janeiro 26, 2011

***** O ITALIANO "VINCERE" É O MELHOR DO ANO!



Finalmente terminei minha lista dos MELHORES FILMES lançados nos cinemas brasileiros em 2010. Foi uma tarefa árdua, não pela imensidão de excelentes obras, muito pelo contrário, mas pela dificuldade de encontrar dez deles convincentes e capazes de figurar numa lista dos melhores do ano. Ainda mais porque as coqueluches do momento não raro se revelam atraentes, superficiais e esquecíveis, caso do arrasa-quarteirão “A Rede Social” ou da comédia previsível “Minhas Mães e Meus Pais” (sustentada principalmente no talento de Annette Bening).

No ano passado, o lendário Clint Eastwood decepcionou com “Invictus”, Polanski não surpreendeu com o sem fôlego “O Escritor Fantasma” e Woody Allen não trouxe nada de novo com “Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos” e “Tudo Pode Acontecer”. Como cinéfilo, compreendo que um novo filme de Allen é sempre um privilégio e que ele se reinventa no mesmo, mas desde o charmoso e tenso “Match Point – Ponto Final”, um thriller de 2005 com a abominável Scarlett Johansson como protagonista, que não me encanto com nenhum filme de sua lavra.

"Toy Story 3" e "Tropa de Elite 2", dois grandes sucessos de bilheterias, são ousados, bem feitinhos e merecem ser vistos – ficando por aí. “A Estrada” despontou como um título cheio de possibilidades, mas é por demais pesado, sombrio. O evidente é que 2010 foi um ano fraco para o cinema. Ainda assim, fiz um balanço do que foi visto nos cinemas brasileiros, concluindo que cada vez menos se pode confiar no julgamento dos críticos, que inclusive têm errado terrivelmente ao premiar banalidades. E o pior, muitas vezes são seguidos pelo público nesses equívocos.

Sem mais, vamos à lista, em ordem de mérito:

(01)
VINCERE (idem), Itália/França, de Marco Bellocchio

Entre o melodrama e o épico histórico, a reconstrução da juventude do sórdido líder fascista Benito Mussolini (Felippo Timi). A história, revelada em livro há pouco tempo, destaca a primeira mulher (Giovanna Mezzogiorno) do futuro ditador. Rejeitada pelo marido quando ele alcança o poder, passa a persegui-lo e ele termina por interná-la num sanatório. O politizado Bellocchio reafirma sua vitalidade, enquanto Mezzogiorno – atualmente a melhor atriz do cinema italiano - nos brinda com uma poderosa performance.


(02)
A ILHA DO MEDO (Shutter Island), EUA, de Martin Scorsese

Desconforto e apreensão numa fantástica aula de cinema. Dois delegados federais chegam até uma prisão isolada numa ilha, que funciona como sanatório para doentes mentais, atrás de um fugitivo que teria escapado do lugar. Suspense sombrio com um elenco impecável, reforçando o cinema grandioso, versátil e inesgotável do mestre Scorsese.


(03)
A FITA BRANCA (Das Weisse Band), Alemanha/Áustria/França/Itália, de Michael Haneke


Palma de Ouro no Festival de Cannes, austero e insólito, reflete sobre as origens do nazismo numa sociedade rígida, preconceituosa e extremamente rigorosa nos seus códigos educacionais. A ação se passa pouco antes da Primeira Guerra Mundial, numa aldeia alemã protestante, onde crianças e adolescentes são vítimas de estranhos incidentes que tomam a forma de um ritual punitivo. Destaque para a fotografia claustrofóbica em preto e branco de Christian Beger.


(04)
BAARIA – A PORTA DO VENTO (Baaria), Itália/França, de Giuseppe Tornatore


Saga poética e nostálgica, embalada pela bonita trilha de Ennio Morricone, onde Tornatore recorda-se da juventude numa região siciliana, através do acompanhamento de seu personagem alter-ego desde os anos 30. Resulta em um painel admirável sobre quatro décadas da história italiana.


(05)
UM HOMEM SÉRIO (A Serious Man), EUA/Inglaterra/França, de Ethan e Joel Coen


Uma história em que o tom cômico anda de mãos dadas com a gravidade. Densos e espirituosos, céticos e cinicos, os irmãos Coen mais uma vez traduzem a crise do homem comum, da família e da própria nação norte-americana. Como sempre, sem qualquer tipo de pregação ou conclusão moral. Sobra talento.


