica, a partir de Gilbert, Stokowski e Beaton, que foi bissexual, mas sem entusiasmo. Referia-se a si mesma, na intimidade com as amigas “entendidas”, como um homem, de vez em quando: “O garoto aqui fez isso... o garoto aqui fez aquilo.” Lançou uma moda andrógina, andava de calças masculinas, gostava de atitudes mais masculinas que femininas, pediu a Aldous Huxley, ninguém menos, que escrevesse um roteiro sobre a vida de São Francisco de Assis para ela – queria interpretar o santo, usando um bigode. Era uma grande caminhante, adepta do vigor físico com certo fanatismo, mas, a rigor, era tudo e nada, sexualmente.

LONGE DAS TELAS, QUEM FOI GARBO?

Quando se afastou do cinema, era já uma mulher muito rica (e com fama de sovina). Aí, afastada da tela, Garbo reassume, segundo Paris, uma personalidade um pouco árida superestimada pelo fato de ser uma reclusa, de ter sido quem foi. Volta e meia ameaça voltar às telas com roteiros que lhe são oferecidos por dezenas de diretores e produtores que a veneram, mas não volta. Dedica-se aos amigos (muito ricos, em geral) e a uma vida em fuga aos repórteres, fãs, revistas, jornais, televisões – sempre apavorada com ser reconhecida, multiplicando pseudônimos, arranjando endereços e números de telefone a que raríssimos tiveram acesso. Passará a sua vida, envelhecerá, como uma criatura “à deriva” (ela mesma dizia isso), contando com a cumplicidade dos amigos milionários para continuar esquiva, escondendo-se na Suiça, andando pelas ruas de Nova York como uma transeunte comum, debaixo de roupas sem graça e óculos escuros. É onde o livro começa a pintar uma mulher mais para antipática. 


Garbo chega a nos parecer uma egomaníaca insuportável, abusiva com os amigos de quem exige códigos, mudanças de comportamento, dezenas de concessões e ajustamentos para que não seja perturbada, para que os importunos não apareçam. Não desperta simpatia essa ociosa que decide viver numa vadiagem sem sentido, abastecida por uma conta bancária segura, pelo resto da vida. Parece uma solteirona neurótica, desocupada e com mania de dietas, remédios, de frequentar charlatões “esotéricos” etc. É dada a rompantes de generosidade, mas, em geral, como toda pessoa muito rica, tem um culto doentio ao dinheiro pelo dinheiro, e com um jeito de velha avarenta, egoísta, ranzinza, que não gostaríamos de ter como vizinha. Mas essa impressão pode não fazer muito sentido. No entanto, é louvável que Paris tenha adotado, em sua biografia, uma linha de investigação que não é reverente em excesso, podendo pintar também as contradições e facetas menos agradáveis de uma mulher tão mundialmente adorada.

GARBO fora das telas não podia se queixar: teve idólatras e fãs embasbacados até o fim da vida. Carregou para o seu pequeno círculo privado a adulação pública que teve na Metro, nos anos de cinema. Fugia a ser paparicada, mas, contraditoriamente, gostava bastante disso. O que queria era ser paparicada de um modo muito peculiar, segundo um código pessoal bastante restrito. O que há de poesia, nessa árida segunda parte do livro, é uma confissão patética: saía de casa em Nova York e se punha a seguir qualquer pessoa desconhecida na multidão, indo onde a tal pessoa escolhida fosse, apenas para fazer de conta que possuía um objetivo, um rumo, confundindo-se com uma humanidade de que sempre procurou ficar distante. Nessas perambulações, era reconhecida por muita gente – outros famosos, como o escritor Truman Capote. Faziam parte de um grupo informalmente conhecido como os “Vigilantes de Garbo”. Há uma grande beleza nisso – gente que protege a solidão de um mito das implacáveis investidas e da curiosidade estúpida do mundo. E morreu assim, com pouca gente por perto, sem voltar ao cinema, rarefeita, só lembrada pelo rosto e por ter sido o único encanto (aliás, eterno) de muitos filmes ruins.

