março 31, 2011

******** PAULINE KAEL: CINEMA SEM MÁSCARAS



Considerada por John Updike, escritor laureado com dois prêmios Pulitzer, “uma grande crítica de cinema, maravilhosa pela forma que combina conhecimento prático com reflexão pessoal”, a polêmica norte-americana PAULINE KAEL (1919-2001), militou na imprensa desde a década de 50, escrevendo para a influente “The New Yorker” entre os anos de 1968 a 1991. Suas resenhas são aulas intensivas de cinema, construindo raciocínios lógicos para moldar os imortais e desconstruir mitos. Ela amava o cinema pela sua lógica de indústria e de idéias, e detestava quando alguém tentava burlá-lo com a hipocrisia dos falsos gênios ou, pior, do moralismo. Inteligente como poucos, reescrevia mesmo as menores notas infinitas vezes procurando a palavra correta. Com seu humor corrosivo, sua sensatez, em especial para não cair em modismos, e seu conhecimento, tornou-se uma das mais admiradas intelectuais da década de 60 e 70, até que o reacionarismo dos anos 80 levou-a a ser odiada, taxada publicamente de venenosa. Publicou o seu primeiro livro em 1965, “Perdi no Cinema”; “1001 Noites no Cinema” em 1982/1991; e em 1996, “Criando Kane”, entre outros. Neles faz críticas severas, incisiva em relação aos críticos empolados amantes do cinema europeu que ao ostentar um gosto artístico acaba se deliciando com as mesmas baboseiras que aparecem nos filmes norte-americanos. Sua escrita afiada resultou no importante prêmio American Book Award.

"luzes da ribalta" 
Quando ela analisava um filme, o fazia por completo. Não tinha rabo preso, nem se rendia ao recurso fácil das cotações e estrelinhas. Ainda assim, seus textos transpiravam emoção e amor pela arte cinematográfica. Referência obrigatória para cinéfilos e profissionais da área, PAULINE KAEL era adepta do antiintelectualismo, não perdoava filmes presunçosos e expressou sempre uma visão sem preconceitos da chamada sétima arte. Formada em filosofia, filha de fazendeiros judeus, pastou no início da carreira, trabalhando como cozinheira para sustentar sua única filha, Gina. Boêmia, casou-se e separou-se três vezes, escreveu peças, até que aceitou uma encomenda, em 1953, para analisar “Luzes da Cidade/Limelight” (1952). Detonou impiedosamente o clássico de Chaplin e assim começou a carreira de crítica e, com ela, as controvérsias. De início, era mais ligada às vanguardas e aos filmes europeus da virada dos anos 50 para os 60, soltando torpedos nas produções milionárias (desprezava David Lean, por exemplo), mas não embarcou em nenhum extremo do cinema-cabeça. Essa sinceridade radical fez com que perdesse o emprego da revista familiar “McCall”, por ter sido um dos poucos a abominar o mega sucesso “A Noviça Rebelde/The Sound of Music” (1965) logo no lançamento. Com o tempo passou a tolerar as narrativas lineares e as formas consagradas de cinema. No entanto, detestou o musical “Amor, Sublime Amor/ West Side Story” (1961), considerava horrível “A Felicidade Não se Compra/It’s a Wonderful Life” (1946), de Frank Capra, e acusou de fascistas Clint Eastwood e seus filmes de Dirty Harry. Gostava de “M.A.S.H./idem” (1970), de Robert Altman, e “O Último Tango em Paris/The Last Tango in Paris” (1972), de Bernardo Bertolucci, e sua famosa cena da manteiga. Amava também Cary Grant, para ela o ápice do glamour de Hollywood, o cinema em seu estado mais bruto: o de sonho.