(06)
EDUCAÇÃO (An Education), Inglaterra/EUA, de Lone Scherfig

Com roteiro firme do escritor inglês Nick Hornby e atuação certeira da novata Carey Mulligan, o filme é cativante, exaltando o charme da Inglaterra da década de 1960. Conta como uma estudante brilhante, que tem pressa de viver a vida adulta, conhece um homem elegante e mais velho, modificando irresponsavelmente o seu cotidiano.


(07)
DIREITO DE AMAR (A Single Man), EUA, de Tom Ford


O título nacional estúpido felizmente não compromete este longa elegante e delicado, baseado em um romance do ótimo e esquecido britânico Christopher Isherwood, que causou polêmica ao ser lançado, em 1964. Tudo acontece num dia de um professor universitário, homossexual, que se vê no limite da sua vida ao digerir a recente morte do companheiro, com quem viveu por 16 anos. Colin Firth brinda o público com uma comovente atuação.


(08)
A ORIGEM (Inception), EUA/Inglaterra, de Christopher Nolan

O inglês Nolan acerta outra vez nesta inovadora criação sobre como viajar no cérebro das pessoas para inserir sonhos ou capturá-los. Com um elenco de peso, tendo o excelente Leonardo DiCaprio como pilar, une entretenimento e reflexão. Um pouco confuso, é certo, mas plenamente vigoroso.


(09)
O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de sus Ojos), Argentina/Espanha, de Juan José Campanella

O filme mais visto desde sempre no seu país de origem, conquistou o Oscar de Melhor Produção Estrangeira. Romântico e político, esse suspense policial reafirma o talento do novo cinema argentino. Fala de um ex-funcionário público que resolve escrever um livro quando se aposenta. O tema que ele escolhe para o seu livro é um caso criminal que mais marcou a sua carreira. Carismática presença em cena de Ricardo Darín e sensível direção de Campanella.


(10)
O MUNDO IMAGINÁRIO DO DR. PARNASSUS (The Imaginarium of Doctor Parnassus), Inglaterra/Canadá/França, de Terry Gilliam

Surrealismo e deslumbre visual nesta delirante epopéia cinematográfica. Filme-sonho, de devaneios sinistros, uma viagem ao criativo subconsciente de seu criador Terry Gilliam, marcado pelo refinamento e humor ácido, e contrariando a lógica do cinema atual.

MENÇÃO HONROSA: “Minha Terra África” (White Material), França/Camarões, de Claire Denis

Praticamente desconhecida no Brasil, a cineasta Claire Denis trata aqui dos fantasmas da colonização francesa em um país africano, onde uma fazendeira branca (soberba Isabelle Huppert) labuta para colher café em meio a uma guerra civil que ameaça dizimar sua família. Nada didático ou panfletário, já que o cinema da autora está mais interessado em transmitir uma experiência do que em explicar uma realidade.


PRÊMIO ESPECIAL: “A Suprema Felicidade”, Brasil, de Arnaldo Jabor

O retorno de Jabor quase trinta anos depois de “Eu Sei Que Vou Te Amar” foi massacrado pela crítica. Concordo que não é uma obra-prima, mas o resultado é significativo e valorizado pela interpretação sensacional de Marco Nanini. Nostálgico, inquieto e fragmentado, narra de forma não linear a infância e adolescência no Rio de Janeiro de um personagem de classe média. Fique de olho na belíssima fotografia de Lauro Escorel.

felippo timi e giovanna mezzogiorno em "vincere"