“Garbo” junta muito material contraditório e é um pouco cansativo, apesar de detalhado e bem escrito. É o livro mais completo existente sobre a estrela no mercado brasileiro. E reconheço que, quem não a admire muito, não poderá ser criticado pela falta de paciência para ir até o fim com a leitura. Mas, vale a pena comprá-lo, nem que não seja para lê-lo. Muita gente ficará satisfeita só de olhar para a capa e a contracapa. Um rosto como aquele, difícil haver outro. Clarice Lispector carregava consigo uma fotografia de GARBO, diz sua biógrafa Olga Borelli. Faz sentido. Olhar para ela é olhar para uma belíssima pergunta, das muitas que a escritora formulou. Sem resposta possível.

Texto de CHICO LOPES


outubro 27, 2011

********** SALA VIP: “AMARGO PESADELO”


burt reynolds e jon voigt
Não há heróis nesta história. Nem mesmo o formoso rio Cahulawassee, que está prestes a ser extinto em nome do progresso, devido a construção de uma gigantesca represa. A sua violência natural é tão assustadora e crescente que aniquila qualquer identificação com o espectador. Burt Reynolds, marcado por papéis heróicos, desta vez é um inconformado se rebelando contra a vida moderna, mas não encontra saída na sua própria imprudência (situação parecida vivida por Robert De Niro em “Taxi Driver / Idem”, 1976, e Edward Norton em “Clube da Luta / Fight Club”, 1999). É dele a ideia da aventura selvagem. “Não há riscos”, garante. Seus três amigos ingênuos e conformados com a domesticação capitalista, mesmo não tão ansiosos em relação ao perigo, topam a suposta diversão. A intenção deles é descer de canoa as corredeiras do arrebatado rio e acampar nas encostas, num fim de semana em contato com a natureza. Jamais imaginariam que trilhariam o caminho do coração das trevas, sendo testados, agredidos e ameaçados constantemente.

cox, voight, beatty e reynolds
billy redden
O argumento de AMARGO PESADELO se centra nesses quatro amigos suburbanos, de classe média. Lewis (o canastrão Burt Reynolds, no auge de sua exuberância sexual) é o valentão audacioso; Ed (Jon Voight), o sujeito tranqüilo, certinho e inseguro; Bobby (Ned Beatty), o típico gorducho fanfarrão, algo estúpido; e, por fim, Drew (Ronny Cox), músico sensível repleto de princípios e moralidade. No início, parece uma aventura corriqueira com homens desafiando águas furiosas, mas a adrenalina pueril se transforma num desafio pela sobrevivência, resultando em sequelas morais e emocionais. Nenhum deles jamais será o mesmo depois dessa estranha façanha. O roteiro sólido e simples, que beira a perfeição, cresce ao retratar personagens de personalidades contrastantes, que, diante de contratempos, reage cada um ao seu modo, com julgamentos, escolhas e sentenças particulares.


voigt e cox
Com certeza, um dos melhores e mais excitantes filmes que vi este ano. Um clássico imune à passagem do tempo, porque vai ao encontro dos medos alojados nos nossos subconscientes. Está repleto de momentos de impacto, como aquele em que Ed e Bobby se encontram na floresta com dois caipiras irracionais - que molestam sexualmente um deles (uma cena espantosa, censurada nos cinemas, mas felizmente liberada em DVD) - ou o duelo de banjos entre Drew e um garoto autista. São cenas fortíssimas, difíceis de tirar da cabeça. Através de uma atmosfera aterrorizante (um dos grandes trunfos da obra), John Boorman deixa claro que o homem por mais que reinvente o mundo por meio da tecnologia, a discutível segurança da cidade perde-se quando se tem de sobreviver contra as forças da natureza e dos instintos dos seres mais próximos de suas raízes. Diretor de longas marcantes como “Inferno no Pacífico / Hell in the Pacif” (1968), “Excalibur / Idem” (1981) e “Esperança e Glória / Hope and Glory” (1987), o inglês Boorman tem em AMARGO PESADELO o melhor momento de sua carreira. Entre os competentes atores, destacam-se Jon Voight, personificando com realismo o sujeito civilizado obrigado a se tornar um bárbaro para reagir à violência com mais violência, e Ned Beatty, estreando no cinema.