Nunca apreciou Federico Fellini, salvo “Fellini Oito e Meio/Otto e Mezzo” (1963). Odiou “Hiroshima, Meu Amor/Hiroshima, Mon Amour” (1959), de Alain Resnais. Enquanto a crítica se derretia pelas entrelinhas e beleza poética do filme francês, PAULINE KAEL simplesmente chateou-se. Dizia que Stanley Kubrick fazia publicidade de suas manias apenas para ocultar o que era: um hollywoodiano recalcado. Ao afirmar que o famoso documentário “Shoah/idem” (1985), de nove horas de duração, era uma tremenda apelação, como a maioria das produções sobre o Holocausto, causou furor, sendo chamada de anti-semita. Foi duramente atacada em sua carreira, sem tréguas – afinal, quem mais para dizer que o cinema de Vittorio de Sica é ingênuo e um tanto tolo? Quando enfim começou a trabalhar na “The New Yorker”, teve estabilidade financeira, um ambiente artístico cosmopolita a seu dispor e, principalmente, nenhum editor a lhe mudar os textos sem permissão. Pode assim desenvolver honestamente sua carreira. Porém, quase perdeu o emprego com a crítica positiva do pornográfico “Garganta Profunda/Deep Throat” (1972) e negativa de “Terra de Ninguém/Badlands” (1974), o primeiro Terrence Malick. Aliás, suas constantes alusões às cenas de sexo, que ela adorava e se divertia bastante em descrever, deram munição de sobra aos puritanos. Como adorava Martin Scorsese e filmes policiais, acusaram-na de fazer apologia à violência e mitificar a máfia italiana. Alérgica aos filmes engajados, apaixonou-se, no entanto, por Michelangelo Antonioni, marxista declarado, depois de ter visto uma de suas obras-primas, “A Aventura/L’Aventura” (1959). Bergman não seria Bergman nos EUA sem ela, apesar de ter restrições a “Cenas de um Casamento/Scener ur ett Aktenskap” (1974). O mesmo pode ser dito do cinema japonês, divulgado mundialmente graças à ajuda inestimável de Kael, uma de suas mais venerandas fãs – mas ela desprezava alguns filmes de Akira Kurosawa. Também era chegada num filme trash. Seu ensaio sobre o cinema B é um dos clássicos da crítica de cinema, essencial para o resgate que se faz hoje desse tipo de gênero tosco.

Sem extremismos políticos, ela abominava a direita e sabia que a esquerda era somente uma moda passageira, traduzindo-se como “uma liberal anti-comunista’’, mas atacava sem dó as pesadas produções conservadoras, de cunho religioso, usando uma de suas frases mais demolidoras: “fantasia direitista”. Diretor que ganhasse essa coroa sabia que seria desprezado por parte do público na seqüência. George Lucas, outro saco de pancadas dela, criou um malvado general Kael em “Willow – A Terra da Magia/Willow” (1988), da qual foi produtor, em referência a ela. Mas nada disso significa que PAULINE KAEL não passava de uma intelectual encrenqueira que falava mal de todo mundo. Alguns ainda tentaram imprimir esta imagem nela, mas terminaram desistindo, ou porque admitiram sua soberana noção de cinema, ou porque desistiram de brigar com uma das maiores formadoras de opinião dos Estados Unidos. A partir da década de 90, quando se aposentou do jornalismo, afastou-se do cinema, cujo "empobrecimento estético e mental não tem fim", e dedicou seu tempo aos romances, à ópera, ao jazz e ao rock. Sua aposentadoria foi notícia em todo o mundo. Ela morreu em 2001, vítima do Mal de Parkinson, deixando o cinema na mão de três tipos de críticos: os papagaios do “mainstream”; os teóricos, com sua “logorréia vazia”, que só sabem citar outros autores e se expressam por termos acadêmicos; e a turma que adora tudo e nunca se posiciona por nada. A lúcida e realista definição é da própria Kael. Para confirmá-la ainda hoje, basta consultar alguns blogs de cinema.

(Fonte: “The New Yorker”, revista Babélia/“El País” e Enciclopédia Wikipédia)


CONVERSANDO COM MISS KAEL

SEU TEXTO TEM UM TOM DE CONVERSA COLOQUIAL, E AINDA ASSIM UMA LIBERDADE QUE GERALMENTE AS PESSOAS NÃO TÊM CONVERSANDO. É INTENCIONAL?

Sim. Faço isso conscientemente. As pessoas geralmente pensam que eu estou dizendo coisas sem querer, e isso me diverte. Eu tento a clareza, procurando escrever da maneira que falo. Quando comecei a escrever para revistas, nos anos 50, vivia insatisfeita com a leitura de textos de tom acadêmico. Eu odiava a escrita extravagante, e quando chegou a minha vez procurei escrever tão simples quanto possível, afinal escrevo sobre uma forma de arte popular. Escrevendo como se fala, atinge-se um público maior. É especialmente corajoso escrever do jeito que pensamos ao invés de escrever da maneira que nos foi ensinado.

