setembro 29, 2011

******* A INFIDELIDADE AO ALCANCE DE TODOS


deborah kerr e burt lancaster em "a um passo da eternidade"
Casamentos em ruína, relações amorosas nem sempre saudáveis, traições que acabam em tragédia. A Sétima Arte aborda com alguma regularidade a inconstância amorosa, ou seja, a dicotomia fidelidade/INFIDELIDADE, quase sempre com conservadoras lições de moral: o adúltero (ou adúltera) pagando por sua traição na cena final (por exemplo, os suicídios da Anna Karenina de Greta Garbo ou da Madame Bovary de Jennifer Jones). Já as películas francesas, que têm tradição nesta área, geralmente não fazem o arcaico questionamento moralista, introduzindo mais o sentimento sofrido (culpa e definições de futuro) do que o maniqueísmo. Não há certo ou errado. Há escolhas que acarretam conseqüências diferenciadas. Alguns filmes que se arriscaram nessa temática provocaram escândalos na época do lançamento e tiveram problemas para serem exibidos em diversos países. Felizmente sobreviveram à cruzada dos “bons costumes” e permanecem como um olhar sobre as peripécias da sexualidade humana. Nessa lista de filmes sobre a INFIDELIDADE, veremos alguns sucessos do cinema que exploram as histórias daqueles que "pularam a cerca".

AMANTE DISCRETO/ Cynara (1932),
de King Vidor
Os amantes:
Jim Warlock (RONALD COLMAN) e Doris Emily Lea (PHYLLIS BARRY)
A esposa:
Clemency Warlock (KAY FRANCIS)
Um advogado casado e competente tem sua vida transtornada ao se apaixonar por bela jovem.

AS MULHERES / The Women (1939),
de George Cukor
Os amantes:
Crystal Allen (JOAN CRAWFORD) 
e Stephen Haines (não aparece na tela)
A esposa:
Mary Haines (NORMA SHEARER)
Ao descobrir sobre a traição de seu marido, uma mulher precisa decidir se o perdoa ou pede o divórcio.

DESENCANTO / Brief Encounter (1945),
de David Lean
Os amantes:
Laura Jesson (CELIA JOHNSON) e Dr. Alec Harvey (TREVOR HOWARD)
O marido:
Fred Jesson (CYRIL RAYMOND)
Médico e dona-de-casa se conhecem por acaso em uma estação de trem. A partir daí, os dois, casados, passam a se encontrar toda semana no mesmo lugar. A amizade cresce e acaba virando um amor impossível.

O DESTINO BATE À SUA PORTA
The Postman Always Rings Twice (1946), 
de Tay Garnett
Os amantes:
Cora Smith (LANA TURNER) e Frank Chambers (JOHN GARFIELD)
O marido:
Nick Smith (CECIL KELLAWAY)
Desempregado arruma emprego em bar de beira de estrada e envolve-se com a sedutora esposa de seu novo chefe. Os dois, então, decidem tramar a morte do marido dela.

ADÚLTERA / Le Diable au Corps (1947),
de Claude Autant-Lara
Os amantes:
Marthe Grangier (MICHELINE PRESLE) e François Jaubert (GÉRARD PHILIPE)
O marido:
Jacques Lacombe (JEAN VARAS)
No final da 1ª Guerra Mundial, uma enfermeira comprometida se apaixona por um rapaz bem mais novo.

PERDIÇÃO POR AMOR / Carrie (1952),
de William Wyler
Os amantes:
George Hurstwood (LAURENCE OLIVIER) e Carrie Meeber (JENNIFER JONES)
A esposa:
Julie Hurstwood (MIRIAM HOPKINS)
Um respeitável homem de família, de situação financeira confortável, joga tudo fora pelo amor de uma jovem ambiciosa.

A UM PASSO DA ETERNIDADE / From Here to Eternity (1953),
de Fred Zinnemann
Os amantes:
Karen Holmes (DEBORAH KERR) e Sargento Milton Warden (BURT LANCASTER)
O marido:
Capitão Dana Holmes (PHILIP OBER)
Durante a Segunda Guerra Mundial, à beira do ataque a Pearl Harbour, um sargento se envolve com a atraente mulher de seu superior, que é infeliz no casamento.