janeiro 20, 2011

********* CONFISSÕES DE JOAN CRAWFORD



“Qualquer pessoa no mundo terá levado a sua bofetada. De qualquer maneira, seja dos homens ou do destino, ninguém confessará que a recebeu com prazer, mas, eu devo dizer que sinto uma profunda gratidão por todos aqueles que me esbofetearam. Deram-me ânimo para reagir em meu próprio proveito. Foram-me, grandemente, úteis. Ainda guardo – sem rancor – a lembrança da primeira vez que senti minhas faces vermelhas e todo meu corpo agitado por incrível ressentimento. Contava, então, meus nove anos. Estudava no convento-escola de Santa Agnes, em Kansas City, quando aconteceu que a minha mãe e o meu padrasto se separaram. Ela me explicou que, se quisesse continuar os estudos, teria que ganhar dinheiro para custeá-los. O fato não me preocupou de verdade. Não tinha medo do trabalho nem muita vontade de instruir-me, embora disso me tenha arrependido mais tarde, procurando remediar a minha negligência quando possível. Naquele momento, porém, a minha maior preocupação era ganhar com que viver. Empreguei-me como garçonete. Passei a servir mesas, lavar pratos e arrumar quartos. E durante um certo tempo continuei estudando. Mas, aconteceu que, aos poucos, as atitudes dos meus colegas em relação a mim se modificaram. Ao saberem qual era o meu trabalho, foram evitando a minha companhia. Senti-me desprezada e socialmente posta de lado. Naquele tempo isto significou para mim a primeira bofetada. Chorei muito, e acredito que tenha desejado morrer. Mas... quanto aprendi desta primeira amarga experiência! Admito que o caso influa até hoje na minha reserva quanto às novas amizades e na descrença em relação ao próximo. Mas, na época, após o impacto, senti uma grande vontade de trabalhar, para tornar-me alguém que pudesse ser cortejada, invejada e tivesse o direito de escolher os que mereciam o nome de verdadeiros amigos."


"Minha infância foi passada quase na pobreza. Ainda bastante jovem, trabalhei em lojas de liquidação e nos corpos de coros de teatros, mas jamais pensei em ir para Hollywood, porque eu nunca tivera gosto para vestir-me. Como sentia inveja das estrelas de cinema, sempre com modelos tão bonitos e tão elegantes... O destino da gente já vem traçado, e apesar da minha falta de esperança, um dia achei-me em Hollywood. Tudo parecia um sonho. Nos velhos tempos de Hollywood, como tantas outras jovens, tinha papéis tão pequenos que mais pareciam trabalhos de extras. Uma vez reclamei ao assistente do produtor, perguntando-lhe o que deveria fazer para desenvolver minha carreira no cinema. “Que tem feito você mesma para melhorar sua aparência?”, perguntou-me ele. Senti-me esmagada. Foi talvez uma das bofetadas mais violentas que recebi. Estava certa de que o estúdio se sentia satisfeito comigo. Que estava errado comigo? Mas ele não tinha motivos para me ofender, e isto me desesperava. Fiz dieta e cheguei a perder nove quilos, ficando reduzida a 66. Pedi conselhos ao maquilador e ao cabeleireiro, e segui, fielmente, tudo que indicaram. Entreguei-me, também, aos figurinistas. Estava agora no caminho, tinha melhorado minha aparência, mas comecei a compreender também que precisava de mais instrução. Atirei-me ao estudo com todas as minhas energias. Pela primeira vez, descobri o valor da boa música e da literatura."

"Estive com a Metro durante muitos anos e fiz vários filmes de sucesso, quando o estúdio anunciou a produção de “Uma Alma livre”. Queria ser a protagonista, mais do que em qualquer outro filme de minha carreira. Disso isso a Louis B. Mayer. “Joan, você é uma das nossas estrelas mais valiosas, porém, você ainda não tem a experiência necessária como atriz dramática para interpretar esse papel”, ele respondeu. Procurei sair do seu escritório antes que começasse a chorar, mas as lágrimas não esperaram até eu chegar em casa. Senti-me insultada como atriz. Hoje compreendo que foi uma das melhores bofetadas que recebi em minha carreira. Porque o meu trabalho fora, tão profundamente, ferido, que trabalhei, arduamente, em meus filmes subseqüentes. Percebo que, na verdade, não estava apta para o papel que foi dado à Norma Shearer. Mas a bofetada mais severa que senti, por certo, foi quando não fazia um filme havia dois anos, antes de interpretar “Almas em suplício”. Parte do tempo estive sob contrato... esperando. Outra parte passei sentada por minha própria conta, pois, voluntariamente, deixara de receber o salário, para aguardar uma boa história. Durante aqueles dias desanimadores, aprendi o valor da humildade e da gratidão, e a rezar com mais fervor."

"A minha vida particular é só minha, e tenho aprendido muito à minha custa, ou melhor, à custa das bofetadas que tenho levado. Mas, graças a Deus, sou feliz, porque sem pai e sem mãe para me guiar, lágrimas e reflexões não me faltaram após cada látego, para me ensinar a lutar e a alcançar o que desejo.”