HOUVE ALGUM CRÍTICO QUE A TENHA EMPOLGADO?


Vários escritores e artistas me empolgaram, levando-me a escrever. Gostava muito de alguns críticos de cinema. James Agee, mais do que ninguém. Mas nunca pensei em Agee como um modelo a seguir, eu simplesmente gostava de lê-lo. Discordei muitas vezes de suas opiniões, mas adorava sua linguagem apaixonada. Ele escrevia de maneira intensa, expressando uma raiva real se não apreciasse o filme resenhado. Parece-me a maneira mais natural, afinal é assim que normalmente reagimos quando não gostamos de determinados filmes.

"a aventura", de antonioni
OS FILMES MUDARAM NOS ÚLTIMOS ANOS?

Sim. Nos anos 60 e 70 eles desempenhavam um papel contraditório na cultura. Muitas pessoas de meia-idade, ou idosos, ficavam ofendidos quando iam ao cinema. A linguagem era mais livre do que eles esperavam. Havia uma atitude descontraída, uma certa esnobação ao patriotismo norte-americano, uma tranqüilidade ao narrar relações sexuais. As pessoas mais velhas ficaram distantes de muitos filmes, afirmavam não compreendê-los, porque eles eram mais rápidos e mais elípticos. Assim, nessa época, os filmes tornaram-se uma espécie de inimigo. Agora, eles definitivamente não são o inimigo. Infelizmente. Eu gostaria que continuassem como inimigos. 

A SUA VISÃO CINEMATOGRÁFICA TAMBÉM MUDOU?

Eu me sentia mais entusiasmada em escrever sobre filmes no final dos anos 60 e na primeira metade dos anos 70 - o período em que Altman fazia um ótimo filme após o outro, quando Coppola, Scorsese, De Palma e Bertolucci estavam fazendo um trabalho sensacional. Esses filmes alimentavam meus sentidos. Tinha a sensação de que tentava me manter na corrente através deles. Porém, os tempos mudaram, não a minha visão.

PARECE QUE DURANTE UM PERÍODO ADMIROU GODARD INCONDICIONALMENTE.

Godard representou a grande virada do cinema nos anos 60. Emocionei-me enormemente com quase todos os seus filmes até "Week-end".  Foi emocionante também escrever sobre alguns filmes de Coppola, Scorsese e Altman. Eles rompiam com o convencional. Assim o ato de criticar não era apenas dizer se o filme era bom. Importava também o que ele queria transmitir, como me sentia em relação a ele, o que representava. Em geral, procuro filmes que mostrem algum talento. Suponhamos que sou uma das primeiras pessoas a ler um escritor inovador, claro que terei vontade de divulgá-lo. Eu me sentia assim em relação a "Quando os Homens São Homens", "Nashville", "O Poderoso Chefão II" etc., dizendo aos meus leitores: "Olha o que está acontecendo!". Esse frescor coletivo raramente acontece no cinema. 

FALOU NO PASSADO SOBRE UM DETERMINADO TIPO DE EMOÇÃO QUE PODE COMEÇAR A PARTIR DE UM BOM FILME NORTE-AMERICANO.

Sinto maior facilidade em traduzir o que penso ao assistir um filme norte-americano do que ao ver um filme estrangeiro. Principalmente porque ele tem uma energia louca típica da nossa cultura que entendo perfeitamente, um tipo especial de humor e velocidade só encontrados em um bom filme norte-americano. Por exemplo, eu nunca senti nenhuma sensação parecida vendo uma comédia européia como a que senti assistindo a "As Três Noites de Eva", de Preston Sturges. Os nossos filmes são pop para nós de uma maneira que os estrangeiros raramente são. Essa é a diversão que enxergo em Almodóvar. Ele tem esse elemento pop em seu trabalho porque é muito influenciado pelos filmes norte-americanos. 

QUAIS SÃO AS GRANDES ATRIZES DE HOJE?