QUANDO A MULHER ERRA / Stazione Termini (1953),
de Vittorio De Sica
Os amantes:
Mary Forbes (JENNIFER JONES) e Giovanni Doria (MONTGOMERY CLIFT)
O marido:
Não aparece na tela
Uma norte-americana casada tenta pegar um trem para Paris numa estação de Roma, mas reencontra o amante que está tentando deixar.

SEDUÇÃO DA CARNE / Senso (1954),
de Luchino Visconti
Os amantes:
Condessa Livia Serpieri (ALIDA VALLI) e 
Tenente Franz Mahler (FARLEY GRANGER)
O marido:
Conde Serpieri (HEINZ MOOG)
Durante a primavera de 1866, a Itália está ocupada pela Áustria e prepara seu principal movimento de libertação. Em meio ao caos, a Condessa Serpieri, que participa da resistência, começa a nutrir um amor proibido: o tenente austríaco Franz Mahler.

CHAMAS QUE NÃO SE APAGAM / There's Always Tomorrow (1956),
de Douglas Sirk
Os amantes:
Clifford Groves (FRED MacMURRAY) e Norma (BARBARA STANWYCK)
A esposa:
Marion Groves (JOAN BENNETT)
Homem com casamento tranqüilo, de repente se vê atormentado pelo passado na figura de uma antiga paixão.

OS AMANTES / Les Amants (1958),
de Louis Malle
Os amantes:
Jeanne Tournier (JEANNE MOREAU), Bernard Dubois-Lambert (JEAN-MARC BORY) e Raoul Flores (JOSÉ LUIS DE VILALLONGA)
O marido:
Henri Tournier (ALAIN CUNY)
Uma senhora casada se diverte com outros homens. O casal mora no interior, onde ele é dono de um jornal que acaba com sua vida afetiva. Para escapar à rotina, ela deixa a filha com a babá e vai a Paris ao encontro de amantes.

ALMAS EM LEILÃO / Room at the Top (1959),
de Jack Clayton
Os amantes:
Alice Aisgill (SIMONE SIGNORET) e Joe Lampton (LAURENCE HARVEY)
O marido:
George Aisgill (ALLAN CUTHBERTSON)
Apesar da crise, rapaz consegue um bom emprego numa fábrica. A filha do chefe se apaixona por ele, e pensando em subir na vida ele fica com ela, mas se apaixona por mulher casada e começa a sair com as duas.

A MULHER INFIEL /La Femme Infidèle (1969),
de Claude Chabrol
Os amantes:
Hélène Desvallées (STEPHANE AUDRAN) e Victor Pegala (MAURICE RONET)
O marido:
Charles Desvallées (MICHEL BOUQUET)
Desconfiado que sua esposa o trai, marido contrata um detetive particular para segui-la. Os resultados das investigações o levarão a tomar drásticas atitudes.

fred macmurray e barbara stanwyck em "chamas que não se apagam"
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O QUE ESTÁ FAZENDO

CLAUDIA CARDINALE


Alegre, divertida, sensível, acessível e sempre com um cigarro. Aos 73 anos a musa italiana Claudia Cardinale segue atuando, distante do mito da diva em que se consomem muitas atrizes com o currículo parecido com o seu. Atualmente ela roda “El Artista y La Modelo”, a mais recente criação do espanhol Fernando Trueba (“Sedução / Belle Epoque”, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1992), na zona vulcânica de La Garrotxa, uma encantadora região da província catalã de Girona. Além da atriz, o elenco conta também com o veterano ator francês Jean Rochefort e a hilária Chus Lampreave, de várias comédias de Almodóvar. Trueba planejava esse projeto em preto & branco há muitos anos, juntamente com o roteirista Jean-Claude Carrière. Quem produz é sua própria companhia, Fernando Trueba P. C., com a colaboração da TVE. A idéia do diretor é retratar o sul da França, muito perto da fronteira espanhola, ocupado pelos nazistas durante o verão de 1943.  Marc Cros (Rochefort), um famoso escultor, encontra-se cansado de uma vida castigada por tantas guerras. Porém, um dia, sua mulher Léa (Cardinale) recolhe na rua a uma jovem camponesa espanhola (ainda Folch), fugitiva de um campo de refugiados. Essa chegada inesperada permite que o escultor recupere o desejo de trabalhar e esculpir sua última obra. No atelier, enquanto trabalham, modelo e artista estabelecem, com sensibilidade, uma cálida relação que discute todos os temas que os rodeiam: a vida e a morte, a insensatez da guerra, a juventude e a velhice; além da busca da beleza em tempos de horror, e o sentida e a necessidade da arte. Um filme que promete. Apaixonado por Billy Wilder, o diretor Trueba tem mão segura e a dupla Cardinale-Rochefort é para se aplaudir de pé. A atriz, que já atuou até o momento em 108 filmes, assim que acabar as filmagens de “El Artista y La Modelo”, parte para protagonizar, ao lado de Jeanne Moreau, mais um filme do veterano português Manoel de Oliveira. Antes, esse mesmo diretor de 102 anos de idade promete “A Igreja do Diabo”, com Fernanda Montenegro e Lima Duarte, baseado em vários contos de Machado de Assis.