(Fonte: “O Cruzeiro”, agosto de 1955)


janeiro 19, 2011

*********** RACISMO NA MECA DO CINEMA


"uma cabana no céu"
No principio da história do cinema, os negros foram excluídos das telas. A discriminação racial era constrangedora, resultando num tratamento dispensado aos negros absurdamente ofensivo. Tomemos como exemplo o épico "O Nascimento de Uma Nação" (1915), do pioneiro cineasta D.W. Griffith. Embora seja considerada uma obra capital no desenvolvimento da sétima arte, responsável, inclusive, pela estrutura do cinema moderno tal como ele é até hoje, apresenta um conteúdo despudoradamente racista. Griffith enaltece o Ku Klux Klan, sinistra organização criada para aterrorizar e trucidar negros que viviam no Sul dos Estados Unidos. Anos depois, ele admitiu que intencionalmente o seu filme "cria um sentimento de repulsa em pessoas brancas, especialmente mulheres brancas, contra os homens de cor".

harry belafonte e dorothy dandridge
em "carmen jones"
Inicialmente, os personagens negros não eram realmente interpretados por negros, e sim por brancos com os rostos pintados de preto. A partir dos anos 20, quando as organizações de defesa dos direitos civis proliferaram nos EUA, os atores negros começaram a aparecer com maior freqüência, embora desempenhando apenas pequenos papéis, geralmente de criados, escravos, vagabundos, músicos ou figuras engraçadas. De relevante nesta época, somente dois musicais, ambos com elenco totalmente negro: o célebre “Hallelujah” (1929), de King Vidor, e “Uma Cabana no Céu” (1943), de Vincente Minnelli, filme que revelou a formosa e talentosa Lena Horne, falecida no ano passado. Mas algo de realmente importante na luta contra o racismo em Hollywood aconteceu em 1939, quando Hattie Mc Daniel ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua simpática Mammy em "... E o Vento Levou". Foi uma vitória inesquecível.

A Segunda Guerra Mundial permitiu mudanças nas estruturas da sociedade. O negro agora era representado também como valente soldado, como no documentário produzido pelo exército norte-americano “The Negro Soldier” (1944), de Stuart Heisler. No final dos anos 1940 e nos 1950, surgiram vigorosos libelos cinematográficos contra o racismo, tais como “O Mundo Não Perdoa” (1949) de Clarence Brown, “O Que a Carne Herda” (1949) de Elia Kazan, "Clamor Humano” (1949) de Mark Robson, e “Acorrentados” (1958) de Stanley Kramer, entre outros. Os personagens negros deixaram de ser figuras subservientes ou de segundo escalão, dando espaço para duas grandes estrelas: Dorothy Dandridge e Sidney Poitier.

Dandridge afirmava que a cor de sua pele era sempre levada em conta quando se pensava em seu nome para um papel importante. Ela confessou sua frustração por ser obrigada a convencer os estúdios de sua capacidade como atriz, tão somente pelo fato de ser negra. Poitier, que foi o primeiro negro a ganhar o Oscar de Melhor Ator, em sua autobiografia revela o constrangimento sofrido para conseguir um dos papéis principais de “Adivinhe Quem Vem Para jantar”, um filme que questionava exatamente os preconceitos raciais. Ele foi convidado a jantar com os atores Spencer Tracy e Katharine Hepburn, protagonistas do drama sobre um negro que namora uma branca. Seus anfitriões fizeram, ao vivo, um teste para saber sobre as habilidades do comportamento do ator em uma "reunião social de brancos". Até mesmo Tracy e Hepburn, tidos nos meios artísticos como pessoas liberais e sem preconceitos, não desejavam assumir riscos em suas carreiras.