jon voight
jon voigt
Filme-irmão de outra obra espetacular dos anos 1970, sobre confrontos violentos entre caipiras e forasteiros da cidade (“Sob o Domínio do Medo / Straws Dog”, 1971, de Sam Peckinpah), essa produção de baixo orçamento - US$ 2 milhões - parece jogar na cara do espectador a pergunta “E se fosse com você?”. E não é para menos, os eventos fictícios poderiam acontecer com qualquer um, pois isoladas e acuadas as pessoas certamente podem chegar ao nível de selvageria dos protagonistas. Escrito por James Dickey, aborda também o conflito que o progresso gera. Neste caso em especial, é como se a chegada de figuras urbanas representasse o fim da rotina que aqueles nativos se acostumaram a viver, algo ilustrado no próprio rio, que antes servia para a pesca e a recreação, e agora passaria a gerar energia. A ironia é que a amada natureza revelaria uma face igualmente agressiva para todos eles, resultando em um espetáculo cinematográfico inesquecível, com uma direção de fotografia fascinante de Vilmos Zsigmond ("Espantalho / Scarecrow", 1973; "O Franco Atirador / The Deer Hunter", 1978; "Dália Negra / The Black Dahlia", 2006, etc.) - realçando o caráter sinistro e ameaçador da paisagem através do uso de sombras e tonalidades verde-escuras - e uma trama de pesadelos, cheia de suspense, mostrando a ilimitada perversidade humana. Durante duas horas, somos sugados por essa história tensa, repleta de aventura, é verdade, mas com muito mais a dizer do que podíamos imaginar, explorando a fina fronteira que nos separa dos animais. Não deixe de assisti-lo.

a cena do estupro
ned beatty
CURIOSIDADES

Sam Peckinpah queria dirigir o filme, mas John Boorman conseguiu os direitos de filmagem em primeiro lugar;

Boorman convidou Lee Marvin e Marlon Brando para interpretarem Ed e Lewis, respectivamente. Depois de ler o roteiro, Marvin afirmou que ele e Brando estavam velhos para este tipo de papel e sugeriu que fossem utilizados atores mais jovens;

Durante a subida de Ed pela pedra, Zsigmond utilizou um filtro azul para dar a sensação de que a ação se passa durante a noite, numa técnica conhecida como “Noite Americana”;

Para reduzir os custos de produção e dar maior realismo, os atores foram seus próprios dublês. Por exemplo, Jon Voight realmente subiu aquela encosta;

jon voigt e ed ramey
Com o mesmo intuito, os habitantes de locais próximos foram escalados nos papéis dos moradores da região retratada na história;

O autor do livro e também roteirista James Dickey aparece em uma ponta como o xerife;

Burt Reynolds quebrou seu cóccix enquanto filmava cenas nas corredeiras;

Billy Redden (o garoto com o banjo) não sabia tocar banjo e foi incapaz de fingir convincentemente, então outro jovem permaneceu escondido atrás de sua cadeira com a tarefa de manusear o instrumento;

burt reynolds
Ned Beatty era o único dos quatro atores principais que sabia remar uma canoa antes das filmagens. Os demais aprenderam no set;

O duelo de banjos foi a primeira cena filmada. O resto do filme foi quase inteiro filmado em seqüência;

Rodado no rio Chattooga, que divide os estados da Carolina do Sul e Geórgia, no ano que se seguiu ao lançamento do filme, 31 pessoas se afogaram na tentativa de descer as corredeiras;

Um final alternativo foi rodado, mas cortado na edição final. Nele, um corpo é dragado do rio e mostrado aos três sobreviventes. O corpo nunca seria visto pelo espectador, que precisaria adivinhar a identidade do morto.