Diane Keaton, Debra Winger e Jessica Lange. Elas são as melhores jovens atrizes das nossas telas. São aquelas cujo trabalho eu vou ver com entusiasmo. Keaton me surpreende, porque filme após filme ela ousa cada vez mais, revelando novas facetas e fazendo coisas incrivelmente inventivas, como sua atuação em "Crimes do Coração". Ela é provavelmente a melhor jovem atriz norte-americana que temos. Mas, possivelmente, Debra Winger e Jessica Lange virão com novos filmes, e eu vou dizer que elas são as melhores. Gosto também da Michelle Pfeiffer. Ela é realmente extraordinária. Tão cristalina em sua beleza que as pessoas não conseguem reconhecer que é uma talentosa atriz.


VOCÊ CONFIA EM SEUS INSTINTOS?

Claro. O que mais tenho? Se não confiar em meus instintos estaria na profissão errada.  Mas muitas pessoas têm instintos ruins, enevoados. Só que para um crítico, com certeza, ajuda bastante confiar em seus instintos. 


(Fonte: Polly Frost e Ray Sawhill, Interview, 1989. Tradução de Antonio Nahud)


******* BETTE DAVIS POR VINICIUS DE MORAES



BETTE DAVIS é indiscutivelmente uma grande atriz, mas eu sempre tive uma pinimba qualquer com ela, que se foi acentuando com os anos e os maus diretores que a tireoideana, sacro-ilíaca, psíquica "estrela" andou pegando de um bocado para cá. Nunca deixei, no entanto, de admirá-la quando, em performances notáveis como as que deu em “A Carta” ou “Pérfida”, ela, mais controlada, resolvia em tensão íntima a sua fabulosa naturalidade física de movimentação - coisa que, de resto, deu margem a que fosse um dos motivos prediletos dos imitadores de palco. Eu vi um famoso impersonator norte-americano "bettedavizar" BETTE DAVIS de modo tão genial que, visse-o a atriz, creio que ela se sentiria como diante de um espelho.

"pérfida"
Esses vícios de ação, BETTE DAVIS em geral resolve-os com um bom diretor. William Wyler, que a andou dirigindo por uns tempos, ajustou-a formidavelmente ao seu estilo diretorial, discreto e tenso a um tempo - e agora eu vejo com agrado que Curtis Bernhardt compreendeu também com grande inteligência o problema que ela representa como atriz. Porque com BETTE DAVIS é preciso cortar-lhe um pouco as asas, mas sem ferir fundamentalmente isso que constitui o seu gênio próprio - a sua dinâmica física. Neste filme “Depois da Tormenta”, BETTE DAVIS dá mostras sobejas dessa dinâmica. Seu trabalho é vivo e ágil - tanto que achata completamente a interpretação dos demais atores, o que a deixa soberana em cena. Eu estou longe de concordar com alguns de meus colegas de crítica que “Depois da Tormenta” seja um grande filme. Para mim é apenas um bom filme, que cumpre com dignidade a sua função e expõe o problema da separação conjugal sem mentir à vida. A história tem uma pungência especial que o diretor soube levar muito bem, pois ela não está "na cara da criança", para usar a expressão de uma amiga minha; isto é, não é obviamente, situa-se num plano mais recuado, deixando à ação cinematográfica a incumbência de a ir desencadeando naturalmente.

com gary merrill em "a malvada"
BETTE DAVIS fez, não há dúvida, uma grande rentrée, que muito provavelmente lhe valerá o Oscar para 1951. Apesar da maneira um pouco teatral com que Bernhardt narra a sua trama, certos recursos roubados ao teatro são de bom efeito, como as aberturas de cena cada vez que BETTE DAVIS rememora o passado conjugal, em que o décor tem um valor de puro teatro. O processo do flashback, pelo qual eu tenho uma certa antipatia, é usado aqui de maneira inteligente. A fotografia é boa, e o som esplêndido. A voz fabulosa de BETTE DAVIS é às vezes trazida para planos mais próximos do que os reais com um resultado espantosamente feliz - o que constitui um excelente emprego cinematográfico de som. Porque negócio de som em cinema... É, mas eu não vou enveredar por esse caminho, não, porque uma vez já fiz isto e deu pano para mangas.