setembro 21, 2011

**** HOUVE UMA VEZ UM VERÃO... DE ESTRELAS


cinco anos antes, na mesma praia, os amigos elizabeth taylor e roddy mcdowall

No VERÃO de 1965, em Malibu Beach, Hollywood, o ator Roddy McDowall recebeu uma constelação de estrelas em sua casa de praia, filmando-as. São vídeos domésticos simpáticos, mas infelizmente sem áudio. Vale como um jogo, tipo “quem é quem”. Reconheci Judy Garland, Jennifer Jones, Paul Newman, Lauren Bacall, Natalie Wood, George Cukor, Kirk Douglas, Ben Gazzara, Jane Fonda, Tuesday Weld, Ruth Gordon, Anthony Perkins, Rock Hudson, Christopher Plummer, Sal Mineo, Lee Remick, Merle Oberon, Richard Attenborough, George Segal, James Fox, Hope Lange, Mike Nichols, Julie Andrews, Jane Powell, Samantha Eggar, David O. Selznick, Gladys Cooper, Polly Bergen, George Axelrod, Troy Donahue, Sally Kellerman e Janice Rule. Como os mais simples dos mortais, descontraídos, familiares, com crianças e parceiros, eles conversam, bebem, nadam, comem cachorro-quente, jogam vôlei, constroem castelos de areia etc. Veja se você consegue identificá-los.








jane fonda
tab hunter e roddy mcdowall
natalie wood

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O QUE ESTÁ FAZENDO

O QUEER LISBOA
(FESTIVAL DE CINEMA GAY E LÉSBICO DE LISBOA)


O “Queer Lisboa – Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa” se prolonga até o próximo dia 24, celebrando este ano o seu 15.º aniversário, numa edição especial que tem como tema aglutinador a “transgressão”. É certo que o cinema queer é por essência “transgressor”, mas essa essência tem se diluído um pouco com a integração de temáticas queer no circuito comercial. Por isso, o festival apresenta, este ano, uma programação que se constrói sob o signo da transgressão. O evento abriu com o filme “Uivo/Howl”, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, e com James Franco no papel do poeta beat gay Allen Ginsberg (1926-1997). O certame manteve as tradicionais secções competitivas (longa-metragem, documentário e curta-metragem), bem como as também já habituais secções “Panorama” (que conta com quatro filmes que traduzem a vitalidade do cinema dos países de expressão hispânica), “Queer Art” (dedicada a filmes de caráter experimental) e “Queer Pop”. Há ainda três sessões especiais, onde se destaca o filme “Miss Kicki”, de Hakom Liu, um programa dedicado à intersexualidade e as já habituais “Noites Hard”, que este ano homenageiam Wakefield Poole, um dos pioneiros do cinema pornográfico gay. Paralelamente aos 84 títulos desta edição, o Queer Lisboa 15 apresenta ainda o espetáculo de teatro-dança “Silenciados”, do grupo espanhol Sudhum, que fala de crimes por homofobia. O festival se encerra com o filme “Taxi Zum Klo – Taxi to the Toilet” (1980), de Frank Ripploh, uma obra autobiográfica que resume na essência as origens e pressupostos do cinema queer. Mais informações em www.queerlisboa.pt. 