(Fonte: "Slow Fade to Black: The Negro in Americam Film, 1900 - 1942", de Thomas Cripps)

GRANDES ATRIZES NEGRAS


LOUISE BEAVERS
(1902-1962)

Antes de estrear no cinema, ela era governanta de Leatrice Joy, estrela do cinema mudo. Apareceu em mais de 160 filmes, dos anos 1920 até a década de 1950, na maioria das vezes como um estereótipo de criada bondosa, matrona, subserviente e com grandes risadas. Sua mais notável interpretação foi Delilah Johnson, a governanta da primeira versão de “Imitação da Vida” (1934). A história trata da relação fraterna entre duas mulheres, uma branca e outra negra, bem como, dos problemas que elas enfrentam com suas respectivas filhas. Esse filme do mestre John M. Stahl é historicamente significativo, afinal na época a discriminação racial era muito forte. Nunca mais a carismática Louise Beavers conseguiu outro papel de destaque. Morreu de um ataque cardíaco aos 60 anos.


DIAHANN CARROLL
(1935-)

Vinda de uma família pobre, ela abandonou os estudos para seguir uma carreira de cantora. Tornou-se uma das raras modelos negras que se destacaram nos anos 1950, foi amante de Sidney Poitier por dez anos, gravou vários discos, estrelou com sucesso a sitcom “Júlia”, fez em “Dinastia” a primeira vilã negra das séries norte-americanas e interpretou Norma Desmond na Broadway no musical “Sunset Boulevard”. Ela também ganhou em 1962 o prestigiado prêmio teatral Tony por seu trabalho em “No Strings” e foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por “Claudine” (1974). No cinema, brilhou em “Carmen Jones” (1954), “Porgy e Bess” (1959), “Paris Vive à Noite” (1961) e “O Incerto Amanhã” (1966). Recentemente lançou sua autobiografia.



DOROTHY DANDRIDGE
(1922-1965)


Conhecida pela beleza e sensualidade, foi a primeira atriz negra indicada ao Oscar de protagonista - por sua atuação em “Carmem Jones” (1954). Estreou no cinema com apenas 15 anos, na comédia “Um Dia Nas Corridas” (1937), contracenando com os irmãos Marx. Amante do diretor Otto Preminger, nos anos 1950 viveu o auge de sua carreira como atriz, soberba em “A Ilha dos Trópicos“ (1957) e “Porgy e Bess” (1959). Investimentos mal-sucedidos levaram-na a afundar em dívidas e no álcool. Quando a encontraram morta por overdose de barbitúricos, em seu apartamento em West Hollywood, sua conta bancária registrava apenas US$ 2,14. Tinha 42 anos.  


hattie com olivia de havilland e vivien leigh 
em "...e o vento levou"
HATTIE McDANIEL
(1895-1952)

Seus personagens eram alegres, leais e assexuados. No curso de sua carreira, apareceu em mais de 300 filmes, tendo seu nome aparecido nos créditos de apenas 80 deles. Quase sempre interpretando empregadas, certa vez, disse: "Por que devo reclamar enquanto ganho 700 doláres por semana sendo uma empregada nas telas? Se não fosse nas telas, ganharia sete dólares por semana sendo uma de verdade.". Em “A Mulher Que Soube Amar”  (1935) enfureceu o público branco racista pelo papel de uma atrevida e desbocada empregada doméstica. Foi por um personagem parecido, o de Mammy em “… E o Vento Levou(1939), que ela recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, tornando-se a primeira negra a receber tal honra. Sua performance em “Nascida Para o Mal” (1942) também é lembrada por sua interpretação dramática de uma dona de casa cujo filho é acusado injustamente por um atropelamento. Destacou-se em “Desde Que Você Partiu” (1944) e “A Canção do Sul” (1946). Lésbica, teve romances tórridos com duas estrelas belíssimas: Tallulah Bankhead e Claudette Colbert. McDaniel faleceu aos 57 anos. Tinha como desejo ser enterrada no Cemitério de Hollywood, juntamente com alguns de seus parceiros do cinema, mas o dono se recusou a permitir que uma negra fosse enterrada em seu cemitério.


JUANITA MOORE
(1922-)

Nomeada para o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pela segunda versão de “Imitação da Vida" (1959), ela começou a atuar na década de 1950. Fez mais de 30 filmes, entre eles “Uma Viúva em Trinidad” (1952), “Testemunha do Crime” (1954) e “Abby” (1974), além de inúmeras séries para a TV. Ainda viva, semi-aposentada, apareceu pela última vez no cinema na comédia “Duas Vidas” (2000), ao lado de Bruce Willis.