Texto de VINICIUS DE MORAES
Poeta e Compositor

com fay bainter e amigo não identificado 
no oscar por "jezebel"
AS DEZ MELHORES INTERPRETAÇÕES DE BETTE

Margo Channing em
A MALVADA/ All About Eve (1950)
de Joseph L. Mankiewicz
Com: Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm,
Thelma Ritter e Marilyn Monroe
Melhor Atriz no Festival de Cannes
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos de Cinema
de Nova Iorque

Leslie Crosbie em
A CARTA/The Letter (1940)
de William Wyler
Com: Herbert Marshall e Gale Sondergaard

Regina Giddens em
PÉRFIDA/The Little Foxes (1941)
de William Wyler
Com: Herbert Marshall, Teresa Wright e Dan Duryea

Charlotte Vale em
A ESTRANHA PASSAGEIRA/Now, Voyager (1942)
de Irving Rapper
Com: Paul Henreid, Claude Rains e Gladys Cooper

Baby Jane Hudson em
O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?
/What Ever Happened To Baby Jane? (1962)
de Robert Aldrich
Com: Joan Crawford e Victor Buono

com henry fonda em "jezebel"
Julie em
JEZEBEL/idem (1938)
de William Wyler
Com: Henry Fonda, George Brent, Donald Crisp
e Fay Bainter
Oscar de Melhor Atriz

Mildred Rogers em
ESCRAVOS DO DESEJO/Of Human Bondage (1934)
de John Cromwell
Com: Leslie Howard e Frances Dee

Fanny Skeffington em
VAIDOSA/Mrs. Skefffington (1944)
de Vincent Sherman
Com: Claude Rains e George Coulouris

Kate e Patricia Bosworth em
UMA VIDA ROUBADA/A Stolen Life (1946)
de Curtis Bernhardt
Com: Glenn Ford, Walter Brennan e Charles Ruggles

Maggie Patterson Van Allen em
A GRANDE MENTIRA/The Great Lie (1941)
de Edmund Goulding
Com: George Brent, Mary Astor e Hattie McDaniel


março 25, 2011

************ JUDY GARLAND: GLÓRIA e AMARGURA

como dorothy em o mágico de oz
Uma das mais completas estrelas dos anos dourados de Hollywood, JUDY GARLAND (1922-1969) comoveu multidões com seus enormes olhos escuros, nariz arrebitado, riso contagiante, voz volumosa e personalidade inconfundível. Ela conquistou fãs no mundo inteiro, dançando, fazendo graça, interpretando papéis dramáticos com sensibilidade e, sobretudo, cantando canções inesquecíveis. Apesar de seus triunfos profissionais, labutou com inúmeros problemas pessoais ao longo de sua vida. Insegura com sua aparência, seus complexos agravaram-se com as considerações taxativas de executivos de cinema: “Feia, gorducha e baixinha (tinha 1,51cm)”. Tratada com medicamentos para controlar o peso e aumentar a produtividade, suportou décadas de uma luta inglória contra o vício, atormentando-se também com a instabilidade financeira, muitas vezes devendo centenas de milhares de dólares em impostos atrasados. Angustiada e infeliz, tentou o suicídio em várias ocasiões.

com mickey rooney
Nascida em Minnesota, filha de artistas de vaudeville, aos dois anos de idade já atuava nos palcos com os pais e as irmãs mais velhas. Em 1934, contratada pela Metro-Goldwyn-Mayer, estudou na escola de talentos do estúdio, ao lado de Mickey Rooney, Deanna Durbin, Jackie Cooper e Freddie Bartholomew. Porém, não sabiam o que fazer com ela, pois era mais velha do que a estrela infantil tradicional, mas muito jovem para papéis adultos. A sua aparência física também criou um dilema, afinal não exemplificava o tipo glamoroso exigido naqueles tempos. Segundo Charles Walters, que a dirigiu em dois filmes, Judy era a grande fazedora de dinheiro, um grande sucesso, mas era considerada o patinho feio. Acho que isso teve um efeito muito prejudicial no seu emocional por um longo tempo, ou melhor, durou para sempre