***************** SALA VIP: "MELANCOLIA"



MELANCOLIA
MELANCHOLIA
(2011)

País: Dinamarca, Suécia, França e Alemanha
Duração: 136 mins.
Cor
Produção: Meta Louise Foldager e Louise Vesth
(Zentropa Entertainments / Memfis Film /
 Zentropa International Sweden)
Direção e Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Edição: Molly Marlene Stensgaard
Cenografia: Jette Lehmann (des.prod.); 
Simone Grau (d.a.)
Vestuário: Manon Rasmussen
Elenco:
Kirsten Dunst (“Justine”), Charlotte Gainsbourg 
(“Claire”), Kiefer Sutherland (“John”), 
Charlotte Rampling (“Gaby”),John Hurt 
(“Dexter”), Alexander Skarsgård (“Michael”),
Stellan Skarsgård e Udo Kier.

Nota: **** (muito bom)

Prêmios: Melhor Atriz no Festival de Cannes;

Um planeta está em rota de colisão letal com a Terra. Talvez seja o fim da humanidade, de tudo. As irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg) terão, em momentos diferentes, que aceitar o inevitável. E os principais valores da sociedade serão colocados em xeque, como o dinheiro, o amor, a família, o trabalho, o casamento, o orgulho. É o que propõe o mais novo filme do polêmico dinamarquês Lars Von Trier. Poético, de rara sensibilidade, com poderosas imagens e extraordinária atuação das protagonistas, com atenção especial à francesa Charlotte Gainsbourg (as participações de Charlotte Rampling e John Hurt também são sensacionais), MELANCOLIA evidencia um pessimismo latente, uma catástrofe emocional explicitada na fala de Justine: “A Terra é má, ninguém vai sentir falta dela”, gerando desconforto geral. Não é um filme fácil. Comovida e solidária, a poeta baiana Neuzamaria Kerner escreveu uma carta para a personagem Justine. Publico-a aqui.

CARA JUSTINE

Há vários dias tento lhe escrever, mas sempre adio sem saber exatamente o motivo da postergação. Talvez eu até saiba... O inconsciente, no entanto, é extraordinariamente protetor em certas situações. Tenho quase certeza de que você sabe do que falo. É possível. Tudo é possível neste mundo nosso de possibilidades. Então, amiga, se é que posso tratá-la assim, fiz alguns malabarismos mentais para driblar o meu inconsciente a fim de deixar emergir pensamentos teimosos que dançavam no meu palco interior e que lutavam bastante para continuarem invisíveis e indecifráveis até o momento em que lhe vi. Em verdade, esses pensamentos são como seres ou entidades ou sentimentos esdrúxulos que habitam nossas mais abissais regiões. Como nos dão trabalho! O consolo é que eles não estão apenas comigo e com você, mas com todos os seres viventes e pensantes que desde que “encarnam” já vêm com a carga de raiva, tristeza e medo e suas polaridades como se fosse uma maldição passada de geração em geração.

charlotte gainsbourg
Pois bem, acompanhei seus últimos e impressionantes passos naqueles dias da transformação compulsória – digamos assim, eufemisticamente. Confesso que no primeiro momento da sua aparição não lhe entendi muito bem. Você deveria estar feliz, afinal estava casando com um homem bom e bonito e que parecia realmente lhe amar. Por que você o rejeitou? Será porque você quis poupar-se ou poupá-lo de dores? Ou  não o amava o bastante para juntos enfrentarem o que estaria por vir? Seu casamento deu uma espécie de prazer – de hora última - à sua irmã e ao seu cunhado que não economizaram dinheiro nem trabalho para que sua festa fosse a mais linda. Perfeita. Sua mãe, pra variar, transbordava o amargor de sempre; seu pai, amoroso e generoso, mas na dele... provavelmente nunca quis se comprometer com a vida. Talvez aí esteja a explicação do comportamento de sua mãe. Os outros parentes, como todos. Sabe, o seu chefe - pobre coitado -, mereceu os desaforos que você corajosamente despejou sobre ele, um carcará hipócrita, fazedor de dinheiro e que nunca se preocupou com as suas questões existenciais – nem com as de ninguém. Nem nunca atentou para os motivos da irreverência contida nas suas peças publicitárias. Creio que naquela hora você vingou todos os desrespeitados nas empresas sem precisar buscar apoio nos famigerados sindicatos de trabalhadores.