CICELY TYSON
(1933-)

Indicada ao prêmio Oscar de Melhor Atriz graças à sua performance no drama “Sounder – Lágrimas de Esperança”, também é lembrada por “O Pássaro Azul” (1976) e pela minissérie “Raízes”, transmitida em 1977 pela ABC. Recebeu três prêmios Emmy: dois em 1974 e o último em 1994. Foi esposa do trompetista e compositor de jazz Miles Davis. Começou em peças off Broadway, até alcançar o sucesso como Portia no longa “Por Que Tem Que Ser Assim?” (1968). Mas fez poucos filmes, por se recusar a interpretar papéis que não valorizam a mulher negra. Ela é uma das mais talentosas atrizes que já apareceram na tela.

jeanne crain e ethel waters em
"o que a carne herda"

ETHEL WATERS
(18961977)


Cantora de blues, em 1933 participou de um filme satírico intitulado “Rufus Jones para o Presidente”. Em 1942, repetindo o seu papel nos palcos, fez Petúnia no musical de sucesso “Uma Cabana no Céu”, da Metro-Goldwyn-Mayer. Com “O Que a Carne Herda” (1949) foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Em 1950, ganhou o New York Drama Critics Award por sua performance na peça “Cruel Desengano”. Repetiu seu papel na versão cinematográfica de 1952, dirigida por Fred Zinnemann. Depois estrelou a série de televisão “Beulah”. Fez outros bons filmes, como “Seis Destinos” (1942) e “A Fúria do Destino” (1959), mas nunca deixou de reclamar dos papéis degradantes que os atores negros eram obrigados a fazer. Depois que perdeu suas jóias e toda a sua economia num assalto, teve a saúde abalada. Morreu aos 80 anos, vivendo de favor na casa de um jovem casal que cuidava dela.

************* SALA VIP: “PACTO SINISTRO”


farley granger e robert walker
PACTO SINISTRO
STRANGERS ON A TRAIN
(1951)

País: EUA
Gênero: GLS/Suspense
Duração: 101 mins.
P & B
Produção e Direção: Alfred Hitchcock (Warner Bros.)
Roteiro: Raymond Chandler e Czenzi Ormonde
Adaptação de uma novela de Patricia Higsmith
Fotografia: Robert Burks
Edição: William H. Ziegler
Música: Dimitri Tiomkin
Cenografia: Ted Haworth (d.a.) e George James Hopkins (dec.)
Vestuário: Leah Rhodes
Elenco:
Farley Granger (“Guy Haines”), Ruth Roman (“Anne Morton”),
Robert Walker (“Bruno Antony”), Leo G. Carroll,
Patricia Hitchcock,  Laura Elliott e Howard St. John

Nota: ***** (ótimo)

HITCHCOCK E O PACTO SINISTRO


Umas poucas atrapalhações com papéis de viagem deixaram-me preso por mais de dois dias, o que me dá esta boa oportunidade de comentar um excelente filme em cartaz, que ninguém deve perder: PACTO SINISTRO (Strangers on a Train) , direção de Alfred Hitchcock. Posso dizer sem medo de errar que, com sua nova realização, Hitchcock não só volta às boas fontes de sua inspiração cinematográfica, abandonando experiências do gênero “Under Capricorn” e umas poucas outras, como positivamente se ultrapassa, entrando no limitado e rarefeito espaço dos grandes diretores de cinema de todos os tempos. O filme é uma pura maravilha de direção e conhecimento. Pena é que só me seja possível vê-lo uma vez, de partida que estou para Punta del Este. Porque trata-se de uma película que daria uma série de crônicas nas quais pudessem ser analisados para o fã vários setores de produção. Já que não vou poder me estender muito, limitar-me-ei a estudar o estilo do filme, do ponto de vista do diretor. Pois mestre Hitchcock positivamente se acabou de dirigir bem - bem como nos tempos de “39 Degraus”, “O Homem que Sabia Demais”, “Sabotagem” e mesmo - em menor escala – “Correspondente Estrangeiro”. Bem, isto é melhor ainda.