Depois de cantar “Dear Mr. Gable” na festa do 36º. aniversário de Clark Gable, ela repetiu com sucesso o número na revista musical “Melodia da Broadway de 1938 / Broadway Melody of 1938”. A seguir, reuniu-se com Mickey Rooney em “Menino de Ouro / Throughbreds Dont’t Cry” (1937), com quem fez nove filmes famosos da série Andy Hardy. Testada por David O. Selznick para ser a irmã mais jovem de Scarlett O’Hara, em “... E o Vento Levou / Gone With the Wind”, terminou substituída por Ann Rutherford. Em 1939, depois de cogitadas Shirley Temple e Deanna Durbin, atuou num dos maiores clássicos do cinema, “O Mágico de Oz”, recebendo um Oscar especial (em miniatura) e imortalizando a canção “Over the Rainbow, sua marca registrada para o resto da vida.

o casamento com minnelli
Abatida e nervosa pelo excesso de pílulas estimulantes e barbitúricos para dormir, administrados pelo estúdio, sua situação emocional difícil piorou com o comentário público do chefão Louis B. Mayer, que se referiu a ela como “sua pequena corcunda, a fim de depreciá-la. Há rumores de que ele por diversas vezes assediou sexualmente a atriz, sendo esnobado e tornando-se um poderoso inimigo. Aos 19 anos, solitária e confusa, casou-se com o compositor inglês David Rose, contra a vontade da mãe e da M-G-M. O casamento durou menos de dois anos. Nessa época, estrelou dois dos seus filmes mais populares, “Idílio em Dó-Ré-Mi” (1942) e “Lily, a Teimosa / Presenting Lily Mars” (1943). Em 1944, iniciou uma nova fase com “Agora Seremos Felizes”, obra-prima que o rigoroso crítico James Agee sentenciou como “um musical que até os surdos devem gostar de ver”

Desentendendo-se constantemente com Fred Zinnemann, Judy pediu a Vincente Minnelli que o substituísse na direção de “O Ponteiro da Saudade / The Clock” (1945), sensível história de amor passada durante a Segunda Guerra Mundial, com Robert Walker, e uma das melhores interpretações da atriz. Judy e Minnelli se conheceram através do produtor Arthur Freed, ficaram amigos e logo estavam saindo juntos. Ela gostava do jeito dele, da sua calma, de sua capacidade de acalmá-la. Ele era homossexual e ela sabia disso. Casaram-se em 1945 e logo ela engravidou, sendo tratada como uma princesa pelo marido. Os fofoqueiros de plantão cochichavam que o bebê seria imaculado” (filho da eterna e irreal Dorothy com um gay), mas todos ficaram surpresos quando em 1946 Liza nasceu com os olhos e as bochechas do pai e o nariz empinado da mãe. Depois do parto, a atriz entregou-se novamente às drogas. Minnelli tentou fazer com que ela se controlasse, no entanto, depois de um tempo, nada surtia efeito e ele cansou-se, resultando em divórcio, em 1951.

com gene kelly em o pirata
Pouco antes, em 1948, JUDY GARLAND estrelou um dos seus mais belos musicais, o incompreendido “O Pirata”, como Manuela, filha de família aristocrática do Caribe e prometida em casamento ao prefeito da cidade, que sonha com o mar e com o amor de um temível pirata. Durante a filmagem, ela tinha que dançar em volta de uma fogueira. Quando ia começar o número, viu o fogo, ficou histérica e começou a gritar; “Vou morrer queimada!”. Em seguida, correu pelo set, rindo, chorando, completamente fora de controle. Esta primeira manifestação pública de precária condição de saúde mental abalou toda a equipe, e o número não pode ser concluído. Nos filmes seguintes, chegava atrasada ao set e às vezes nem aparecia, terminando por abandonar “Ciúme, Sinal de Amor / The Barkleys of Broadway” (1949), “Bonita e Valente / Annie Get Your Gun” (1950) e “Núpcias Reais / Royal Wedding” (1951). 