kirsten dunst
Depois da festa pude voltar a me concentrar somente em você, inclusive lembrando-me da cópula – tenho que dizer esse nome sem graça – com o cara contratado pra lhe arrancar um “slogan”. Parecia que você estava com muita raiva porque sobre a terra você o fez derramar o sêmem que não poderia mais frutificar. Inútil semear numa terra infértil. Você humilhou a mãe-terra. Mas não pense que estou lhe julgando, apenas tentando dizer da minha compreensão. Raiva é raiva, irmã gêmea da impotência. Você estava tão impotente como qualquer pessoa que conhece, sente e capta, pelas pontas dos dedos-antenas, as energias do universo, mas com a consciência de que não mais poderia contar com elas, as energias. Definitivamente você estava mais abandonada de si mesma do que nunca. Entendo, de verdade, a sua depressão. A dor que provém da alma dos ossos e dos nossos centros todos inacessíveis por isso incurável. Essa era a sua tristeza. A dor do exilado. A saudade do não-sei-onde. A Melancolia metafórica, mas ao mesmo tempo muito real, que lhe esmagaria sem piedade num futuro bem próximo. Justine, a Melancolia carrega o medo nas letras que compõem essa palavra. Melancholia que não agradava nem no latim nem no grego desde quando nasceu e foi registrada em sua certidão já com um significado doloroso: melan(ós) ‘negro’, ‘funesto’, ‘triste’, ‘sombrio’ + cholē ‘bílis’, ‘fel’,’veneno’. Quem não tem medo disso tudo que faz o vivente carregar um fardo pesado e invisível dentro de um exílio imaginário que pune o melancólico por um crime que desconhece ter cometido? Vi você assim, Justine... desnuda literalmente, sendo carregada para o banho sem sentido, pernas que recusavam suportar o corpo, pés sem impulso cósmico para a passada necessária ao minuto seguinte.

charlotte, lars e kirsten
Ontem, de novo, pensei em você quando uma amiga me falou que não estava se preocupando com mais nada. Entregava os incômodos ao universo e dizia “tudo passa”. Repetia “tudo passa”. Olhei nos olhos dela e revi os seus. Tudo realmente passa mesmo que seja por cima de nós. Cada ser – humano - tem que viver com seu próprio momento, bom ou ruim, embora alguns procurem e sejam ajudados quando tudo parece nada. Mas não adianta porque nós sabemos o que sentimos. Os outros seres apenas sentem e percebem a si e ao mundo, mas não têm ciência disso. Saber sentir. Saber que sente. Elaboramos o que vemos e sentimos pelo tal do “eu”. É a isso que chamamos de consciência. Penso no seu criador agora. O deprimido Lars. Ele disse que nascemos com uma sentença de morte, ou seja, a consciência de que a existência tem fim e que ninguém quer ser finito. Em verdade ele usou você para dizer isso ao mundo naquele dia. Muitos não ouviram e preferiram viver na ilusão. Achei muito engraçado, porém verdadeiro, ele dizer que os psicoterapeutas, quando consultados, dizem que a ansiedade e a depressão são perigosas, mas não significam o fim do mundo. No entanto, estão enganados. Redondamente, assim como Terra e Melancolia. Claro que você fez o papel que ele quis. Interessante essa relação entre criador e criatura. Mas você contra-atacou ao tomar consciência de que lutar com o inevitável é mais desgraçado do que tudo. Aí você entra num invejável estado de serenidade e de ajudada passa a ser ajudadora. Foi ótima a sua mudança. Lembra de quando você se despe, simbolicamente despojando-se das vestes, e vai andando pelo bosque e deita-se sobre um pedaço significativo de rocha à beira de um rio? Perfeito momento de entrega e conexão com o universo. É isso. A serenidade nasce da aceitação e da entrega. Entenda que falo de aceitação e não de resignação. Num outro dia, distraidamente você se senta na murada dos jardins do castelo e fica balançando as pernas como uma criança que aguarda. Você olha para os longes celestes... e parece nem pensar em nada, em ser nada. Naquele momento apenas é. Acontece então o já sabido. Tudo o que se passa naquele dia passa sobre você. É o esmagamento literal de tudo. É o fim. Bem que eu queria lhe falar sobre esse fim que não é fim, porém começo (ou recomeço). Mas não sei onde você está agora nem como está.