Em PACTO SINISTRO, Hitchcock põe a língua de fora para o Carol Reed de “O Terceiro Homem”. A comparação entre os dois filmes é, sob todos os pontos de vista, desvantajosa para “O Terceiro Homem”, descontada a soberba interpretação de Orson Welles neste último. O celulóide de Reed é muito construído demais, muito virtuosístico demais. O de Hitchcock fica um passo além do virtuosismo - que possui - mas que não ressalta da construção. Consegue ele, de certo modo, o que Mallarmé consegue em poesia - ficando o Carol Reed de “O Terceiro Homem”, com relação a ele, mais ou menos na posição subsidiária de um Valéry, por exemplo. A beleza do processo artístico de Hitchcock resulta disso que, aparentemente, as tramas que ele engendra pouco mais querem que resolver problemas contrapontuais de ação. De posse de um fio geral de ação cria ele o que se poderia chamar de "labirinto simultâneo", paralelismo descontínuo - uma espécie de gongorismo de um barroco simples apesar de aparente complicação que revela. O crime de motivação estranha é em geral o elemento do qual parte para criar esse complexo sistema de movimentos entrecruzados dentro dos quais os seres só não se tocam por milagres de circunstância. De um simples entrechoque de pés de dois homens que se sentam um em frente ao outro num trem, e que dá a um deles a idéia de um crime, que muito tem do mundo de Kafka, resulta esse movimento fugado ao qual, como notas de música, os seres envolvidos ocasionalmente se incorporam, e do qual partem e para o qual revertem sob a fatalidade do inesperado que os impulsiona. Mas isso não significaria muito, e cairia no virtuosismo carolreediano, se Hitchcock não se aproveitasse do processo para dar grandes mergulhos na personalidade humana, para, em duas ou três imagens, pô-la a nu, fazê-la defrontar-se com uma situação determinada, da qual não é causa senão circunstancial. Isso o torna o maior mestre do moderno "suspense" em qualquer arte narrativa.

Só Kafka conseguiu ser tão sutil, e tão dramático, com tanta complexa simplicidade. E possuidor, como é, de uma grande ciência cinematográfica - que se revela na limpeza, instantaneidade de comunicação, bom gosto absoluto, qualidade dos diálogos, da fotografia, do corte, da edição geral do filme - nada falta ao cineasta angloamericano para, que dele se diga que é ímpar em seu estilo e em sua arte. Dirigindo com mão de pluma - a mão de ferro da inteligência - os seus atores, Hitchcock obtém de seus atores desempenhos perfeitos. Estão todos igualmente bons dentro da maior ou menor dificuldade de seus papéis. Para mim os melhores são, sem dúvida, Ruth Roman e Robert Walker, mas mesmo Farley Granger, para mim um ator de menos porte, dá um excelente trabalho. Hitchcock pôs sua filha Patricia numa boa ponta, como a irmã de Ruth Roman, e como em geral faz assinou o filme com a sua presença pessoal. Num dado momento, logo no princípio do filme, quando Farley Granger desce do trem, há um homem gordo que sobe, sobraçando um violoncelo ou um contrabaixo - não estou bem lembrado. Trata-se, meus caros, de Alfred Hitchcock em toda a sua glória.

Texto do poeta e compositor VINICIUS DE MORAES


janeiro 11, 2011

******* O DIRETOR FAVORITO DE GRETA GARBO


greta garbo e john gilbert em "a carne e o diabo"
Submisso aos propósitos e à estética de um poderoso estúdio – Metro-Goldwyn-Mayer -, CLARENCE BROWN (1890-1987) dirigiu as estrelas mais populares de sua época – Greta Garbo e Clark Gable em sete filmes, Joan Crawford, Rudolph Valentino, Norma Shearer, Myrna Loy, John Gilbert, Dolores Del Rio, John Barrymore, Ramon Novarro, Ronald Colman, Spencer Tracy, Jean Harlow, Robert Taylor, Irene Dunne, Katharine Hepburn, James Stewart, Gene Tierney etc. – procurando sempre contar uma história da melhor maneira possível, com vistas sobretudo ao sucesso comercial. Sensato, entendia os atores, respeitando os seus sentimentos e, muitas vezes, incorporando suas sugestões em cena. Realizador romântico e sentimental, dotado de muito bom gosto e notável senso plástico, enriqueceu os variados temas que compõem sua filmografia com momentos privilegiados de mise-em-scène. Pelo estilo límpido e elegante e pela beleza visual de suas imagens, tornou-se um dos diretores mais refinados de Hollywood. Ele tinha habilidade para tratar de personagens femininas, senso de estrutura dramática e preocupação pelos detalhes.