ned beatty, ed ramey, burt reynolds e jon voigt
AMARGO PESADELO
Deliverance
(1972)

País: EUA
Gênero: Drama
Duração: 110 mins.
Cor
Produção: John Boorman 
(Warner Bros. Pictures / Elmer Enterprises)
Direção: John Boorman
Roteiro: James Dickey
Adaptação do seu romance
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Edição: Tom Priestley
Cenografia: Fred Harpman (d.a.); (déc.)
Vestuário: Bucky Rous
Elenco: Jon Voight (“Ed”), Burt Reynolds (“Lewis”),
Ned Beatty, Ronny Cox, Ed Ramey e Billy Redden

Nota: ***** (ótimo)


*******

CONFIDENCIAL

RAUL ROULIEN


No começo da década de 1930, Raul Roulien foi chamado para trabalhar em Hollywood, tornando-se o primeiro brasileiro a atuar na Meca do Cinema. Contratado pela Fox Film Corporation, o ator de 26 anos, nascido no Rio de Janeiro, contracenou com estrelas como Janet Gaynor, Joan Bennett, Spencer Tracy, Gloria Stuart e Madeleine Carroll, além de ter sido dirigido por John Ford. No seu maior sucesso, o musical da RKO Radio Pictures “Voando Para o Rio / Flying Down to Rio” (1933), dividia a cena com Dolores Del Rio, Fred Astaire e Ginger Rogers. Ele vinha de uma destacada carreira como cantor e ator. Ao visitar um irmão em Buenos Aires, terminou por ganhar fama como chansonier, pianista e compositor. No Brasil obteve destaque primeiramente no teatro. Também foi o maior galã brasileiro de sua época. No ano de 1928 formou a Companhia Abgail Maia - Raul Roulien, investindo em um gênero denominado "teatro de frivolidade", e introduzindo espetáculos rápidos nos intervalos das sessões de cinema. Já entre os anos de 1928 a 1930, fez sucesso como cantor, tendo gravado nove discos na extinta Odeon. Ele era o autor de quase todas as músicas, e no repertório, tangos. Em 1931 mudou-se para Los Angeles, onde viveu seis anos. Em plena ascensão como Latin Lover, sua carreira sofreu um violento golpe, em 1933: sua segunda esposa, a atriz e bailarina Diva Tosca, foi atropelada e morta na Sunset Boulevard por um jovem embriagado, John Huston. O viúvo inconformado abriu processo judicial, atraindo a fúria de Walter Huston, pai do motorista e ator muito influente naquela época. Huston contou com o apoio de Louis B. Mayer, todo poderoso chefão da M-G-M, o estúdio mais importante do período. A investigação apurou a inocência do futuro diretor no atropelamento. Em contrapartida, o primeiro ator brasileiro ficou, evidentemente, arranhado na alta roda. Naquele mesmo ano, publicou o livro “A Verdadeira Hollywood”. Depois de “Te Quiero con Locura” (1935), seu último filme norte-americano, filmou como diretor “O Grito da Juventude” (1937) no Brasil e “El Grito de la Juventud” (1939) na Argentina, estrelado pela diva espanhola Conchita Montenegro. Em 1938, a Companhia Teatral de Raul Roulien encenou a peça “Malibu”, de Henrique Pongetti, da qual participava a cantora Elisa Coelho. Na década de 40, dedicou-se ao teatro. Em sua Companhia, Cacilda Becker se afirmaria como atriz em 1941, na peça "Trio em Lá Menor". Dirigiu mais quatro filmes no Brasil, entre eles o curioso “Maconha, Erva Maldita” (1950). Com atividades bastante diversificadas, foi também apresentador de programas de televisão, repórter de jornais brasileiros e estrangeiros, e promotor do Concurso Miss São Paulo para os Diários Associados, que perdurou por muitos anos. Em 1995, vitimado por um derrame afastou-se definitivamente da carreira artística. Ele passou seus últimos tempos esquecido, falecendo em 2000 devido a problemas cardíacos.