alexander skarsgard e kirsten dunst
Vou depositar esta carta sobre uma montanha bem alta, se eu tiver coragem suficiente para escalá-la, e esperar que você a recolha e leia. Não posso ir ao correio ou enviar pela internet porque não tenho o seu endereço exato... Pode ser que as conexões todas tenham caído. Ou pode ser que as conexões todas se iniciem agora. Antes de finalizar quero agradecer a sua companhia naqueles dias que duraram apenas duas horas para mim e para outros que realmente lhe viram e lhe sentiram. Quando eu crescer, quero ser valente como você apesar de todos os pesares. Também quero dizer que tive um ancestral com o seu nome o que nos faz ter algo em comum. Chamava-se Justinus Kerner, viveu no século XVIII, alemão, poeta, médico que se interessou por um monte de coisas que diziam ser estranhas – porque não compreendiam. Onde você estiver e se por acaso o encontrar, pergunte-lhe sobre A Vidente de Prevorst. Daqui a três dias (18) seria seu aniversário de nascimento, caso estivesse entre nós. Talvez esteja e não saibamos. A gente nunca sabe, amiga. Um grande abraço cheio da luz que você merece por tudo o que viveu, por tudo o que ensinou.

Texto de NEUZAMARIA KERNER
Poeta
www.neuzamariakerner.blogspot.com

lars von trier


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CONFIDENCIAL

MAX LINDER


O comediante que mais influenciou Charles Chaplin era francês – nascido em dezembro de 1883 – e teve fim trágico: suicídio. Ele a mulher foram encontrados mortos num hotel de Paris, em 1925. A trajetória de Max Linder começou em 1900, quando aos 17 anos trocou a escola pelos palcos de Bordeaux. Quatro anos depois, mudou-se para Paris, onde ganhou pequenos papéis em peças melodramáticas. Em 1905, iniciou carreira na Pathé Filmes. Nos três anos seguintes, dividiu-se entre teatro e cinema. Em 1908, percebeu que o cinema era sua grande vocação. E decolou para a fama. A ponto de, em 1910, já ser considerado o comediante mais conhecido das telas de todo o mundo. Depois de desenvolver e estudar diferentes personagens, Linder encontrou seu “alter-ego cinematográfico” no personagem Max, um homem urbano, de chapéu e terno elegantes que constantemente se dava mal por ser um típico bon vivant e correr atrás de belas garotas. Com a criação de um personagem fixo Max Linder se tornou a primeira figura reconhecível ao público da história do cinema. A partir de 1910, passou, além de atuar e escrever, a dirigir filmes. Sua popularidade chega ao auge em 1914, mas, convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial, foi atingido por gases venenosos e teve seu primeiro colapso nervoso, que lhe deixou seqüelas pelo resto da vida. O boato da sua morte nas trincheiras provocou no seu público uma verdadeira histeria. Ao voltar da guerra, fez alguns filmes franceses e aceitou proposta de um estúdio norte-americano, mudando-se para os Estados Unidos em 1916, onde seus problemas de saúde voltaram a surgir. Em 1917, teve dupla pneumonia e passou um ano se recuperando na Suíça. Ao retornar à Califórnia, formou sua própria produtora e realizou uma paródia de “Os Três Mosqueteiros”: “Three Must-get-Theres” (1922). Novamente em Paris, casou-se, em 1923. Mas não encontrou paz. Mergulhou numa crise profunda. A última de sua vida. Vítima freqüente de depressão, que o levou ao uso de drogas, fez um pacto suicida com sua esposa, a jovem Jean Peters. Em 31 de Outubro de 1925, ele cortou as veias da sua esposa, antes de fazê-lo nele próprio. Condenado por gerações posteriores a um quase total esquecimento, a apresentação do filme “Na Companhia Max Linder”, em 1963, narrado pelo diretor René Clair, foi apenas o início de uma reavaliação, colocando merecidamente Max Linder entre os grandes nomes do cinema mundial.

setembro 14, 2011

********* ENTREVISTA COM CARL TH. DREYER


carl theodor dreyer (1889-1968)
(Entrevista realizada por Michel Delahaye para a revista “Cahiers Du Cinema” nº 170, de setembro de 1965)

Que cineastas o influenciaram?