Nascido em Clinton, Massachussetts, começou como assistente do famoso Maurice Tourneur, ainda no cinema mudo. Seu primeiro filme foi “Mulheres Levianas/Foolish Matrons” (1920) e o último, “O Veleiro da Aventura/Plymouth Adventure” (1952). Rico, devido a investimentos imobiliários, aposentou-se aos 63 anos. Na década de 1970, fez inúmeras palestras sobre o seu ofício no circuito de festivais de cinema, em parte graças à sua conexão com Garbo. Esta costumava dizer que ele era o seu diretor favorito. Dirigiu 53 filmes, sendo indicado ao Oscar por 6 vezes, mas nunca chegou a ganhá-lo: em 1930, “Anna Christie”; novamente em 1930, “Romance”; 1931, “Uma Alma Livre”; 1943, “A Comédia Humana”; 1945, “A Mocidade é Assim”; e 1946, por “Virtude Selvagem”. CLARENCE BROWN costuma dizer que “A Comédia Humana” era o seu filme predileto: “Cada cena saiu direto do meu coração”. No entanto, o mais ousado foi “O Mundo Não Perdoa”, um libelo contra o preconceito racial baseado numa novela de William Faulkner. Morreu de problemas no rim, beirando os 100 anos.

clarence brown
Os dez melhores filmes de CLARENCE BROWN:

O ÁGUIA/The Eagle (1925)
Um tenente cossaco (Rudolph Valentino) torna-se defensor dos pobres e oprimidos, e jura vingança contra um usurpador dos bens de sua família, mas se enamora pela filha deste (Vilma Banky).

A CARNE E O DIABO/Flesh and Devil (1926)
Dois amigos de infância (John Gilbert e Lars Hanson) se apaixonam por uma mulher casada (Greta Garbo). O marido dela descobre o idílio, trava-se um duelo e ele morre. Um dos amigos parte em missão no exterior, o outro fica consolando a viúva. Três anos depois, o outro volta, reacendo o triângulo amoroso e ameaçando uma velha amizade.

ANNA CHRISTIE/idem (1930)
Prostituta (Greta Garbo) se apaixona por um marujo (Charles Bickford). Ao saber de sua vida passada, ele a abandona.

ANNA KARENINA/idem (1935)
Na Rússia de 1897, aristocrata casada e infeliz (Greta Garbo) torna-se amante de um conde (Fredric March) e, apesar do afeto pelo filho (Freddie Battholomew), abandona o lar.
Melhor Filme Estrangeiro no Festival de Veneza


FÚRIAS DO CORAÇÃO/ Ah! Wilderness (1935)
O dia-a-dia de uma família do interior da Nova Inglaterra, por volta de 1906. Com Wallace Beery, Lionel Barrymore e Mickey Rooney.

INGRATIDÃO/Of Human Hearts (1938)
O filho (James Stewart) de um pregador religioso (Walter Huston), cirurgião durante a Guerra Civil, esquece suas raízes e afinal se redime.

E AS CHUVAS CHEGARAM/The Rains Came (1939)
Médico indiano (Tyrone Power), que se dedica aos necessitados, relaciona-se com uma fútil aristocrata inglesa (Myrna Loy) e seu grupo, quando ocorre um terremoto.

A COMÉDIA HUMANA/ The Human Comedy (1943)
A vida de uma família em cidadezinha interiorana durante a Segunda Guerra Mundial. Com Mickey Rooney, Van Johnson, Donna Reed e Robert Mitchum.

VIRTUDE SELVAGEM/ The Yearling (1946)
Filho único (Claude Jarman, Jr.) de um casal de fazendeiros (Gregory Peck e Jane Wyman), habitantes de um lugar ermo na Flórida, vive em comunhão com a natureza até entrar em choque com a cruel realidade da vida.

O MUNDO NÃO PERDOA/Intruder in the Dust (1949)
Numa cidade do Sul dos EUA, um negro (Juano Hernandez) é acusado do assassinato de um branco. Preso e ameaçado de linchamento, encontra apoio em um garoto branco (Claude Jarman, Jr.), que procura prova que o inocente.

(Fonte: “Os Profissionais de Hollywood, Vol.6: Capra, Cukor e Brown”, de Allen Estrin, e “Cinemin”)

otto kruger e joan crawford dirigidos por clarence brown