Despedida da M-G-M em 1950, cortou os pulsos com um pedaço de copo quebrado, sendo internada em uma clínica particular. Dois anos depois, casou-se com o agente de artistas Sid Luft, que a aconselhou a fazer uma série de concertos na Europa, onde teve calorosa receptividade. Outra boa iniciativa do novo marido: formou a Transcona Enterprises com a atriz, procurando a Warner com a idéia de refilmar “Nasce Uma Estrela”. Por seu excepcional desempenho, concorreu ao Oscar de Melhor Atriz, perdendo injustamente para Grace Kelly em “Amar é Sofrer / The Country Girl” (1954), mas levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia/Musical. Depois de Liza e Lorna, no mesmo ano deste famoso filme de George Cukor, deu a luz à Joey, ficando afastada do cinema até 1961, enquanto atuava em boates, televisão, teatro e gravações de discos.

nos anos 1960
O casamento com Luft também não deu certo, devido à dependência dela em bolinhas e ao alcoolismo dele. As brigas eram violentas, com um batendo no outro. Ele exigiu a guarda dos filhos. O conflito se arrastou por anos a fio, até o divórcio em 1963, com ela alegando crueldade como motivo da separação. Desajustada, recusou filmes interessantes como “Com Lágrimas na Voz / The Helen Morgan Story”, “As Três Máscaras de Eva / The Three Faces of Eve” e “Ao Sul do Pacífico / South Pacific”, mas finalmente fez “Julgamento em Nuremberg / Judgement at Nuremberg” (1961), de Stanley Kramer, mergulhando profundamente na alma da personagem Irene Hoffman, em inesquecíveis quinze minutos na tela, sendo indicada ao Oscar como coadjuvante. 

Rumores de novos filmes surgiram, mas JUDY GARLAND atuaria em apenas mais dois, “Minha Esperança é Você / A Child is Waiting” e “Na Glória, a Amargura / I Could Go on Singing”, ambos de 1963.  Teve êxito na tevê com o programa The Judy Garland Show”, muito elogiado pela crítica, mas, por uma variedade de razões (incluindo a exibição no mesmo horário do popular “Bonanza), durou apenas uma temporada, findando-se em 1964, após 26 episódios. Apesar do seu curto tempo, o programa concorreu a quatro prêmios Emmy e o seu fim devastou a estrela pessoalmente e financeiramente, que nunca se recuperou completamente do fracasso.


Entre crises nervosas e angústia perene, casou-se mais duas vezes com resultado pífio. No dia 22 de junho de 1969, aos 47 anos, JUDY GARLAND morreu no banheiro de sua casa de Londres. A causa da morte, uma overdose acidental de barbitúricos - o seu sangue continha o equivalente a 97 mg de cápsulas de Seconal. Estima-se que 20 mil pessoas fizeram fila por horas na capela funerária para ver o corpo dela. O seu legado como artista e como personalidade cresce a cada ano, sendo objeto de mais de duas dezenas de biografias desde seu falecimento e com várias de suas gravações apresentadas no hall da fama do Grammy. Em 1999, o American Film Institute (AFI) a colocou em oitavo lugar entre as dez maiores estrelas femininas da história do cinema norte-americano. Realmente, era uma fabulosa atriz dramática e uma sublime cantora.


OS MELHORES MUSICAIS de JUDY

O MÁGICO de OZ
(The Wizard of Oz, 1939)
direção de Victor Fleming
com Ray Bolger, Jack Haley, Bert Lahr,
Frank Morgan, Margaret Hamilton e Billie Burke

IDÍLIO em DÓ-RÉ-MI
(For Me and My Gal, 1942)
direção de Busby Berkeley
com George Murphy, Gene Kelly e Martha Eggerth

AGORA SEREMOS FELIZES
(Meet me in St. Louis, 1944)
direção de Vincente Minnelli
com Margaret O`Brien, Mary Astor, Lucille Bremer,
Leon Ames, Tom Drake e Marjorie Main

O PIRATA
(The Pirate, 1948)
direção de Vincente Minnelli
com Gene Kelly, Walter Slezak, Gladys Cooper,
Reginald Owen e George Zucco

DESFILE de PÁSCOA
(Easter Parade,1948)
direção de Charles Walters
com Fred Astaire, Peter Lawford e Ann Miller

CASA, COMIDA e CARINHO
(Summer Stock, 1950)
direção de Charles Walters
com Gene Kelly, Eddie Bracken, Gloria DeHaven
e Marjorie Main

NASCE UMA ESTRELA
(A Star is Born, 1954)
direção de George Cukor
com James Mason, Jack Carson e Charles Bickford