Griffith. E, sobretudo, Sjostrom.

Tinha visto muitos filmes quando começou a fazer cinema?

Não, não muitos. Interessava-me o cinema sueco: Sjostrom, e também Stiller. Depois descobri Griffith. Quando vi “Intolerância/Intolerance” (1916), interessou-me principalmente o episódio moderno, mas todos os seus filmes me emocionaram: “Inocente Pecadora/Way Down East” (1920), e os outros...

"o vampiro"
Há na sua obra uma grande proporção de adaptações. Em sua maioria são peças de teatro.

Sim. Eu sei que não sou um poeta. Sei que não sou um grande autor dramático. É por isso que prefiro colaborar com um verdadeiro poeta e com um verdadeiro autor dramático. O mais recente é Soderberg, o autor da peça “Gertrud”. Soderberg é um grande autor, que não foi suficientemente estimado quando vivia.

Que regras ou que intuições o guiam quando adapta uma peça ou um romance?

No teatro, tem-se tempo para escrever, tempo para repousar nas palavras, nos sentimentos, e o espectador tem tempo para perceber essas coisas. No cinema sempre gostei de concentrar os meus esforços sobre a purificação do texto, que comprimo ao máximo. Comprimo-o, limpo-o, purifico-o, e a história torna-se muito clara, muito nítida. Emprego esse método em “Dia de Ira/Vredens Dag” (1943), “A Palavra/Ordet” (1955), “Gertrud/idem” (1964), que são peças de teatro. Se procedo assim, é porque julgo que não nos podemos permitir no cinema o que nos podemos permitir no teatro. No teatro, há as palavras. E as palavras enchem o espaço, ficam no ar. Podemos escutá-las, senti-las, experimentar o seu peso. Mas no cinema, as palavras são muito depressa relegadas para um fundo que as absorve, e é por isso que não é preciso conservar mais do que as que são necessárias. O essencial basta.

"a palavra"
A maneira como exemplificou o problema da adaptação é também reveladora: assim como não separa a alma do corpo, também não separa as diferentes formas de cinema. É o mesmo problema que se lhe pôs no quadro do cinema mudo e no do falado, e resolveu-o de maneira semelhante.

Procuro antes de tudo, e em todos os casos, fazer de maneira que aquilo que tenho de exprimir torne-se cinema. Para mim, “Gertrud” já não é de maneira nenhuma teatro, tornou-se um filme. Evidentemente, um filme falado... Com diálogo, mas um mínimo de diálogo. Apenas o necessário. O essencial.

Entre os filmes que realizou, há algum que gostaria de ter feito a cores?

Gostaria muito de ter feito “Gertrud” a cores. Tinha mesmo em vista um certo pintor sueco, que estudou bem a época em que se desenrola o filme, e que fez muitos desenhos e pinturas em que utiliza cores muito especiais.

"a paixão de joana d'arc"
“Gertrud” passou recentemente na França, na televisão. Que pensa, em geral, da televisão?

Não gosto da televisão. Preciso da grande tela. Preciso da sensação comum da sala. Um filme feito para comover deve comover uma multidão.

De que gosta atualmente no cinema?

Primeiro devo dizer-lhe que vejo muitos poucos filmes. Tenho sempre medo de ser influenciado. No entanto vi, entre os filmes franceses, “Hiroshima Mon Amour/idem” (1959) e “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois/Jules et Jim” (1962). Gostei muito de “Jules e Jim”. “Hiroshima...” também, sobretudo a segunda parte. Em resumo, gosto de Jean-Luc Godard, Truffaut, Clouzot e Chabrol.

"dias de ira"
Viu os filmes de Robert Bresson?

Nunca vi nada dele.

Que pensa dos filmes de Ingmar Bergman? Creio que não gosta deles...

Pois bem, julgar isso, é um erro. Pois vi um filme dele de que gosto muito: “O Silêncio/Tystnaden”(1963). Acho que esse filme é um triunfo, pois ele teve a coragem de agarrar num assunto muito difícil e muito delicado de tratar, e ele encontrou, para o realizar, a boa solução. Vi o filme em Estocolmo, num grande cinema e, durante a sessão e mesmo depois, quando as pessoas saíam da sala, reinava entre todos o silêncio mais completo. Era impressionante. Isso também prova que atingiu o seu objetivo, apesar do perigo do tema, e que fez bem feito o que era preciso fazer. Mas vi muito poucos dos seus filmes, e isto porque começaram a dizer que ele tinha imitado os meus filmes.

"gertrud"
Pensa que é verdade?

Não, não penso que tenha havido imitação. Bergman tem uma personalidade bastante forte para poder dispensar-se de imitar os filmes dos outros. Mas vi muito poucos dos seus filmes, repito-lhe. Conheço muito mal a sua obra. Tudo o que posso dizer, é que “O Silêncio” é na verdade uma obra-prima.

Independentemente da questão da imitação, é certo que muitos cineastas foram levados ao cinema pelos seus filmes. Adquiriram, graças a você, o gosto do cinema.

É por isso que vou muito pouco ao cinema. Não quero ver, nem os filmes que poderiam ter sido influenciados por mim – se os há -, nem os que me poderiam influenciar.

"mikhael"
Parece que os seus filmes representam antes de mais nada um acordo com a vida, uma caminhada para a alegria...

É talvez porque, muito simplesmente, não me ocupo em ter relações com seres – homens ou mulheres – que não me interessam pessoalmente. Só posso trabalhar com pessoas que me permitem realizar um certo acordo. O que me interessa – e isso vem antes da técnica – é reproduzir os sentimentos das personagens dos meus filmes. É reproduzir, tão sinceramente quanto possível, sentimentos tão sinceros quanto possível. O importante, para mim, não é só agarrar as palavras que eles dizem, mas também os pensamentos que estão atrás das palavras. O que procuro nos meus filmes, o que quero obter, é penetrar os pensamentos profundos dos meus atores, através das suas expressões mais sutis. Pois são essas expressões que revelam o caráter das personagens, os seus sentimentos inconscientes, os segredos que repousam no fundo da sua alma. O que me interessa antes de mais nada, é isso, e não a técnica do cinema.

Para chegar ao que quer obter, penso que não há regras precisas...

Não. É preciso descobrir o que há no fundo de cada ser. É por isso que procuro sempre atores que sejam capazes de responder a esta busca, que estejam interessados nela, que me possam ajudar. É preciso que sejam capazes de me dar, ou deixar tirar, o que procuro obter deles. Mas dificilmente posso exprimir-me acerca disso como devia ser. E, aliás, é possível?


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QUEM SE FOI

CLIFF ROBERTSON
(1923-2011)

edie adams e cliff robertson
Vencedor do Oscar de melhor ator em 1968, pelo seu personagem com perturbações mentais em "Os Dois Mundos de Charly/Charly", Cliff Robertson morreu sábado passado em Nova Iorque, de causas naturais, aos 88 anos de idade. Do público mais jovem, ele é conhecido por ter interpretado o tio de Peter Parker na trilogia "Homem- Aranha/Spider-Man" (2002 a 2007). Ele foi Alan Benson no clássico “Férias de Amor/Picnic” (1955), Joe Cantwell em “Vassalos da Ambição/The Best Man” (1964) e J. Higgins em “Três Dias do Condor/Three Days of the Condor” (1975), entre mais de cem filmes e séries de TV. Mas Cliff foi também o ator que ousou enfrentar o patrão da Columbia Pictures, David Begelman, nos anos 70, num processo que ficou conhecido por "Hollywoodgate". Ele acusou o poderoso produtor de ter falsificado um cheque de 10 mil dólares em nome do ator. O presidente da Columbia acabou por ser preso por se ter apoderado ilegalmente de um total de 60 mil dólares, mas Cliff Robertson, por ter afrontado um dos magnatas de Hollywood, foi boicotado durante vários anos por muita gente da indústria cinematográfica. Apaixonado por aviões, tinha vários modelos na sua coleção particular, entre os quais um que fora usado na Segunda Guerra Mundial. Foi o próprio John Kennedy que o escolheu para o interpretar como tenente da Marinha dos Estados Unidos no filme "O Herói do PT 109/PT 109", em 1963. Cliff Robertson construiu uma carreira séria no cinema, trabalhou também no teatro e na televisão, e era um ator talentoso, mas nunca ascendeu ao palco principal na fama. Casado e separado duas vezes, ele deixa duas filhas.